A aliança confirmada — o sangue do pacto · Êxodo 24:1–18

A Biblia · Temporada 2 · Episódio 19 de 23 — em ordem cronológica

Moisés pegou sangue e o jogou sobre as pessoas. Aquele ato, que nos choca, foi um casamento, a mais profunda aliança já selada.

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Transcrição

Tenho um momento nessa história em que o Moisés faz uma coisa que para a gente hoje parece chocante. Ele pega sangue, sangue de verdade, e joga em cima do povo inteiro, e aquilo naquele dia não foi violência. Foi a coisa mais séria, mais solene que duas partes podiam fazer. Foi um casamento, um pacto, uma aliança que ia durar para sempre. Deixa eu te contar como a gente chegou aí. Lembra que o povo de Israel tinha ouvido os dez mandamentos. Depois ouviu todas as leis, sobre como cuidar do pobre, do escravo, do estrangeiro. Deus tinha dito o lado dele do acordo. Agora chegou a hora de fechar o trato, e fechar um trato grande naquele tempo não era assinar um papel.

Era uma cerimônia, com gestos, com símbolos que ficavam marcados para sempre na memória de quem viu. Deus chamou Moisés para subir a montanha, mas não só ele, chama o irmão dele, o arão, mais dois homens e setenta líderes do povo, mas avisa, só o Moisés vai chegar bem perto. Os outros adoram de longe. Antes de subir, o Moisés desce e conta para o povo todas as palavras de Deus, todas as leis, e o povo responde junto em uma sua voz. Eles dizem, tudo o que o Senhor falou, a gente vai fazer. Topamos, todos juntos, aí vem a cerimônia, e é uma cena cheia de gestos. De manhã cedo, o Moisés constrói um altar no pé da montanha, e ao lado dele, levanta doze pilares de pedra, um para cada tribo de Israel, cada pedra ali em pé representando uma parte do povo, ninguém de fora, todo mundo dentro do acordo, então eles oferecem animais.

E o Moisés faz uma coisa estranha com o sangue desses animais. Ele divide o sangue em duas partes, metade ele joga no altar. O altar representa Deus, é o lado de Deus na história, e a outra metade ele guarda em bacias, para usar daqui a pouco, e aí com o sangue dividido o Moisés pega o livro onde estavam escritas todas as leis, e lê em voz alta para todo o povo, do começo ao fim, e o povo de novo responde a mesma coisa, tudo o que o Senhor falou, a gente vai fazer e vai obedecer. Eles ouviram tudo, e mesmo assim disseram sim, e nesse momento que o Moisés pega a outra metade do sangue, das bacias, e joga em cima do povo, e ele diz uma frase, uma frase enorme, que vai ecuar pelo resto da Bíblia inteira, e lhe diz, este é o sangue da aliança que o Senhor fez com vocês.

Amaibu pensa no que esse gesto está dizendo, o sangue do altar é o lado de Deus, o sangue jogado no povo é o lado do povo, é o mesmo sangue, vindo dos mesmos animais, dividido em dois, é como se o Moisés estivesse dizendo, agora vocês dois estão ligados pelo mesmo sangue, Deus de um lado, o povo do outro, e o mesmo sangue unindo os dois, não dá mais para separar. Era assim que se selava uma aliança que valia mais do que a vida, não com palavras só, com sangue, para ninguém nunca esquecer o peso do que tinha prometido. E aí acontece a parte mais impressionante de todo esse capítulo, o Moisés sobe a montanha com o arão e os 70 líderes, e o texto diz que eles viram Deus, eu sei, é difícil de imaginar.

O texto nem tenta descrever um rosto, ele descreve só o que estava debaixo dos pés de Deus. E diz que era como um chão feito de pedra de safira, azul, brilhante, claro como o próprio céu, imagina isso, 70 e poucos homens, escravos, em cima de uma montanha, vendo um chão de safira azul brilhando como o céu de tão limpo, e o texto solta uma frase quase impossível de acreditar. Ele diz, eles viram Deus e comeram e beberam, eles fizeram uma refeição ali, na presença de Deus. Pensa nisso, depois de selar a aliança, eles não saíram correndo de medo, eles sentaram e comeram juntos, porque comer junto com alguém, em quase toda a cultura do mundo, é o gesto mais íntimo de amizade que existe, é o que você faz com a família, com quem você confia.

A aliança não terminou com medo, terminou numa mesa, e aí Deus chama só o Moisés para subir mais ainda, mais alto, para receber as leis escritas em pedra, da própria mão de Deus, o Moisés sobe, e uma nuvem cobre a montanha, e a glória de Deus pousa ali e para quem olhava de baixo parecia um fogo que devorava o topo do monte, e o Moisés entra naquela nuvem, e fica lá, 40 dias e 40 noites, e é aí que esse episódio termina. Com o povo embaixo ligado a Deus pelo sangue do pacto, e o Moisés lá em cima, dentro da nuvem, no meio do fogo, esperando, eu fico pensando muito nessa história, porque o que aconteceu ali foi, no fundo, um casamento, os dois lados disseram sim, os dois lados se ligaram pelo mesmo sangue, e os dois sentaram para comer juntos, como família, e tem uma coisa que me toca demais, é a ordem das coisas, repara que Deus não esperou o povo ser perfeito para fechar a aliança, Ele não disse, cumpram tudo direitinho por 10 anos, e aí eu fecho com vocês, não, Ele se ligou a eles ali mesmo, antes de qualquer prova, sabendo inclusive que dali a pouco eles iam falhar feio, isso é o oposto de como a gente costuma amar, a gente costuma dizer, me prove que você merece, e aí eu me comprometo, primeiro a prova, depois o compromisso, aqui foi o contrário, primeiro o compromisso, primeiro estou ligado a você pelo mesmo sangue, e o resto a gente resolve no caminho juntos, e tem aquela imagem que não sai da minha cabeça, eles viram uma coisa imensa sagrada de tirar o fôlego, e o que fizeram com ela foi sentar e comer, não tomaram distância, não trataram a coisa sagrada como um terror, eles foram íntimos, comeram pão na presença daquilo que é maior que tudo, talvez seja isso que a gente esquece, que as coisas mais sagradas da vida não pedem só respeito de longe, elas pedem também que você se aproxime, que você se sente, que você fique, aqui vai uma coisa para hoje, pensa numa relação importante para você, uma pessoa com quem você tem um compromisso de verdade, um amigo de anos, alguém da família, um amor, e hoje com essa pessoa faça a coisa mais antiga e mais simples de todas, divida uma refeição, sem pressa, sem celular na mesa, só sentem e comam juntos, porque foi assim que o pacto mais importante daquela história foi selado, não com um discurso, não com uma prova de quem merecia o que, foi com sangue, para mostrar o peso, e foi com uma refeição, para mostrar o amor, e dessas duas aqui ainda dá para fazer hoje, a mesa é a segunda.