Imagina que você espera por alguém e essa pessoa demora. Não chega na hora, não dá notícia, o tempo passa, passa e nada, e aí do nada você cansa de esperar. E faz uma coisa que mais tarde vai se arrepender pra sempre. Exatamente isso que acontece nessa história. E aconteceu rápido, assustadoramente rápido. Deixa eu te contar. Lembra onde a gente parou? O Moisés tinha subido à montanha pra falar com Deus. E ficou lá em cima muito tempo, 40 dias e 40 noites, 40 dias é muito tempo, pensa no povo lá embaixo, parado no deserto, olhando praquela montanha coberta de fumaça e fogo. O líder dele sumiu lá em cima e não voltava, e a paciência foi acabando.
O texto diz que o povo se juntou em volta do Arão. O Arão era o irmão do Moisés, era ele que tinha ficado encarregado enquanto Moisés estava fora. E eles falam uma coisa que mostra exatamente o que estava no coração deles. Eles dizem "Levanta, faz pra gente deuses que andem na nossa frente". Porque esse tal de Moisés, o homem que nos tirou do Egito, a gente não sabe o que aconteceu com ele. Repara nisso, eles nem falam o nome de Deus, eles falam do Moisés. Como se a presença de Deus dependesse só de ter o Moisés ali. Sumiu o líder, sumiu a fé. E o Arão faz uma coisa difícil de entender.
Em vez de segurar o povo, ele sede, ele diz então tirem os brincos de ouro das suas mulheres dos seus filhos, e me tragam, e eles trazem. E o Arão pega todo aquele ouro, derrete, e molda uma figura. A figura de um bezerro, um boizinho de ouro, pensa no absurdo da cena. Esse mesmo ouro, pouco tempo antes, ia ser usado pra construir a tenda de Deus. Lembra, o ouro da liberdade. E agora ele tá sendo derretido pra fazer um ídolo, uma estátua, e aí piora. O povo olha praquele boi de metal e diz, este é o teu Deus, ó Israel, que te tirou da terra do Egito. Para, e pensa. Eles estavam dizendo que aquele pedaço de metal, que eles mesmos tinham acabado de fazer com as próprias mãos, era o que tinha aberto o mar, o que tinha quebrado o Egito.
Uma coisa que não existia um há de antes. E o Arão, em vez de parar tudo, constrói um altar na frente do bezerro e anuncia uma festa. No dia seguinte o povo faz oferendas, come, bebe e começa uma farra, tudo isso enquanto lá em cima da montanha, o Moisés ainda estava recebendo de Deus as instruções de como o povo devia viver. E é aí que a cena corta pra cima. Deus fala com o Moisés e avisa, desce, porque o seu povo, que você tirou do Egito, já se corrompeu, eles já saíram do caminho. Já fizeram pra si um bezerro de metal e estão adorando aquilo. Repara que Deus está decepcionado, doído, e ele faz uma proposta pesada ao Moisés, ele diz mais ou menos, deixa eu acabar com esse povo.
E eu faço de você Moisés uma nação nova, e aqui acontece uma coisa que diz muito sobre quem o Moisés era. Ele podia ter aceitado, era uma oferta enorme, largar aquele povo difícil e virar o começo de algo novo, só dele, mas o Moisés não pensa em si mesmo, ele começa a defender o povo na frente de Deus. Ele argumenta, ele lembra das promessas, ele intercede, coloca o corpo na frente da gente que tinha acabado de trair, e então ele desce à montanha, carregando nas mãos as duas placas de pedra, as placas com os mandamentos escritas, segundo o texto, pelo próprio dedo de Deus. E enquanto desce, ele começa a ouvir o barulho, o som da festa, da cantoria, da farra e quando ele chega perto e vê, vê o bezerro de ouro, vê o povo dançando em volta, a raiva toma conta dele, e ele faz uma coisa de um simbolismo enorme.
Aquelas duas pedras escritas por Deus, o presente mais precioso que existia, ele joga no chão, e elas se quebram em pedaços, ao pé da montanha, pensa no peso disso, o acordo entre Deus e o povo, literalmente, partido no chão, porque o povo já tinha quebrado esse acordo primeiro, no coração, e aí o Moisés age, ele pega o bezerro, queima no fogo, moe até virar pó, espalha o pó na água e faz o povo beber, como quem diz, olha no que deu o seu Deus de ouro, em nada, em pó na água, e ele se vira para o arão, e pergunta, o que esse povo te fez para você trazer um pecado tão grande sobre eles? E o arão dá uma das respostas mais covardes da Bíblia inteira, ele diz, mais ou menos, ah, o povo é ruim mesmo, eles me pediram, e eu joguei o ouro no fogo, e saiu esse bezerro, como se ninguém tivesse feito, como se o boi tivesse aparecido sozinho, ninguém quer carregar a culpa, e o dia termina pesado, houve consequências duras para aquela traição, o texto não esconde isso, não foi um dia leve, eu fico pensando muito nessa história, e o que me pega não é o bezerro em si, é a pressa, 40 dias, foi só o que eles aguentaram esperar, eles tinham visto o mar abrir, tinham comido o pão que caía do céu, tinham bebido água que saiu de uma pedra, e mesmo assim bastou o líder demorar um pouco para eles trocarem tudo isso por um boizinho de metal que eles mesmos fizeram, e eu acho que isso fala com a gente mais do que parece, porque o ser humano tem dificuldade de esperar no escuro, quando a resposta demora, quando a gente não vê sinal, a gente fica desesperado para ter alguma coisa para segurar, qualquer coisa, mesmo uma coisa falsa, o bezerro de ouro não era sobre adorar um boi, era sobre não conseguir esperar, era sobre querer um Deus que a gente vê, que a gente controla, que cabe no nosso tempo, em vez de confiar num Deus que a gente não vê, e que age na hora dele, não na nossa, aqui vai uma coisa para hoje, pensa numa coisa que você está esperando, uma resposta que não chega, um sinal que demora, uma situação que parece travada, e repara só hoje no que você está tentado a fazer para parar de esperar, que bezerro você está quase moldando, só para ter alguma coisa na mão, uma decisão por desespero, uma escolha só para preencher o vazio da espera, você não precisa resolver isso agora, só perceber, perceber a diferença entre esperar com calma e fabricar uma resposta à expressa só porque o silêncio incomoda, às vezes a coisa mais difícil e mais corajosa é continuar esperando mais um pouco no escuro.