Você acorda, olha pela janela e vê um corvo pousado bem na frente da sua porta, ou tropeça no primeiro passo ao sair de casa, ou alguém espirra bem na hora em que você ia tomar uma decisão importante, e aí bate aquele frio na barriga. Será que isso é mau sinal? Será que hoje não é meu dia? Pois é exatamente sobre isso que esse conto fala, sobre o que é, de verdade, um bom agouro. E a resposta vai virar do avesso tudo o que a gente costuma achar, deixa eu te contar. E esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, vida após vida, nascendo às vezes como homem, às vezes como bicho, sempre construindo virtude, e nessa vida ele nasceu como um mestre famoso, um professor sábio numa cidade chamada Benares, cercado de muitos discípulos que vinham de longe para aprender com ele.
A história começa com uma discussão boba que vira uma briga séria, estavam ali, num salão, um monte de gente conversando, e o assunto caiu naquilo que todo mundo adora discutir até hoje, sinais, presságeos, o que dá sorte e o que dá azar. Um homem se levantou e disse, com toda a convicção, eu sei o que é um bom agouro, é o que a gente vê. Se de manhã cedo você avista uma coisa bonita, um touro branco bem gordo, uma moça enfeitada, um pote cheio, um peixe vivo, então o dia vai ser próspero. Os olhos é que trazem a sorte, o agouro está no que se vê. Outro homem levantou e discordou na hora, que nada, o agouro não está nos olhos, está nos ouvidos, é o que a gente escuta.
Se logo cedo você ouve uma palavra boa, alguém dizendo crescei, prosperai, alguém falando coisa de fartura, aí sim o dia vai ser bom, é o que entra pelo ouvido que decide. E um terceiro se ergueu irritado com os outros dois, bobagem dos dois lados, o agouro está no tato, no que a gente toca, se de manhã você pisa na terra macia, toca numa roupa nova, sente a relva fresca sob os pés, encosta num grão limpo, esse contato é que traz a boa sorte para o dia inteiro. E os três começaram a brigar, cada um defendendo o seu sinal, o seu jeito de adivinhar a sorte. Olhos, ouvidos, mãos, ninguém cedia, a discussão esquentou tanto que não dava mais para resolver ali.
E alguém disse, vamos perguntar pro mestre, ele vai saber, e foram todos em bando até a casa do sábio. O nosso bode sata, chegaram e contaram a confusão, mestre, um diz que o bom agouro está no que se vê, o outro no que se ouve, o outro no que se toca, qual deles tem razão? E o sábio, com toda a calma, sorriu daquele jeito de quem vai desmontar uma pergunta inteira. E respondeu assim, eu não digo que o que vocês veem com os olhos seja agouro, nem o que escutam com os ouvidos, nem o que tocam com as mãos, o verdadeiro agouro, o sinal de verdade, aquele que de fato traz prosperidade para a vida de alguém, não está em nenhum toro branco, em nenhuma palavra ouvida na rua, em nenhuma relva sob os pés.
O verdadeiro bom agouro é a boa conduta, é o que você faz, e ele explicou, devagar. O homem que faz o bem é o seu próprio bom presságio, aquele que cumpre o seu dever, que cuida dos pais, que respeita os mais velhos, que fala a verdade, que não tira o que é dos outros, que trata os seres com bondade, esse homem carrega a sorte dentro de si. Pra onde ele for, a boa conduta vai junto, como uma sombra que não desgruda. Que toro branco vai te salvar de uma mentira que você contou? Que palavra ouvida na rua vai apagar uma crueldade que você cometeu? Nenhum sinal de fora conserta o que está torto por dentro.
E aí ele disse a frase que é o coração do conto, o maior agouro, o agouro acima de todos os agouros, é a própria virtude. Quem age com retidão já amanheceu, todo dia, no lado certo. Não precisa procurar sinal nenhum no caminho, ele é o sinal, os discípulos ficaram em silêncio. Porque a coisa toda tinha se invertido na frente deles, eles vieram perguntando como ler a sorte no mundo lá fora, e ouviram que a sorte não está lá fora, está na maneira como cada um vive. Agora repara no que esse conto está dizendo, porque ele bate em cheio na gente, a gente vive procurando sinal, pode não ser corvo na porta nem touro branco, mas a gente tem os nossos.
O oróscopo da manhã, o número que a gente acha que dá sorte, a camisa que a gente vestiu no dia que deu tudo certo, o aplicativo que promete dizer se hoje é dia de tomar a decisão ou não. A gente terceiriza pra fora a responsabilidade pelo nosso dia. Como se a vida fosse uma loteria de pressajos, e bastasse acertar a leitura dos sinais pra ser feliz. E o conto diz, com aquela gentileza firme, você está olhando pro lugar errado. Enquanto você fica esperando o sinal certo aparecer na janela, a única coisa que realmente molda o seu dia está dentro de casa. É como você fala com as pessoas, é se você cumpre o que prometeu, é se você foi honesto naquele detalhe que ninguém ia notar, é se você tratou bem quem não podia te dar nada em troca.
Isso é o que constrói uma vida boa. Não o corvo, não o número, não a roupa da sorte. No budismo, isso tem um nome simples. Silla, a conduta ética, o agir reto. E o que esse jataca ensina é que Silla não é uma regra chata que te tira a liberdade. É a verdadeira fonte de boa sorte. Porque quem vive em paz com a própria consciência não amanhece com medo de agouro nenhum. Não tem corvo que assuste quem não fez nada de errado. Aqui vai uma coisa para hoje, repara, hoje na primeira vez que você for buscar um sinal lá fora para saber se o dia vai ser bom, pode ser conferir o oróscopo, pode ser aquela mania de achar que começou mal e então vai tudo desandar.
E, em vez de ler o sinal, faz uma única coisa boa de propósito, manda uma palavra gentil para alguém, cumpre uma promessa pequena que você vinha empurrando, fala a verdade num lugar onde seria mais fácil mentir, porque segundo esse conto, foi nesse exato instante que o seu dia virou de sorte, não porque os astros mudaram, mas porque você se tornou, com as próprias mãos, o seu bom agouro.