Os enigmas profundos respondidos pela sabedoria

Budismo · Temporada 18 · Episódio 14 de 16 — em ordem cronológica

Sua vida depende de uma resposta agora. Mas você sabe qual é a verdadeira pergunta?

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Transcrição

Imagina que um rei te chama no meio da noite, te senta na frente dele e te faz uma pergunta que ninguém no reino inteiro soube responder. Uma pergunta que parece simples, mas que esconde um abismo embaixo. E ele te olha e diz, a sua vida depende da resposta certa. O que é que sai da sua boca? A maior parte da gente nessa hora fala qualquer coisa, só pra não ficar calado. Mas tem um tipo de pessoa que, antes de responder, primeiro entende de verdade o que tá sendo perguntado. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava trilhando o caminho, vida após vida, pra se tornar Buda.

A gente chama esse ser de Bodhisatta, o Buda em formação, e nesses contos ele aparece de tudo. Ora como rei, ora como animal na floresta, ora, como nesse aqui, como um jovem de sabedoria tão funda que o nome dele virou justamente isso, Buri, que quer dizer larga como a terra. Uma sabedoria larga, espaçosa, que cabe tudo dentro. Conta a história que, num certo reino, vivia um sábio velho, conselheiro do rei. Esse sábio tinha um sobrinho, um rapaz ainda jovem, mas de quem todos diziam baixinho. Aquele ali pensa diferente. O nome dele era Buri, o sábio. E o velho conselheiro, sentindo que os anos pesavam, foi um dia até o rei disse, Majestade, eu já estou cansado, e tem alguém melhor do que eu pra ficar no meu lugar.

Seu próprio sobrinho, não pela idade, mas pela cabeça, o rei desconfiou, claro. Como é que um menino ia substituir um conselheiro de cabelos brancos? Mas o velho propôs uma coisa, Majestade, não acredite na minha palavra. Teste o rapaz, junte os homens mais espertos da corte, junte os sacerdotes, os astrólogos, os juízes, e deixe que façam a ele as perguntas mais difíceis que conhecerem. Se ele responder, fica, se não, eu continuo. E assim foi feito, espalharam a notícia pelo reino, quem tiver um enigma que ninguém saiba responder, traga a corte, vai ter recompensa. E o povo veio, veio gente sábia, gente esperta, gente que tinha guardado a vida inteira, aquela pergunta que parecia não ter resposta.

E o jovem Buri foi sentado num lugar de honra, e um a um eles começaram a soltar os enigmas. Repara numa coisa que vai se repetir o conto inteiro. Toda vez que alguém soltava uma pergunta torta, cheia de armadilha, o rapaz não se atrapalhava, ele não respondia rápido para parecer inteligente, ele primeiro virava a pergunta do avesso calado, na própria cabeça, perguntava a si mesmo, o que essa pessoa está querendo saber de verdade aqui embaixo das palavras, onde está a parte que parece uma coisa e é outra, vinha um e dizia, querendo confundir, o que é que cresce quando você tira dele, e diminui quando você junta, e o jovem Sereno respondia falando do buraco, que fica maior justamente quando você cava mais terra para fora, vinha outro com um enigma sobre o que carrega o mundo nas costas sem nunca reclamar do peso, e ele respondia falando da paciência, da terra que aguenta tudo que jogam em cima dela, vinha um terceiro perguntando qual é o tesouro que, quanto mais você gasta, mais você tem, e ele sorria e falava do conhecimento, que não se esvazia quando a gente reparte, só cresce, e o que impressionava não eram só as respostas, era o jeito, ele não humilhava ninguém, não fazia cara de quem sabe mais, cada um que chegava com a pergunta achando que ia derrubar o rapaz saía dali tratado com respeito, como se a pergunta dele tivesse sido a coisa mais importante do mundo, a sabedoria dele não vinha sozinha, vinha de mãos dadas com a gentileza, um dos enigmas dizem foi o mais cabeludo de todos, perguntaram a ele algo assim, existe um homem que mata o pai, mata a mãe, mata dois reis, e ainda destrói um reino inteiro, e mesmo assim segue sem culpa livre em paz, quem é esse homem, a corte ficou em silêncio, soa como o pior dos criminosos, mas Buri respirou e respondeu com calma, esse homem é aquele que arranca pela raiz as coisas que de verdade o aprisionam por dentro, o pai e a mãe nesse enigma são o orgulho e o desejo cego, os dois reis são as visões erradas que governam a mente de um jeito tirano, e o reino destruído é o apego inteiro, com tudo que ele cobra da gente, quem mata isso dentro de si não vira criminoso, vira livre, a corte ficou muda, o rei, que tinha entrado naquela sala desconfiado, levantou e fez do menino o seu conselheiro, mas o detalhe mais bonito é o que o velho tio tinha dito desde o começo, não era memória, não era esperteza decorada, era uma sabedoria que primeiro entendia e só depois respondia, agora repara no que esse conto está dizendo pra você, hoje com o celular na mão, a gente vive no tempo da resposta rápida, alguém te pergunta uma coisa e antes mesmo da frase terminar, você já está formulando o que vai dizer, nos comentários então, é uma corrida, quem responde primeiro, quem dá a tirada mais afiada, quem cala o outro, a gente confundiu velocidade com sabedoria e confundiu vencer a conversa com entender a conversa, o jovem buri faz o contrário de tudo isso, a força dele não estava em falar muito, estava em escutar fundo antes de falar, ele tratava cada pergunta até a mais hostil, como algo que merecia ser realmente compreendido, sabedoria, no budismo, pana não é acumular informação, é enxergar as coisas como elas são, embaixo da aparência, e isso quase nunca acontece na pressa, acontece aqui no silêncio de um c e a mais, naquele instante em que você segura a língua e pergunta pra si mesmo, o que está sendo perguntado aqui de verdade, a gente perdeu esse segundo, e com ele, perdeu metade das nossas conversas, que viraram duas pessoas falando ao mesmo tempo sem ninguém ouvir ninguém, aqui vai uma coisa pra hoje, na próxima vez que alguém te fizer uma pergunta, ou soltar uma provocação, ou te mandar aquela mensagem que já te deixa com o sangue quente, faz o que o jovem sábio fazia, antes de responder, conta um silêncio e pergunta pra você mesmo, o que essa pessoa está querendo de verdade, qual é a pergunta embaixo da pergunta, só isso, um segundo, porque a resposta sábia quase nunca é a mais rápida, é a que veio depois de você terem fim, entendido?