Imagina um homem tão rico que poderia alimentar uma cidade inteira por anos, e ainda assim escondido num canto da casa, sozinho, comendo arroz queimado e aguado, com medo de que alguém visse e quisesse dividir, o que faz uma pessoa cheia de tudo se sentir tão vazia que não consegue dar nenhuma colher, deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, vida após vida, como Bodhisatta, às vezes ele aparece como rei, às vezes como animal, às vezes, como nesta história, como o próprio saca, o Senhor dos Devas, descendo do céu para dar um jeito num coração travado, tinha em Benares um banqueiro chamado Kossia, mas todo mundo na cidade o conhecia por outro nome, Bilare Kossia, o Kossia Rato, o Avarento, e o apelido era justo, o homem tinha 80 cofres cheios de moedas, terras, celeiros transbordando de grão, e vivia como o mais miserável dos mendigos, não por necessidade, por doença da alma, a mesquinha tinha tomado conta dele como uma erva da minha toma conta de um jardim abandonado, repara no tipo de tormento que ele se impunha, quando dava fome de algo bom, ele lutava contra a própria vontade por dias, com medo do gasto, e um belo dia à vontade venceu, ele desejou comer arroz cozido com leite, mel e açúcar, da quele jeito que se faz nas casas de festa, mas pensa só no que passou pela cabeça dele, se eu mandar fazer em casa, todo mundo vai querer um pouco, vou ter que dividir.
A ideia de dividir do ia mais do que a fome, então o que ele fez, esperou, esperou ficar doente, fingiu uma doença para ter desculpa de não trabalhar, e disse a esposa que ia poder se recolher, pegou os ingredientes as escondidas, embrulhou tudo, subiu sozinho a uma floresta, achou um lugar afastado atrás de um arbusto, acendeu um fogo escondido, e começou a cozinhar o seu arroz doce ali, longe de qualquer olhar humano, para não ter que oferecer a ninguém, pensa na cena, um dos homens mais ricos do reino, agachado no mato como um ladrão, escondendo comida de si mesmo, na verdade, do próprio bom coração que ele havia trancado, foi aí que o céu reparou, o bode sata, naquele tempo nascido como saca, o rei dos devas, olhou para a terra e viu aquele homem definhando, não de pobreza mas de avareza, e saca pensou, esse aqui precisa de remédio, e decidiu curá-lo, não com castigo, com presença, saca chamou quatro grandes seres do mundo dos devas, e juntos eles desceram a terra disfarçados de brâmanes, de andarilhos pedintes, combinaram entre si, vamos um de cada vez, quando o arroz de cozia estava quase pronto soltando aquele cheiro doce no ar da floresta, surgiu o primeiro brâmane na trilha, amigo, disse ele, estou viajando a dias, confome, me dá um pouco do seu alimento, cozia quase teve um troço, não tem comida aqui pra você, resmungou, vai procurar em outro lugar, eu mesmo cozinhei isso com dificuldade, mas o brâmane não saiu, sentou-se e começou a falar, com toda a calma do mundo, sobre como o pão guardado só pra si apodrece, enquanto o pão repartido alimenta dois, antes que cozia conseguisse se livrar dele, chegou o segundo, e depois o terceiro, e o quarto, quatro andarilhos, um atrás do outro, cercando o pobre avarento, e o seu panelinha de arroz doce, cada um pedia uma porção, cada um, ao ser recusado, sentava e dizia uma verdade gentil, um falou que a riqueza que a gente não usa pra fazer o bem é como um lago que ninguém pode beber, de que serve a água que só serve pra evaporar, outro falou que quem só recebe e nunca dá vai pela vida com as mãos sempre fechadas, e mãos fechadas não conseguem segurar nada, nem felicidade, o terceiro lembrou que a morte vem pra todos, e que ninguém leva um único grão de arroz pro outro lado, mas leva sim o que repartiu, porque o bem feito vira semente, e então o quinto deles, o próprio saca, fez algo que abriu de vez os olhos de cocia, diante daquele homem que apertava a comida contra o peito, saca começou a revelar quem eles eram de verdade, um dele se erguiu no ar, outro deixou o corpo brilhar com a luz dos devas, a floresta inteira apareceu se acender, e cocia tremendo entendeu, não eram mendigos comuns, eram seres do céu que tinham descido só por causa dele, só pra alcançá-lo, e pela primeira vez na vida, o coração travado dele começou a ceder, não de medo, de vergonha boa, daquela que limpa, ele olhou pro próprio arroz doce, olhou pras quatro figuras radiantes, e a casca de pedra que ele tinha construído em volta do peito durante uma vida inteira simplesmente rachou, com mão, ele disse, com a voz embargada, comam tudo, e me ensinem, eu não quero mais viver assim.
Saca sorriu, e ali mesmo naquela floresta, explicou a cozia o caminho da generosidade, o dana, como abrir os celeiros, como construir casas de repouso para os viajantes, como dar comida a quem tem fome, água a quem tem sede, cozia voltou pra cidade um homem diferente, os oitenta cofres, que antes só serviam pra angustiá-lo, viraram a alegria de tanta gente, e o homem que tinha medo de uma colher de arroz morreu, anos depois, rico de um jeito que cofre nenhum mede, agora, repara no que esse conto está dizendo, a avareza não é só não querer dar dinheiro, é um medo. Um medo de que, se eu soltar qualquer coisa, vai me faltar.
E olha como a gente vive isso hoje, sem perceber. A gente acumula notificações, contatos, seguidores, mas tem dificuldade de dar atenção de verdade a uma pessoa na nossa frente. A gente junta tempo como quem junta moeda, sempre ocupado demais pra ouvir alguém, sempre compressa de voltar pro próprio panelinha escondido atrás do arbusto, que hoje a gente chama de tela, cozia escondia arroz doce, a gente esconde presença, e, igual a ele, achamos que estamos nos protegendo, quando na verdade estamos só ficando mais pobres por dentro. A cura, no conto, não veio de mais riqueza, veio de alguém sentar do lado e dizer uma verdade com gentileza, até a casca rachar.
Aqui vai uma coisa pra hoje, pensa em algo que você anda segurando com a mão fechada, pode ser dinheiro, mas talvez seja o seu tempo, a sua ajuda, um elogio que você não dá - um perdão que você guarda. Hoje, escolha uma coisa só e reparta, dê aquela atenção, faça aquela ligação, ofereça aquele lugar, não espere ficar rico, nem sobrar, nem o momento perfeito, faça a casca rachar um pouquinho, de propósito, porque, como cozia descobriu agachado no mato, a gente não fica mais pobre por dar, a gente só descobre o quanto estava preso.