As instruções para o tabernáculo · Êxodo 25:1–31:18

A Biblia · Temporada 2 · Episódio 20 de 23 — em ordem cronológica

Esqueça templos imponentes e deuses distantes. O poder supremo não quer ser adorado de longe, ele quer ser seu vizinho.

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Transcrição

Imagina que o ser mais poderoso que existe te dissesse uma única coisa, não obedeça. Não tenha medo de mim, mas eu quero morar perto de você. É isso que está no coração dessa parte da história. E é bem mais estranho do que parece. Deixa eu te contar. Lembra onde o povo estava? Eles tinham saído do Egito, atravessado o mar. E agora estavam parados diante de uma montanha enorme no meio do deserto. O monte Sinai. Lá em cima, no meio de fumaça e trovão, Deus tinha falado com eles. Tinha dado os mandamentos. Tinha feito um acordo, uma aliança. E agora, ainda na montanha, Deus chama o Moisés para subir.

E começa a falar com ele por um tempo bem longo. Páginas e páginas de instruções. Mas tudo isso começa com uma frase que muda o sentido de tudo o que vem depois. Deus diz, faça para mim um santuário e eu vou morar no meio deles. Para nessa frase 1c. Até aqui, Deus tinha aparecido de longe, numa nuvem, numa montanha que ninguém podia nem encostar, num fogo que assustava. E agora ele diz uma coisa que ninguém esperava. Ele diz, eu quero ficar no meio, no meio das barracas, no meio do acampamento, no meio da vida diária dessa gente. E para isso ele pede que construa um lugar, não um templo de pedra, gigante e fixo, porque esse povo estava andando pelo deserto, eles não tinham um lugar fixo.

Então Deus pede uma coisa que combina com quem estava em movimento. Uma tenda, uma barraca, uma barraca que pudesse ser montada, desmontada e carregada para frente. Para quê? Para onde o povo fosse, a presença de Deus fosse junto. O nome dessa tenda, em português, costuma vir como tabernáculo. É uma palavra esquisita, mas ela quer dizer só isso. Tenda, morada, o lugar onde alguém habita. E aí começa a parte que parece complicada, mas que na verdade é linda quando a gente entende o que está por trás. Deus dá os detalhes. Muitos detalhes. De que material fazer cada coisa. De que tamanho.

De que cor. E a primeira coisa que ele pede é uma coleta. Ele diz para o Moisés. Peça ao povo uma oferta. Mas não uma cobrança. Repara nisso. Deus diz para receber a oferta de todo aquele cujo coração mover a dar. Quem quisesse. Quem sentisse vontade. E o povo trazia o que tinha guardado. Ouro. Prata. Bronze. Fios coloridos. Azul. Roxo. Vermelho. Linho fino. Peles. Madeira. Óleo. Pedras preciosas. Pensa de onde vinha tudo isso. Esse povo tinha acabado de sair da escravidão. E na saída, os egípcios tinham enchido as mãos deles de presentes. Então o ouro que eles carregavam era, de certa forma, o ouro da liberdade.

E agora eles estavam usando esse ouro para construir uma casa para Deus. E Deus começa a descrever as peças, uma por uma. Eu não vou te encher de medidas, porque não é isso que importa. Mas deixa eu te mostrar algumas, só para você ver a cena na cabeça. A peça mais importante de todas era uma caixa. Uma caixa de madeira, coberta de ouro por dentro e por fora. Em cima dela, uma tampa de ouro puro, com dois anjos esculpidos, um de cada lado, com as asas se encontrando no meio. Essa caixa tinha um nome, a arca, e dentro dela ia ficar guardado o acordo entre Deus e o povo. As pedras com os mandamentos.

E Deus diz uma coisa sobre essa caixa, que é o centro de tudo. Ele diz, é dali, de cima daquela tampa, entre os dois anjos, que eu vou me encontrar com você e falar com você. Ou seja, aquela caixa não era um cofre de tesouro. Era um ponto de encontro, um lugar marcado para a conversa entre as dois. Mas ele descreve uma mesa, de madeira coberta de ouro, onde sempre ficava um pão fresco. Como se houvesse sempre um lugar posto, sempre comida na mesa, e um candelabro de ouro puro. Todo trabalhado em forma de uma árvore, com galhos, flores e amêndoas, segurando lâmpadas que nunca apagavam, para que naquele lugar nunca ficasse escuro.

E aí ele descreve a tenda em si. As lindas, coloridas, bordadas, uma divisória por dentro, separando um cômodo de outro, tábuas de madeira cobertas de ouro, para formar as paredes, um pátio em volta, cercado de cortinas brancas. Repara numa coisa nesses detalhes todos. Tudo é caprichado, tudo é o melhor material, o ouro mais puro, o fio mais fino, o trabalho mais delicado, nada é feito de qualquer jeito. E Deus chega a chamar duas pessoas pelo nome, dois artesãos, e o texto diz uma coisa bonita sobre eles, que Deus os encheu de habilidade, de inteligência e de talento para trabalhar com as mãos.

Como se a capacidade de fazer arte fosse, ela também, um presente de Deus. E no fim de toda essa conversa longa na montanha, Deus entrega ao Moisés duas placas de pedra, as placas com os mandamentos, escritas segundo o texto pelo próprio dedo de Deus. E é aí que esse trecho termina, com o Moisés descendo a montanha, carregando as instruções de como construir o lugar onde Deus quer morar, e carregando nas mãos as duas pedras. Eu fico pensando muito no que está por trás de tudo isso, porque é fácil ler essa parte e achar que é só um manual de construção antigo, tamanhos, cores, materiais, coisa chata.

Mas, quando eu paro, o que eu vejo é outra coisa, eu vejo um Deus que não quer ficar longe. Esse povo passou a vida inteira achando que o sagrado morava lá no alto, intocável, distante. E aqui Deus vira esse jogo. Ele diz "eu quero descer, eu quero ficar no meio das suas barracas. Eu quero andar junto, no mesmo passo, pelo mesmo deserto." E tem uma segunda coisa que me toca. É o capricho. Deus podia ter pedido qualquer coisa. Uma pilha de pedras, um lugar simples, mas ele pede o melhor ouro, o melhor fio, o trabalho mais bonito, não por vaidade, mas porque, quando a gente cuida de uma coisa que importa de verdade, a gente faz com capricho.

O cuidado é uma forma de amor e o mais bonito. A coisa toda foi feita do que cada um trouxe de coração. Ninguém foi obrigado. O lugar onde Deus ia morar foi construído com a oferta espontânea de gente que, pouco tempo antes, não tinha nada, era escrava, e que agora livre, deu o seu ouro para fazer algo belo. Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa em um lugar pequeno da sua vida. Pode ser um canto da casa, a sua mesa, o começo do seu dia, um momento de silêncio antes de dormir, e hoje escolha um desses lugares e cuide dele com capricho. Arrume, deixe bonito, trate como se fosse um lugar especial e não só mais um canto qualquer, porque às vezes a gente espera um templo grande para encontrar o que é sagrado.

E o que a história diz é o contrário. O sagrado quer caber no meio do comum, quer morar na barraca, no meio do deserto, no meio da sua semana, você não precisa de ouro, só de um cantinho cuidado com carinho.