Imagina que você é o homem mais poderoso de toda uma região, tem exércitos, tem riqueza, tem cidades inteiras que obedecem ao seu nome, e mesmo assim, no dia em que o seu filho mais querido morre, você descobre que não tem absolutamente nada que segure a dor, nada, todo aquele poder, e você fica ali, no chão, quebrado como qualquer um, esse é o ponto de partida desse conto. E a forma como um homem tira o outro daquele buraco, é uma das coisas mais delicadas que os antigos já contaram. Deixe-te contar, esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, andando por inúmeras existências, às vezes como rei, às vezes como animal, sempre aprendendo, sempre puxando os outros um pouco mais para perto da luz.
Nessa história, ele nasce como um homem chamado Gata, e a sabedoria dele vai aparecer não no campo de batalha, mas num quarto silencioso, ao lado de um irmão devastado. Vamos do começo. Havia, naquele tempo, uma grande linhagem de irmãos, filhos de um rei poderoso. Eram muitos, e juntos conquistaram terras, ergueram cidades, dividiram entre si o governo de um rei no vasto, o mais velho de todos, o chefe da família, era um homem de caráter forte, acostumado a vencer, acostumado a mandar. O nome dele, nesse conto, é Vasudeva, e Gata, o nosso Bodhisatta, era um dos irmãos mais novos, calado, observador, daquele tipo que fala pouco, mas que, quando fala, todo mundo presta atenção, Vasudeva tinha um filho, e não era um filho qualquer pra ele, era um menino dos olhos, o orgulho, o futuro, aquele em quem ele tinha colocado toda a esperança de continuidade, de nome, de tudo o que um homem constrói achando que vai durar pra sempre, e o menino adoeceu, e morreu.
Era no que acontece com um homem assim quando a morte entra na casa dele. Vasudeva, que mandava em exércitos, que decidia o destino de cidades, simplesmente desabou, parou de comer, parou de cuidar de si, parou de governar, ficava deitado, agarrado a uma armação de cama, repetindo o nome do filho, chorando como se o mundo inteiro tivesse acabado, porque pra ele tinha. A dor virou uma febre, os médicos não davam jeito, os conselheiros não davam jeito, os outros irmãos tentavam falar, e nada entrava, era como gritar pra alguém que está no fundo de um poço fundo demais, e todos começaram a temer pela vida dele, porque dor assim, quando não encontra uma saída, mata, mata por dentro primeiro, e depois mata por fora.
Foi aí que gata o irmão calado, o nosso Bodhisatta, pensou num jeito, e o jeito dele não foi sentar na beira da cama e dizer tem que ser forte, ele está num lugar melhor, a vida continua. Repara, ele não usou nenhuma dessas frases que a gente joga em cima de quem sofre, e que no fundo não tocam em nada, gata fez uma coisa muito mais sábia, ele começou a andar pelo reino fingindo estar louco, olhava pro céu e gritava, me dá, me dá, parava na praça e implorava as pessoas, a lua, eu quero a lua, me deem a lua do céu, eu não consigo viver sem a lua, andava de um lado pro outro, a mão estendida, o rosto virado pra cima, pedindo, pedindo, pedindo a lua, dizendo que ia morrer se não ativesse, a cidade inteira se assustou, o príncipe gata enlouqueceu, perdeu a razão, quer a lua do céu, a notícia correu, de boca em boca, até chegar ao quarto onde Vasudeva estava deitado, afundado na própria dor, e aqui está o detalhe que faz a coisa toda funcionar, Vasudeva, mesmo destruído, ao ouvir que o irmão querido tinha enlouquecido, sentiu uma nova preocupação cutucar por baixo da dor, levantou-se, mandou chamar gata, e quando o irmão chegou, ainda murmurando sobre a lua, Vasudeva fez o que qualquer pessoa de bom senso faria, tentou argumentar com ele, irmão, o que é isso, a lua é uma coisa do céu, distante, impossível de alcançar, ninguém pode te dar a lua, você está pedindo uma coisa que não existe pra certida, porque se atormentar por algo que está completamente fora do seu alcance, você vai adoecer e morrer chorando por uma coisa que jamais poderá ter, e gata, calmo, virou-se pro irmão e disse mais ou menos assim, espera, deixa eu entender, você acha que eu soltou-lo por chorar pela lua, por uma coisa que ainda está lá no céu, que eu posso ver toda noite, que nunca foi minha pra começar, você diz que eu sofro a toa por algo que está fora do meu alcance, mas então me responde irmão, e você, você chora dia e noite por um filho que já partiu, e não está mais aqui, que não pode voltar de jeito nenhum, quem dos dois está pedindo impossível, eu, que peço a lua que ainda está no céu, ou você, que pede de volta alguém que a morte já levou, e o silêncio caiu no quarto, porque Vasudeva entendeu, naquele instante, ele se viu de fora, viu o tamanho do próprio luto, viu que estava fazendo exatamente o que acabara de chamar de loucura, a lua pelo menos, ainda estava no céu, o filho dele não, gata não tirou a dor dele com o argumento, ele tirou o irmão da prisão em que a dor tinha se tornado, mostrou, com uma gentileza enorme e um pouco de astúcia, que a gente não sofre só porque perde, a gente sofre porque insiste em querer o que não pode mais ser nosso, e Vasudeva, pouco a pouco voltou, comeu, levantou, chorou ainda claro, porque chorar é da gente, mas chorou de um jeito que deixava a vida continuar em vez de um jeito que a empurrava pra fora, agora repara no que esse conto está dizendo, porque é fino, a virtude aqui não é não sentir, gata não pede pro irmão parar de amar o filho nem fingir que não dói, a virtude é a sabedoria sobre a impermanência, o que os budistas chamam de aceitar a nica, a verdade de que tudo o que nasce, passa, tudo, as pessoas que a gente ama, as coisas que a gente junta, o nosso próprio corpo, sofrer é humano, mas o sofrimento que vira poço, aquele que não deixa nem comer nem viver, nasce de uma coisa só, a gente exigir que o impermanente fique permanente, a gente quer a lua, e quando não vem, a gente desabar, e olha pra hoje, a gente vive num tempo que prometeu pra si mesmo que a perda pode ser evitada, backup de tudo, remédio pra tudo, ap pra tudo, a gente não foi ensinado a perder, foi ensinado a controlar, aí quando a morte chega, ou quando uma relação acaba, ou quando um plano desmorona, a gente fica como vaso-deva no chão, agarrado a cama, sem ferramenta nenhuma, porque ninguém nunca nos contou que perder também faz parte, e em vez de um gata por perto, a gente tem mil vozes dizendo supera, vira a página, foca no positivo, frases que não tocam em nada, aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa coisa que você está sofrendo agora por querer de volta, ou por querer que nunca mude, um jeito que as coisas eram, uma pessoa, uma fase, e faz a pergunta de gata pra você mesmo, sem crueldade, com carinho, isso que eu quero, ainda está ao meu alcance, ou eu estou pedindo a lua de um jeito ao contrário, chorando por algo que a vida já levou, só de nomear a diferença, você já solta um pouco do peso, e aí com a mão mais leve, você consegue voltar a viver, que é tudo o que o filho dele, ou a fase que passou, ou a pessoa que partiu e a querer que você fizesse.