Um homem bate na sua mula e a mula vira a cabeça e fala com ele. Reclama. Pergunta porque ele está batendo. E o mais maluco da história não é nem isso. É que o homem responde. Discute com a mula, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Deixa eu te contar essa, porque é uma das histórias mais estranhas da Bíblia inteira. O povo de Israel estava chegando perto da terra prometida. Eram muitos, acampados nas planícies, perto de um reino chamado Moab e o rei de Moab, um homem chamado Balak, ficou apavorado. Ele olhou para aquela multidão toda acampada perto dele e pensou. Esse povo vai me engolir.
São muitos demais. Mas o Balak não queria guerra direta. Ele teve outra ideia. Naquele tempo as pessoas acreditavam muito no poder de abençoar e amaldiçoar. Uma benção podia fazer alguém prosperar. E uma maldição, dita pela pessoa certa, podia destruir um povo inteiro. E tinha um homem famoso por isso. Chamava-se Balaam. Era uma espécie de adivinho, um profeta de aluguel. Tinha fama de que quem ele abençoava prosperava e quem ele amaldiçoava se dava mal. Então o rei Balak mandou mensageiros até o Balaam, com dinheiro e um pedido. Vem cá amaldiçoar esse povo de Israel para mim.
Você fala uma maldição e eu consigo expulsar eles. E aí começa a parte interessante. O Balaam diz, deixa eu dormir e perguntar para Deus o que fazer. E de noite Deus fala com ele bem claro, diz não vai, não amaldiçoa esse povo. Porque esse povo é abençoado, não podia ser mais claro, não vai. Mas o rei Balak não desiste, ele manda mensageiros de novo. Mais importantes dessa vez e oferece mais dinheiro, muito mais. Diz, eu te cubro de ouro, só venha amaldiçoar esse povo. E aqui a gente vê o coração do Balaam, Deus já tinha dito não. Mas o Balaam pergunta de novo, como uma criança que ouve não da mãe e vai perguntar pro pai.
Torcendo para ouvir sim, repara nisso. Quando a gente quer muito uma coisa, a gente pergunta de novo e de novo, esperando que a resposta mude. Não porque a gente não ouviu, mas porque a gente não gostou do que ouviu. E aí Deus dá uma resposta esquisita. Ele diz tá, vai com eles, mas só vai fazer o que eu te mandar fazer. E o Balaam levanta de manhã, cela a sua jumenta, a sua mula e vai. E é aqui que a história fica surreal. Enquanto o Balaam vai cavalgando pela estrada, montado na mula, acontece uma coisa que ele não consegue ver. Um anjo de Deus com uma espada na mão se planta no meio do caminho, bloqueando a passagem.
O Balaam não vê, mas a mula vê. A mula vê o anjo com a espada e faz o que qualquer bicho faria. Ela sai da estrada e foge pro campo, pro mato. E o Balaam irritado, bate nela pra ela voltar pra estrada. Mais pra frente, o caminho fica apertado, entre dois muros, com uma parede de cada lado. E o anjo aparece de novo, parado ali, a mula vê. E pra fugir, ela se espreme contra o muro. E acaba esmagando o pé do Balaam na parede. E o Balaam bate nela de novo. E aí o caminho fica tão estreito que não dá pra desviar pra lado nenhum. O anjo aparece mais uma vez. E a mula, sem ter pra onde ir, simplesmente deita no chão, com o Balaam em cima.
E aí o Balaam perde a cabeça. Pega o cajado e começa a bater na mula com força. E é nesse momento que acontece. Deus abre a boca da jumenta. E ela fala, a mula vira e diz. O que foi que eu te fiz? Pra você me bater três vezes. Para um, se imagina a cena. Um homem furioso em cima de uma mula batendo nela. E a mula vira a cabeça e reclama. Pergunta o que ela fez de errado. E o mais inacreditável. O Balaam não cai pra trás. Não se assusta. Ele responde. Ele discute com a mula. Diz com raiva. Você tá zombando de mim. Se eu tivesse uma espada na mão, eu te matava agora. Pensa no absurdo disso.
