Os Dez Mandamentos · Êxodo 20:1–21

A Biblia · Temporada 2 · Episódio 17 de 23 — em ordem cronológica

Uma montanha em chamas. Dez frases que não são sobre Deus, mas sobre o que realmente comanda sua vida e seu mundo.

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Transcrição

Imagina que um povo inteiro está parado na frente de uma montanha em chamas, e do meio do fogo, uma voz começa a falar, não para uma pessoa, para todo mundo ao mesmo tempo. E o que essa voz diz são dez frases, dez frases curtas que, três mil e poucos anos depois, ainda estão no fundo de quase toda lei, de quase toda noção de certo e errado que a gente tem. Não para matar a vor, lembra que o povo de Israel tinha acabado de sair da escravidão no Egito. São milhares de pessoas que a vida inteira só conhecer uma regra, obedecer ao dono, faça o que o Senhor manda, ou apanha. Agora eles estavam livres, e gente livre precisa aprender uma coisa nova, como viver junto sem ter um chicote em cima.

E é isso que essas dez frases são. Não é um regulamento frio, é o desenho de como um povo de gente livre pode viver bem, um com o outro e com Deus. E antes de qualquer regra, a voz começa lembrando de uma coisa. Ela diz, eu sou o Senhor, o seu Deus, que tirou você do Egito, da casa da escravidão. Repara nisso, antes de pedir qualquer coisa, Deus lembra do que fez. Eu te tirei da escravidão. É como se ele dissesse, olha, eu já provei que estou do seu lado. Agora vem o convite, e aí vem os dez, os primeiros falam sobre Deus. E o primeiro é o alicerce de tudo, não tenha outros deuses na minha frente.

Naquele tempo cada povo tinha um monte de deuses. Um para chuva, um para colheita, um para guerra. E Deus diz, comigo não é assim, sou eu, só eu. Pensa no que isso significa para alguém hoje, mesmo quem não acredita em nada. Todo mundo coloca alguma coisa no centro da vida. Pode ser dinheiro, pode ser o trabalho, pode ser a opinião dos outros. Esse primeiro mandamento é como uma pergunta. O que está no centro da sua vida? Porque o que está no centro manda em você. O segundo vem logo atrás. Não faça para você um ídolo, uma imagem para adorar. Por quê? Porque um ídolo é uma coisa que você fabrica e bota no lugar de Deus.

Uma coisa pequena, feita por você, que vira mais importante do que devia. A gente faz isso o tempo todo sem perceber. O terceiro fala do nome. Não use o nome de Deus à toa, de qualquer jeito. Tenha a ver com respeito. Tenha a ver com não usar uma coisa sagrada como enfeite, como xingamento, como tampa para mentira. Aí vem o quarto, que é um dos mais bonitos. Lembra do dia de descanso para deixar ele sagrado? Trabalhe seis dias. Mas no sétimo pare, pensa em quem estava ouvindo isso. Escravos, gente que a vida inteira trabalhou todo dia, sem parar, sem direito a descanso. E a primeira coisa que Deus faz, é dar um dia de folga.

Um dia que é lei, não é só descanse e se der. É pare, você não é uma máquina, você não vale pelo que produz. Tenha um dia da semana que é só para respirar, para ser gente e para estar com quem você ama. Tão um povo que acabou de sair da escravidão, isso era quase bom demais para ser verdade. E aí a voz vira para o outro lado, sai da relação com Deus e entra na relação com as pessoas. E começa com a mais antiga de todas, o Unha, o seu pai e a sua mãe. Cuida de quem te cuidou. Não esquece de onde você veio. É o primeiro fio que segura uma família junta. E aí vem quatro frases bem curtas, quase secas, que são o esqueleto de viver junto sem se destruir.

Não mate, não traia quem você ama, não roube, não minta sobre os outros. Pensa em como elas são simples, uma criança entende. Mas pensa em quanto o sofrimento no mundo inteiro vem exatamente de quebrar essas quatro. A vida de alguém tirada, uma confiança traída, uma coisa roubada, uma mentira que destrói uma reputação, são quatro muros que protegem a vida em comum. Tira um deles e tudo começa a desabar. E aí vem o décimo, o último, e ele é o mais estranho de todos, porque ele não fala de uma coisa que você faz. Ele fala de uma coisa que você sente, não cobi-se, não fique desejando o que é do outro.

A casa do outro, a pessoa do outro, as coisas do outro. Para e repara na genialidade disso. Os outros nove falam de ações, não faça isso, não faça aquilo. Mas esse último vai pra dentro, vai pra raiz, porque antes de roubar, você desejou o que não era seu. Antes de trair, você cobi-sou. Antes de matar, teve a inveja. Esse último mandamento é como se Deus dissesse, "Eu não quero só segurar a sua mão. Eu quero cuidar do seu coração, porque é lá dentro que tudo começa, e é aqui que eu paro pra pensar, porque é fácil olhar pra esses dez e ver uma lista de proibições, não faça, não faça, não faça".

Mas não é isso, repara que eles vêm em duas partes. As primeiras falam de cuidar da sua relação com Deus, as últimas falam de cuidar das suas relações com as pessoas. E é só isso, no fundo os dez mandamentos cabem numa frase, "Cuida de quem está acima de você, e cuida de quem está ao seu lado", e eu acho lindo que tudo isso tenha começado com a frase "Eu te tirei da escravidão", porque tem um jeito de ler regras como uma corrente que te prende. Mas tem outro jeito, tem regra que liberta. A linha que separa as faixas na estrada não tá ali pra te prender, tá ali pra você não bater, pra todo mundo chegar inteiro.

Era isso que essas dez frases queriam ser pra aquele povo recém-libertado. Não uma nova escravidão, mas o desenho de como continuar livre, junto, sem se machucar. E o texto termina com o povo tremendo de longe, com tanto medo da montanha em chamas que eles pedem pro Moisés. Fala você com Deus, e depois conta pra gente, a gente não aguenta ouvir essa voz direto, aqui vai uma coisa pra hoje, não vou te pedir pra decorar os dez, vou te pedir uma coisa só, ligada ao último, ao mais difícil, o da cobiça, hoje repara uma vez em que você sentia aquela apontada de querer o que é do outro, a vida do outro nas redes sociais, a conquista de alguém, a coisa que o vizinho tem e você não, não precisa fazer nada com isso, só perceba, só dê um nome pra ela, ah isso aqui é cobiça, porque quase tudo de errado que a gente faz com os outros começa bem pequeno, ali dentro, com um desejo que a gente nem percebeu que estava crescendo, e perceber as vezes já é metade do caminho.