A chegada ao Monte Sinai · Êxodo 19:1–25

A Biblia · Temporada 2 · Episódio 16 de 23 — em ordem cronológica

Você seria capaz de encarar uma montanha em chamas se uma voz invisível te chamasse para subir? Ex-escravos tiveram que fazer exatamente isso.

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Transcrição

Imagina que você passou a vida inteira como escravo, sem nome, sem voz, sem dono do próprio dia. E de repente você está livre, no meio do deserto, parado na frente de uma montanha gigante, e uma voz te chama para subir. É aqui que o povo de Israel chega num dos momentos mais estranhos e mais bonitos de toda a história deles. Deixa eu te contar. Lembra que eles tinham saído do Egito, tinham atravessado o mar, tinham comido o pão que caía do céu, bebido a água que saiu da pedra, andaram, andaram, andaram pelo deserto. E aí, no terceiro mês depois de saírem da escravidão, eles chegam num lugar, um deserto chamado Sinai, e bem ali no meio tem uma montanha.

Eles armam as barracas na frente dela e ficam ali, parados, olhando para cima. Então o Moisés sobe, sobe a montanha sozinho para falar com Deus, e Deus fala com ele. E o que Deus diz é uma das coisas mais carinhosas de toda a Bíblia, Deus manda o Moisés levar um recado para o povo. E o recado é mais ou menos assim. Vocês viram o que eu fiz com o Egito. Vocês viram como eu carreguei vocês como uma águia carrega os filhotes nas asas. E eu trouxe vocês até aqui, para perto de mim, para nessa imagem. Uma águia carregando os filhotes nas asas. Não é a imagem de um rei distante mandando em servos lá de cima.

É a imagem de quem pega no colo, de quem carrega quando os pés não aguentam mais. E aí Deus faz uma proposta. Diz assim, se vocês ouvirem a minha voz e guardarem o que a gente combinar, vocês vão ser um tesouro para mim. Um povo especial, no meio de todos os povos da terra. Um tesouro. Pensa nisso. Um povo que até três meses atrás era escravo, lixo aos olhos do Egito gente que não valia nada. E agora alguém olha para eles e diz, vocês são o meu tesouro. O Moisés desce a montanha e conta tudo para o povo. E o povo responde junto, todo mundo de uma vez, tudo o que o Senhor falar, a gente vai fazer.

Eles toparam. E aí a coisa fica séria. Deus avisa o Moisés que vai descer na montanha para falar com o povo, não com um homem só dessa vez, com todo mundo, para que todos ouçam, com os próprios ouvidos e nunca mais duvidem. Mas tem uma preparação. Deus pede que o povo se prepare por três dias, que lavem as roupas, que fiquem prontos, porque o que vai acontecer não é pequeno, e Deus dá uma ordem que parece dura, mas tem um motivo. Ele diz, ninguém pode encostar na montanha, ninguém pode subir. Coloquem um limite em volta dela e quem cruzar esse limite vai morrer, porque é tanto cuidado.

Pensa assim, quando uma coisa é muito grande, muito quente, muito poderosa, você não chega encostando o dedo, você chega com respeito, não porque a coisa te odeia, mas porque ela é grande demais para você tratar de qualquer jeito. Era isso. Não era para afastar o povo de Deus, era para ensinar o povo que ele estava perto de uma coisa imensa, e aí chega o terceiro dia. E o texto descreve uma cena que parece o céu desabando. De manhã começam os trovões, relâmpagos cortando o céu, uma nuvem pesada escura, cobrindo a montanha inteira, e um som, um som de trombeta muito alto, tão alto que o povo inteiro tremeu de medo.

A montanha começa a soltar fumaça, fumaça subindo como de uma fornalha gigante, e a terra inteira treme, pensa em estar ali. Você é um escravo, você nunca viu nada parecido na vida, e a montanha na sua frente está pegando fogo, soltando fumaça, tremendo, e tem um som de trombeta que vai ficando cada vez mais forte. O Moisés começa a falar, e o texto diz uma coisa linda, o Moisés falava, e Deus respondia com uma voz como um trovão, os dois conversando. No meio daquilo tudo, aí o Moisés sobe de novo, e Deus manda ele descer mais uma vez, para avisar o povo de novo, não cruzem o limite, não subam por curiosidade, fiquem onde vocês estão, e é aí que o episódio termina, com o povo embaixo tremendo, a montanha em cima, em chamas, e o Moisés no meio, subindo e descendo, levando o recado de um lado para o outro, tudo preparado, tudo no clima, esperando o que venha a seguir.

Eu fico pensando muito nessa cena, porque é fácil olhar para ela e ver só o espetáculo, o fogo, o trovão, o medo, mas embaixo de toda essa grandeza tem uma coisa pequena e quentinha que é fácil de perder, antes de qualquer regra, antes de qualquer trovão, a primeira coisa que Deus fala para o povo é sobre amor. Eu carreguei vocês nas asas, eu trouxe vocês para perto de mim, vocês são o meu tesouro, a relação vem antes das regras, repara na ordem, Deus não chega cobrando, Ele chega lembrando do que já fez por eles, lembrando que tirou eles da escravidão, antes de pedir qualquer coisa em troca, e eu acho isso tão diferente do jeito que a gente costuma imaginar.

A gente acha que primeiro tem que acertar tudo, fazer tudo certo, para só então ser aceito. Mas aqui é o contrário, primeiro venho vocês são o meu tesouro, só depois venho o resto, e tem uma outra coisa, o respeito, o povo não chega na montanha de qualquer jeito, eles param, eles se preparam, eles olham para uma coisa maior do que eles com um respeito que a gente quase esqueceu de ter por qualquer coisa hoje, a gente vive num tempo que trata tudo no automático, tudo na pressa, tudo de qualquer jeito. E essa história lembra que tem coisas na vida que pedem que você pare, que você chegue diferente, com cuidado, aqui vai uma coisa para hoje, escolhe uma coisa do seu dia que você normalmente faz na correria, no automático, sem dar valor, pode ser uma refeição, pode ser um abraço em alguém, pode ser uma oração, ou só um mine de silêncio.

E hoje, só com essa uma coisa, chega diferente, para antes, respira, trata aquilo como se fosse grande, porque às vezes a coisa nem mudou, foi você que parou de reparar nela. O povo de Israel ficou três meses no deserto para chegar nessa montanha e quando chegou, a primeira coisa que aprendeu não foi uma regra, foi a parar e olhar para cima.