O homem é um profeta famoso que ouve a voz de Deus. E ele tá tão cego de raiva que nem percebe que a coisa mais impossível do mundo acabou de acontecer. A mula falou. E ele só quer ganhar a discussão. E a mula responde de novo, com uma lógica perfeita. Ela diz, eu não sou a sua mula de sempre, aquela que você monta a vida inteira. Eu alguma vez já fiz isso com você. E ele tem que admitir, não, nunca. E é aí que Deus abre os olhos do Balaam. E de repente ele vê, vê o anjo parado no meio do caminho, com a espada na mão. E o Balaam, que tava tão valente xingando a mula, cai com o rosto no chão, apavorado.
E o anjo diz uma coisa que vira a história de cabeça pra baixo. Ele diz, por que você bateu na sua mula três vezes? Olha, eu vim aqui pra te impedir, porque o seu caminho tá errado. E sabe de uma coisa, se a mula não tivesse desviado de mim essas três vezes, eu já teria matado você. E deixado ela viva. Claro e absorve isso. A mula, o bicho burro, enxergava o perigo que o profeta, o homem sábio, não conseguia ver. O animal salvou a vida do homem. Três vezes e recebeu pancada por isso. Quem tava cego era o profeta, quem enxergava era a mula. E o Balaam entende, diz, eu peguei, não vi você, se você quiser eu volto.
Mas o anjo diz, não vai, mas vai falar só o que eu mandar. E aí vem o final, que é quase cômico de tão bonito. O Balaam chega no reino de Moab. O rei balá que tá esperando, todo animado, achando que vai pagar pra ouvir uma maldição que destrói Israel. Ele leva o Balaam pro alto de um monte, de onde dá pra ver o povo todo acampado lá embaixo. E o Balaam abre a boca pra falar, e em vez de maldição sai bensam, ele abençoa Israel. Coisas lindas, que aquele povo é grande, que é abençoado, que ninguém vai conseguir derrubar. O rei fica furioso. Diz, eu te chamei pra amaldiçoar e você abençoa.
E leva o Balaam pra outro monte pra tentar de novo. Talvez de outro ângulo deserto, de novo, o Balaam abre a boca, e de novo sai bensam. Ainda mais linda, o rei, já desesperado, tenta uma terceira vez num terceiro monte. E pela terceira vez sai bensam. O Balaam até fala uma profecia famosa sobre uma estrela que vai surgir do povo de Israel. O rei balá que desiste, furioso, manda o Balaam embora sem pagar nada. E o Balaam volta pra casa. A maldição comprada virou bensam. Três vezes, e é aqui que eu paro pra pensar. Tem tanta coisa nessa história. Mas o que mais me pega é a cegueira do Balaam.
Ele era o profeta, o cara que ouvia Deus. E mesmo assim, foi o único na estrada que não viu o anjo. Estava tão decidido a seguir o caminho que ele queria, atrás do dinheiro, que ficou cego pro perigo bem na frente dele. Tão cego que uma mula enxergava melhor. E acho que isso fala com a gente. Tem horas em que a gente quer tanto uma coisa que para de ver os sinais de que aquele caminho está errado. A vida bota obstáculo na frente. As coisas começam a dar errado, uma atrás da outra. E em vez de parar e pensar "será que eu não devia estar indo por aqui?", a gente faz como Balaam. A gente bate na mula, a gente culpa tudo em volta e continua indo.
Às vezes, os obstáculos no caminho não são azar. São um anjo de espada parado na frente, tentando te impedir de seguir reto pra um lugar ruim. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa coisa que você está insistindo, um plano, uma vontade, um caminho. E pensa nas vezes em que esse caminho deu errado ultimamente. As pedras que apareceram, as portas que fecharam, as coisas que travaram. E em vez de só ficar irritado com os obstáculos, com a mula que não anda, faz uma pergunta diferente só por hoje. E se esses obstáculos estiverem tentando me dizer alguma coisa, não precisa decidir nada, não precisa abandonar nada.
Só repara se talvez, no meio do caminho, tem um anjo de espada que você ainda não está conseguindo ver, porque às vezes a gente está tão decidido a chegar onde quer, que perde a capacidade de notar quando a própria vida está pedindo pra gente parar.