Imagina que você é feio, sujo, barulhento e passa o dia inteiro brigando por restos no lixo da cidade, e de repente voando lá no alto você vê uma criatura de penas douradas, calma, leve e do tamanho de um sonho. E aí vem a pergunta que vai apodrecer dentro de você, porque ele e não eu, porque aquela beleza toda para um e para mim só sujeira. Deixa eu te contar, esse é um dos jatacas. Os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, ainda estava no longo caminho de se tornar Buda, vida após vida. Nesses contos ele aparece às vezes como rei, às vezes como sábio e muitas vezes como animal.
Nessa história, ele aparece como um ganso dourado. Eram um par de ganso selvagens desses que os antigos chamavam de cacavaca, que viviam as margens de um grande rio perto de uma ilha tranquila. Eram dois, macho e fêmea, sempre juntos. E o que chamava atenção neles era a cor. Mas penas tinham um tom de ouro vivo, de cobre brilhando ao sol, uma coisa tão bonita que quem passava de barco parava de remar só para olhar. Eles se alimentavam de musgo do rio, de plantinhas tenras das margens, de caramujos limpos da água corrente, comida simples, comida da natureza, comida que não custava briga com ninguém e viviam contentes.
Voavam lado a lado, descansavam lado a lado e a beleza deles parecia brotar de dentro de uma vida sem peso na consciência. Agora na cidade ali perto viviam um corvo, corvo comum, dos que a gente vê em qualquer lugar preto, esperto e faminto. Ele e a esposa também eram dois, mas a vida deles era outra. Viviam dos restos da cidade, catavam peixe podre jogado na beira, ossos roídos, comida estragada que os homens descartavam, sobras gordurosas das cozinhas, comiam de tudo. E quanto mais gordo e mais podre, mais eles disputavam. E, vivendo assim, as penas do corvo eram aquele preto fosco, sem brilho, da cor da fuligem.
Um dia voando à toa, os dois corvos passaram sobre o rio. E a corva olhou pra baixo e viu o casal de gansos dourados deslizando na água, reluzindo. Ela parou no galho de uma árvore com o coração apertado de inveja e cutucou o marido, olha aqueles dois, olha a cor deles, ouro puro, e olha pra você todo preto, todo sujo. Eu quero, eu quero ter aquela cor. Descobre como eles ficaram assim e fica assim também, pra mim. O corvo, pra agradar a esposa, desceu até a margem, chegou perto dos gansos com aquele jeito meio bajulador, meio cobiçoso, e perguntou, amigos vocês são as criaturas mais lindas que eu já vi, essas penas de ouro, esse brilho, me diz por favor, o que vocês comem pra ficar assim tão belos, que comida especial é essa, eu também quero ser dourado, e o ganso, o Bodhisatta, olhou pra ele com calma, sem desprezo, repara, sem rir da cara dele, só com uma serenidade quem entende as coisas, e respondeu, amigo o corvo, não é comida nenhuma que me deixou assim, o corvo não entendeu, como não, mas então o que, você come carne, come peixe gordo, me conta que eu como dobro, e o ganso disse devagar, pra ficar claro, eu vivo perto da água limpa, como o que a natureza oferece sem que eu precise machucar ninguém, o musgo, as plantinhas, o que é simples e tranquilo, não disputo comida com ninguém, não vivo de cobiça, não passo dia brigando por restos, e o meu coração é leve, porque a minha vida é leve, veja amigo, a sua cor não vem da sua boca, ela vem de como você vive, você come daquilo que é gordo, daquilo que é podre, daquilo que se conquista na briga e no medo, e o seu corpo por fora, só mostra o que a sua vida é por dentro, eu não ficaria dourado comendo o que você come, e você não ficaria dourado nem que comece o meu musgo, a cor não está no prato, a cor está no modo de viver, o corvo ficou ali, parado, não tinha resposta, porque no fundo ele sabia, ele queria a beleza sem querer a vida que produz a beleza, queria o ouro das penas sem largar a sujeira do lixo, e voltou pra esposa de cabeça baixa, ainda preto, ainda faminto, levando só aquela verdade incômoda no bico, agora repara no que esse conto está dizendo, a gente vive numa época que é praticamente feita pra produzir corvos cobiçando ouro alheio, você abre o celular e é uma fileira sem fim de gansos dourados, gente bonita, viagem bonita, casa bonita, corpo bonito, paz bonita, e vem aquele aperto, porque ela, e não eu, e aí a gente faz exatamente o que o corvo fez, a gente pergunta o atalho, o que você come pra ficar assim, aquele produto, que truque, que dieta, que ape, como se a serenidade do outro fosse uma comida que dá pra copiar, como se desce pra ter o brilho de uma vida tranquila sem viver tranquilo, a gente quer o resultado do gansso vivendo a rotina do corvo, a disputa, a pressa, a cobiça, o alimento gordo e podre da comparação, e depois estranha porque continua fosco por dentro, o que o Bodhisatta ensina aqui é simples e duro ao mesmo tempo, a beleza que importa a compra nem se imita, ela se vive, o brilho do gansso é só o reflexo de um coração que não anda em guerra, os antigos chamariam isso de santosa, o contentamento, a paz de quem se alimenta do simples e não vive de inveja, e o preto fosco do corvo não é castigo de ninguém, é só o retrato honesto de uma vida passada catando o que os outros descartam, sempre olhando pro prato a leio.
Aqui vai uma coisa pra hoje, da próxima vez que você vê que ela apontada de inveja olhando a vida brilhante de alguém, não pergunte o que ele tem que eu não tenho, pergunte outra coisa, como ele vive que eu não vivo. E aí, em vez de cobiçar a cor, experimente uma colher do musgo do gansso, escolha hoje uma coisa simples e limpa sem disputa, coma com calma, durma sem rolar a tela, faça um bem pequeno sem plateia, a cor não está no prato dos outros. Ela vai nascendo devagarinho, do jeito como você vive o seu próprio dia.