Tem uma frase que um homem disse pra Deus que talvez seja a mais ousada de toda a Bíblia. Ele não pediu riqueza, não pediu poder, não pediu proteção. Ele disse "me mostra, me mostra a sua glória, eu quero te ver". E o que aconteceu depois, é um dos momentos mais íntimos entre uma pessoa e Deus em toda a história. Deixa eu te contar. Lembra do que tinha acabado de acontecer. O povo tinha traído Deus, tinham feito um bezerro de ouro e adorado aquilo, bem na hora em que deviam estar mais perto de Deus do que nunca. Foi feio, foi uma quebra de confiança enorme, e agora venho depois. A relação tinha trincado.
E a pergunta no ar era "como é que segue daqui?" Deus fala com um moisés. E diz pra ele levar o povo em frente, rumo a terra que tinha prometido. A boa notícia continua de pé. Eles vão chegar lá, mas aí vem uma frase que é quase pior do que um castigo. Deus diz "eu vou mandar um anjo na frente de vocês". "Mas eu mesmo não vou no meio de vocês, porque vocês são um povo teimoso, e se eu for junto, no meio do caminho eu poderia destruir vocês". Para nessa frase, Deus está dizendo "vocês chegam lá, vocês ganham a terra, mas eu pessoalmente fico de longe, eu mando um representante, eu não vou no meio".
E quando o povo ouve isso, eles ficam de luto, porque eles entenderam uma coisa. De que adianta a terra, de que adianta tudo. Se quem te ama não está mais ali, perto, no meio, e é aí que o moisés faz uma coisa linda, tinha uma tenda onde o moisés costumava ir pra conversar com Deus. E o texto descreve essa conversa de um jeito que dá um nó na garganta. Ele diz que Deus falava com um moisés cara a cara. Como quem fala com um amigo, cara a cara. Como um amigo fala com outro, e é dali dessa amizade, que o moisés tem coragem de fazer o pedido mais ousado. Ele diz pra Deus mais ou menos "olha, você me manda levar esse povo, mas não me disse quem vai comigo, e se eu de fato achei graça aos seus olhos, então me ensina os seus caminhos, pra eu te conhecer de verdade".
E aí ele aperta, ele diz "se você mesmo não for junto com a gente, então nem nos tire daqui, porque o que faz a gente ser diferente de todos os outros povos da terra, é justamente você ir junto, é a sua presença". Sem isso a gente não é nada. Repara no que o moisés está fazendo. Ele está recusando o prêmio sem o duador. Ele está dizendo "eu não quero a terra se fosse em você, eu prefiro ficar parado no deserto com você do lado, do que chegar no paraíso com você longe, e Deus se comove, e diz ta bem, isso que você pediu eu vou fazer, porque você achou graça aos meus olhos, e eu te conheço pelo nome, eu te conheço pelo nome".
Pensa nisso, e é nesse momento com o coração aberto que o moisés ousa pedir mais, a coisa mais ousada de todas. Ele diz "então por favor, me mostra a tua glória, me deixa te ver", e aí vem a resposta de Deus, que é uma das coisas mais bonitas e mais misteriosas do livro inteiro. Deus diz "eu vou fazer toda minha bondade passar na tua frente, mas o meu rosto você não pode ver, porque ninguém pode ver o meu rosto e continuar vivo, é grande demais, forte demais, como olhar direto para o sol". Então Deus dá um jeito. Ele diz "olha, tem uma fenda numa rocha aqui, você vai se esconder ali dentro, e quando a minha glória passar, eu vou cobrir você com a minha mão enquanto eu passo, e só depois que eu já tiver passado, eu tiro a mão e você vê as minhas costas, mas o meu rosto não, pensa na delicadeza dessa cena".
Deus protegendo o moisés com a própria mão, para que o homem pudesse chegar o mais perto possível sem se machucar, como quem protege os olhos de alguém de uma luz forte demais. E é o que acontece, o moisés sobe de novo a montanha com duas pedras novas nas mãos para substituir as que ele tinha quebrado. E Deus passa na frente dele, e enquanto passa, Deus se descreve, Ele mesmo diz quem Ele é. E o que Ele diz é o coração de tudo. Ele diz o Senhor, o Senhor Deus compassivo e bondoso, lento para se irritar, cheio de amor e de fidelidade. Ora, nessas palavras, logo depois da traição do bezerro de ouro, logo depois de ter sido enganado pelo próprio povo, quando Deus tem a chance de se definir, de dizer com as próprias palavras quem Ele é, a primeira coisa que sai é, compassivo, bondoso, lento para raiva, cheio de amor, e o moisés se curva até o chão e adora e desce a montanha.
Mas dessa vez, uma coisa tinha mudado nele. O texto conta que o rosto do moisés estava brilhando, brilhando de luz. Tanto que o povo teve medo de chegar perto, ele tinha ficado tão perto de Deus por tanto tempo que aquilo escapava pela pele dele. A presença grudou nele, e ele passou a cobrir o rosto com um véu quando falava com o povo. E só tirava o véu quando entrava de novo para conversar com Deus. Eu fico pensando muito nessa história, e o que mais me toca é o pedido do moisés. No momento em que ele podia pedir qualquer coisa, ele não pede coisas. Ele pede presença. Ele pede companhia.
Ele diz no fundo, não me dá nada se não for com você junto. E isso vira o jogo da nossa cabeça. A gente costuma correr atrás das bênçãos, dos resultados, da terra prometida. E esquece que, no fim, o que a gente mais quer não é a coisa. É não estar sozinho. É alguém do lado, no meio do caminho. E tem a outra coisa. O rosto que brilha. O moisés não ficou diferente porque tentou ficar diferente. Ele ficou diferente porque passou o tempo perto. A luz dele era emprestada. Era reflexo. Ele tinha pegado um pouco daquilo só de ficar por perto. Tempo suficiente. Aqui vai uma coisa para hoje.
Pensa numa pessoa que faz você ficar melhor só de estar por perto. Alguém que quando você passa um tempo junto, você sai mais calmo, mais leve, mais você mesmo. E hoje, busque um pedacinho desse tempo. Pode ser uma ligação, uma conversa sem pressa. Sentar do lado em silêncio. Porque a gente reflete a luz de quem a gente fica perto. O moisés brilhou porque ficou junto. E você também pega um pouco da luz de quem você escolhe ter por perto. Você não precisa subir nenhuma montanha. Só escolher bem de quem você chega perto. Hoje.