As leis da aliança · Êxodo 21:1–23:33

A Biblia · Temporada 2 · Episódio 18 de 23 — em ordem cronológica

Esqueça o 'olho por olho'. A justiça mais antiga do mundo te exige algo muito mais difícil: lembrar de sua própria dor.

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Transcrição

Tem uma lei muito antiga que diz uma coisa que parece pequena, mas muda tudo. Ela diz, não maltrate o estrangeiro, porque vocês já foram estrangeiros lá no Egito. Vocês sabem como dói para nisso. Uma lei que pede para você lembrar da própria dor antes de causar dor em outra pessoa. Essa frase está no meio de um monte de leis que Deus deu para o povo de Israel logo depois dos dez mandamentos. E é fácil passar por cima delas achando que é coisa velha, regra de outro mundo. Mas tenha ali dentro umas das ideias mais avançadas que já existiram. Deixa eu te contar. Lembra que o povo tinha acabado de ouvir os dez mandamentos.

Os dez são como resumo. As grandes linhas. Não mate, não roube, não minta. Mas a vida real é cheia de casos que não cabem numa frase só. E aí Deus desce ao chão. Começa a explicar como essas grandes ideias funcionam no dia a dia. Como tratar um empregado. O que fazer quando o boi de um briga com o boi do outro? Como cuidar de quem é mais fraco? São muitas leis. Não vou te ler todas e a virar leitura de regulamento. Vou te mostrar as que, para mim, revelam o coração de tudo. Porque quando você junta elas, aparece um desenho. E o desenho é claro. A primeira coisa que chama a atenção é por onde Deus começa.

Ele começa falando dos escravos. E aqui tem uma coisa importante de entender. Naquele tempo, escravidão existia no mundo inteiro e era para a vida toda. A pessoa era propriedade para sempre. Mas a lei que Deus dá já começa diferente. Ela diz se alguém ficar como servo, no sétimo ano ele sai livre, de graça. Não é para sempre, repara. Não é o mundo perfeito ainda. Mas é um primeiro passo numa direção que ninguém naquela época tinha dado. Um limite. Uma data para a liberdade chegar. E tem outra. A lei diz que se um dono bater no servo e arrancar um dente ou cegar um olho, o servo vai embora livre por causa disso.

Pensa no que isso significa. Pela primeira vez, o corpo do escravo importa. Ele não é uma coisa. Ele tem direitos. Num mundo que tratava a gente como objeto, alguém disse não. Até essa pessoa tem dignidade. Aí vem um grupo de leis sobre fazer mal a alguém. E é aqui que aparece a famosa frase. Olho por óleo. Dente por dente. Hoje a gente ouve isso e pensa em vingança. Em crueldade. Mas era o contrário. Naquele tempo, se alguém te machucava, a tua família matava a família inteira do cara. A vingança não tinha limite. E a lei do óleo por óleo foi feita para travar isso. Para dizer, o castigo não pode ser maior do que o estrago.

Se ele te tirou um dente, você não pode tirar a vida dele. Era um freio. Um limite para raiva não virar massacre. A justiça é entrando no lugar da vingança. E aí vem as leis que mais me tocam. As que cuidam de quem ninguém cuidava. A lei diz não faça mal a viúva nem a órfão. Por que justamente esses dois? Porque naquele mundo quem mandava era o homem da casa. Se ele morria, a mulher e os filhos ficavam sem proteção. Sem voz. Eram os mais fáceis de pisar. E Deus diz uma coisa séria. Ele diz, se você maltratar a viúva e o órfão, e eles clamarem a mim, eu vou ouvir. A força inteira de Deus, do lado dos mais fracos.

E aí volta aquela lei do começo. Não maltrate o estrangeiro, o imigrante, aquele que chegou de fora. Porque você já foi estrangeiro no Egito. Você sabe como é. Você sabe como dói ser tratado como gente de segunda. Pensa em quão moderno isso é. Numa época em que cada povo odiava os de fora, alguém escreveu uma lei dizendo "Lembra da sua própria dor". E por causa dela, seja gentil com quem está de fora agora. Tem mais. A lei diz que se você emprestar dinheiro para alguém pobre, não pode cobrar juros dele. Não pode lucrar em cima da necessidade de quem não tem nada. E diz que se você pegar o casaco de alguém pobre como garantia de uma dívida, tem que devolver antes de anoitecer.

Porque, e olha a frase, é só nisso que ele tem para se cobrir. É com isso que ele dorme. Como é que ele vai dormir sem, para nessa imagem. Uma lei se preocupando com se um homem pobre vai passar frio à noite. Esse é o nível de cuidado. E tem até uma lei para os bichos, ela diz que no sétimo ano você deixa a terra descansar e o que nascer ali sozinho é para os pobres comerem e o resto para os animais do campo. E que você dá descanso até para o boi e para o jumento que trabalham para você. O cuidado chega até nos animais. No fim de tudo, Deus faz uma promessa para o povo. Diz, se vocês andarem nesse caminho eu vou na frente de vocês.

Vou cuidar de vocês na viagem até a terra que prometi. Vou ser o seu Deus. Eu fico pensando em tudo isso junto. Porque é fácil ver essas leis como uma lista velha e seca, boi, dente, casaco. Mas quando você afasta o olhar e vê o conjunto, aparece uma só coisa. Um fio que costura tudo. O cuidado com o mais fraco. Quase toda lei aqui se inclina para o mesmo lado. Para o escravo, para o pobre, para a viúva, para o órfão, para o estrangeiro, para o endividado, até para o animal cansado. É como se Deus dissesse, eu vou medir como vocês são pela maneira como vocês tratam, quem não tem como revidar.

E isso continua sendo verdade hoje, em qualquer lugar. Você descobre o caráter de uma pessoa não vendo como ela trata o chefe, vendo como ela trata o garçom, o entregador. Quem não pode fazer nada por ela em troca. E tem outra coisa que me pega, aquela frase, "Por que você já foi estrangeiro no Egito?" Deus não pede para você ser bom só porque é uma regra. Ele pede para você lembrar da sua própria dor, de quando você foi o fraco, de quando você foi o de fora, e usar essa memória como um motivo para não fazer com o outro o que fizeram com você. A dor que a gente já sentiu pode virar duas coisas, pode virar raiva, e a gente repassa para o próximo, ou pode virar compaixão, e a gente quebra o ciclo.

Essas leis escolheram a segunda, aqui vai uma coisa para hoje. Pensa numa vez em que você foi o mais fraco, o novato que não sabia de nada, o estranho que chegou e não conhecia ninguém, o que precisou de ajuda e teve vergonha de pedir. Lembra de como foi, lembra de quem foi gentil com você naquele momento, e de como aquilo aliviou. E hoje, como uma pessoa só, seja essa gentileza para alguém que está agora no lugar onde você já esteve, não precisa ser nada grande, um deixa que eu te ajudo, um senta aqui com a gente, um fica tranquilo, todo mundo já passou por isso, porque a regra mais antiga de todas talvez seja essa, lembra de como doeu, e não deixa doer no próximo.