Imagina que você chega num lugar onde há quatro portas, atrás de cada uma, um palácio, e em cada palácio, mulheres lindas, comida farta, música, prazer sem fim. Você entra na primeira, fica um tempo e quer mais. Entra na segunda, depois na terceira, depois na quarta, e ainda assim, lá no fundo, uma voz cuchicha. Será que não tem coisa melhor um pouco mais adiante? Você seguiria essa voz. Uma resposta a essa pergunta nesse conto decide se um homem vive com o que tem ou se acaba com uma roda de ferro girando, em brasa, dentro da própria cabeça. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, vida após vida, às vezes como pessoa, às vezes como bicho, aprendendo no couro o que mais tarde ele ensinaria com palavras.
Nessa história, havia em Benares uma família de mercadores, os pais eram pessoas boas, generosas, que respeitavam os cinco preceitos e davam esmolas aos monges e aos pobres. E tiveram um filho chamado Mita Vindaka, esse nome, repara, quer dizer mais ou menos aquele que encontra amigos, mas o rapaz, de amigo da virtude, não tinha nada. Desde cedo, Mita Vindaka era um menino de coração duro, não acreditava em mérito, não acreditava em consequência, ria das oferendas que os pais faziam, pra que jogar comida fora com esses monges, dizia ele. Quanto mais os pais tentavam ensinar bondade, mais ele se fechava, ganancioso e arrogante.
Queria tudo, queria já, e nunca achava que era o bastante. O pai morreu, e a mãe, sozinha, continuou tentando levar o filho pelo bom caminho. Ela pedia com a doçura de quem ama, filho, no dia de lua cheia, fica em casa, guarda o preceito, escuta o ensinamento, dá um pouco de comida a quem tem fome. Mita Vindaka ouvia aquilo como quem ouve o vento. Um dia, ela ofereceu até dinheiro pra que ele apenas fosse ao templo, e sentasse pra escutar. Ele foi pelo dinheiro, dormiu o tempo todo, e voltou sem ter ouvido uma só palavra, cansado da mãe, cansado de tudo. O rapaz resolveu fazer o que muito ganancioso faz, foi atrás demais.
Embarcou num navio de mercadores pra buscar fortuna no mar, e aqui o conto fica simbólico, daqueles que falam por imagem. No meio do oceano, o navio parou, simplesmente parou, sem vento, sem corrente, como se uma mão invisível o segurasse. Os marinheiros, assustados, tiraram a sorte pra descobrir quem a bordo trazia o azar. Três vezes a sorte caiu na mão de Mita Vindaka, três vezes, não tinha como negar. Então fizeram o que era o costume cruel daquele tempo, colocaram o rapaz numa jangada, e o soltaram a própria sorte. E, no instante em que ele se separou do navio, o navio voltou a navegar, livre, leve, como se tivesse largado um peso.
A jangada de Mita Vindaka boiou, e foi parar numa ilha. E nessa ilha havia um palácio de cristal, onde viviam quatro mulheres encantadas. Elas o receberam, e ele viveu ali um bom tempo, em prazer. Mas repara, esses seres tinham um ciclo. Por sete dias gozavam de prazer, e por sete dias pagavam por antigas faltas, sofrendo. Quando chegou a hora delas partirem pro sofrimento, pediram que ele esperasse, que voltariam. Mas a tal voz, aquela voz do mais um pouco adiante, já cochichava no ouvido dele. Ele não esperou, pegou a jangada de novo e seguiu. Chegou a outra ilha, com um palácio de prata e oito ninfas.
Não bastou. Seguiu. Outra ilha. Palácio de joias, dezesseis ninfas. Não bastou. Seguiu. Outra ainda. Palácio de ouro. Trinta e dois. E nada, nada nunca era suficiente. Cada porta que ele abria, em vez de saciar, só aumentava a fome. É essa a armadilha da ganância. Ela promete que o próximo degrau é o último, e nunca é. Seguindo sempre adiante, Mita Vindaka chegou, enfim, a uma cidade cercada por uma muralha, com quatro portas. Por dentro, parecia mais um palácio de delícias, e lá dentro, ele encontrou um homem. Só que esse homem carregava sobre a cabeça uma roda de ferro afiada, girando, cravada no crânio, dilacerando, sangrando.
Mas aos olhos de Mita Vindaka, cego pela cobiça, aquela roda parecia uma flor de lotos, uma coroa preciosa, o sangue parecia perfume, os gritos parecia um canto, que coroa linda, disse ele. Me dá essa, me dá essa coroa. O homem, aliviado, respondeu apenas, é sua, e no mesmo segundo, a roda passou da cabeça do outro para a cabeça de Mita Vindaka, e a ilusão caiu por terra, a flor virou ferro, o perfume virou sangue, a coroa virou tortura, e ele entendeu, tarde demais, que aquele homem também tinha chegado ali pela ganância, também tinha cobiçado, também havia recebido a roda das mãos de outro ganancioso antes dele.
Desesperado, Mita Vindaka perguntou quando aquilo ia parar. E a resposta foi a mais dura possível, a roda só passaria para outro quando aparecesse mais alguém, igualzinho a ele, devorado pelo mesmo desejo, que olhasse para aquele instrumento de dor e enxergasse uma joia, até lá, ele giraria a roda na própria cabeça. E o conto nos diz que o Bodhisatta, o futuro Buda, era naquele tempo um ser divino que observava tudo aquilo, e que, ao contemplar o destino do ganancioso, fixou no coração a verdade, o desejo que nunca desbasta, é uma roda que se carrega sozinho. Agora, repara no que esse conto está dizendo, com toda a delicadeza e toda a dureza ao mesmo tempo.
As quatro portas, os palácios de prata, de joias, de ouro, as ninfas que dobram de número a cada ilha, tudo isso é a fotografia perfeita da nossa cabeça quando ela é governada pelo desejo. A gente conquista uma coisa, e no instante seguinte, já está olhando para a próxima. Trocou de celular, quero o lançamento, subiu de cargo, quero de cima, tenho o suficiente, mas o algoritmo, a vitrine, o feed, tudo coxicha o mesmo mais um pouco adiante que coxichou para Mita Vindaca. E o mais assustador do conto, é a roda parecer flor, porque a ganância não chega para a gente com cara de tortura, ela chega com cara de prêmio, de coroa, de você merece.
A dor só se revela depois que a gente já estendeu a mão e disse me dá, a virtude que esse conto exalta pela ausência dela, é o contentamento, aquilo que empalia a gente chama de santo ti, não é se acomodar nem parar de viver, é a capacidade rara de, no meio das quatro portas, conseguir parar na primeira e dizer, de coração, isso aqui já é bom, já é o bastante. O navio que prendia Mita Vindaca voltou a andar no momento em que o peso saiu, talvez o nosso navio também ande mais leve no dia em que a gente largar o peso de querer sempre o próximo. E aqui vai uma coisa para hoje, pensa numa coisa que você está querendo agora, alguma coisa que sua cabeça apresenta como a coroa, o prêmio que vai finalmente resolver, e antes de estender a mão e dizer me dá, para um instante e pergunta com honestidade, isso é uma flor mesmo, ou é uma roda, e, separado disso, escolhe hoje uma única coisa que você já tem, qualquer uma, sua casa, seu prato de comida, a pessoa do seu lado, e fica com ela em silêncio por um min, sentindo que já basta, esse minuto de já basta é a porta que Mita Vindaca não soube atravessar, atravessa você.