Imagina um pai tão apegado ao seu dinheiro que prefere ver o próprio filho morrer a gastar uma moeda com um médico de verdade. E imagina que esse filho, depois de morto, volta como um ser de luz só pra ensinar ao pai a coisa que ele nunca aprendeu em vida. O que será que esse rapaz de brincos dourados veio dizer? A resposta a essa pergunta atravessa a fronteira entre a morte e a vida, e mexe com a parte da gente que costuma fechar a mão quando devia abrir o coração. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, o futuro Buda, o Bodhisatta, que aparece às vezes como pessoa, às vezes como animal, às vezes, como nesse conto, como uma presença que vem do alto pra acertar o que ficou torto aqui embaixo.
Havia, num tempo antigo, um homem chamado Adinapubaka, o nome dele, repara, já contava a história inteira, queria dizer mais ou menos aquele que nunca deu nada a ninguém. E era exatamente isso que ele era, requíssimo, as arcas cheias de ouro, os celeiros transbordando, e a alma seca feito poço no fim da estiagem. Esse homem tinha pavor de gastar. Cada moeda que saía da casa dele saía como se arrancasse um pedaço da própria carne. Os mendigos passavam batido pela porta dele, porque já sabiam, ali não cai nem migalha. Esse homem tinha um filho único, um rapaz que ele amava do jeito torto que sabia amar.
E pro filho ele mandou fazer um par de brincos de ouro lavrado, lindos, caprichados. Por isso o moço ficou conhecido por todo mundo como Mata Kundali, o do brinco polido, o jovem dos brincos reluzentes. Aqui está a ironia do velho avarento. Ele gastava ouro pra enfeitar o filho, porque isso era vaidade, era mostrar pros outros o quanto ele tinha, mas gastar pra cuidar do filho, pra salvar a vida do filho, ah, isso já era outra história, porque aconteceu o que tinha que acontecer. O rapaz adoeceu, uma febre o derrubou na cama, o corpo amarelando, a respiração ficando curta, e o pai, aquele pai, em vez de chamar um médico de verdade, começou a fazer contas.
Médico cobra caro, ele pensava, vai querer remédio, vai querer pagamento, então ele foi de médico em médico, mas só perguntando, só catando o conselho de graça na soleira da porta, sem nunca pagar a consulta de verdade. Pegava um chazinho aqui e uma raiz ali, qualquer coisa que não custasse nada, e o filho ia mingando, quando a doença chegou ao ponto em que nem o pão duro mais sovina aceitaria pagar, porque já não tinha mais cura, aí sim o velho tomou uma decisão. Mas repara que decisão. Ele tirou o filho de dentro de casa e o deitou na varanda, do lado de fora, se ele morrer aqui dentro, pensou o avarento, as pessoas que verem ao velório vão ver as minhas riquezas, vão ver o ouro, vão cobiçar o que é meu.
Ele tinha mais medo dos olhos dos outros sobre o seu tesouro do que dor da morte do próprio menino. Então, pois o filho para fora, para morrer longe das arcas, e foi ali, naquela varanda sozinho abandonado que o jovem matacundali fechou os olhos. Mas nos últimos instantes alguma coisa aconteceu dentro dele, conta-se que o Bodhisatta, o futuro Buda, andava por ali naquela época e radiando aquela serenidade dos seres que já caminham na direção do desperto; e o rapaz, mesmo na agonia, sentiu nascer no peito uma fé limpa, uma confiança serena naquilo que é bom, naquilo que é verdadeiro.
Não teve tempo de fazer grandes feitos, não construiu templos, não deu grandes esmolas. Só teve no último sopro o coração voltado com confiança para o bem. E isso, esse conto está dizendo, isso bastou, porque o jovem morreu, e por causa daquela fé serena no momento da passagem, renasceu radiante num dos mundos celestiais, vestido de luz, jovem para sempre e feliz. E lá de cima, olhando para baixo, ele viu o pai, viu o velho Adina Pubaca chorando no cemitério, rolando na terra, chamando o nome do filho que ele deixara morrer na varanda para economizar; então o jovem de luz desceu, pomou de novo a forma do rapaz dos brincos dourados e apareceu perto do cemitério, e começou também ele a chorar e a se lamentar.
Mas por uma coisa esquisita, o pai, vendo aquele moço resplandescente que era a cara do seu filho, perguntou por que ele chorava, e o jovem respondeu que tinha mandado fazer uma carruagem de ouro, lindíssima, mas que faltavam as rodas, e que ele queria as rodas, e por isso chorava. O pai, prático como todo o avarento, disse, mas que bobagem, rapaz, eu mando fazer rodas de ouro para você, de prata, de joias, do que você quiser, para que chorar por uma coisa tão pequena, e o jovem celestial sorriu, e deu o golpe gentil, você se oferece para me dar rodas de ouro que eu posso ver e tocar, mas você chora ali por um filho que não pode mais voltar, qual de nós dois está sendo mais tolo, eu choro por uma roda que ainda dá para fazer, você chora por um morto que não volta, e mais que isso pai, enquanto eu estava vivo, você não me deu nenhum médico, agora que estou morto você se desfaz em lágrimas, de que serve a sua dor agora, e revelou quem era, e contou ao pai que tinha renascido feliz não pelo ouro que o pai guardava, mas pela fé serena que floresceu no seu último instante, e ensinou ao velho o caminho do dar, da generosidade, da confiança no bem, e o velho avarento finalmente abriu a mão e o coração, e passou a viver com generosidade.
Agora repara no que esse conto está dizendo, a virtude aqui é dupla, é a fé serena, a confiança no que é bom, capaz de transformar até o último suspiro de uma vida, e é a generosidade, o dana que é justo aquilo que faltava no pai, o avarento tinha tudo e não tinha nada, porque um tesouro que você não consegue compartilhar com ninguém, nem com o próprio filho deixou de ser riqueza e virou prisão, e olha como isso ecoa no nosso tempo. A gente também faz contas demais com as pessoas que ama, a dia a consulta porque está caro, a dia a viagem com o pai porque agora não dá, a dia o telefonema, a dia o abraço, a dia o eu te amo pra um momento mais conveniente que nunca chega, e acumula, acumula coisas, números numa tela, pontos, saldos, como se a vida fosse uma arca pra encher, e aí no cemitério, a gente descobre, igual ao velho adinapubaca, que estava chorando pela roda errada, aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa pessoa que você ama e com quem, lá no fundo você anda fazendo conta, segurando a mão, adiando um gesto por causa de tempo, de dinheiro ou de orgulho, hoje abre a mão por essa pessoa, faz uma coisa só, concreta, sem calcular o retorno, paga aquela consulta, faz aquela ligação, dá aquele abraço demorado, porque a hora de cuidar de quem a gente ama, é enquanto a pessoa ainda está na sala, e não depois, na varanda.