A serpente de bronze no deserto · Números 21:4–9

A Biblia · Temporada 3 · Episódio 12 de 19 — em ordem cronológica

Para parar de morrer de picada de cobra, Deus mandou o povo fazer outra cobra. A cura para seu pior problema pode ser tão absurda quanto essa.

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Transcrição

Para parar de morrer de picada de cobra, Deus manda fazer uma cobra e manda o povo olhar para ela. Parece o contrário do que faria sentido, mas é exatamente isso que acontece nessa história. Deixa eu te contar. O povo de Israel estava no deserto há muito tempo, andando de um lugar pro outro, sem ter ainda chegado na terra que Deus tinha prometido. E nessa parte da história, eles estavam dando uma volta enorme. Eles iam passar por um lugar, mas o povo daquele lugar não deixou. Então tiveram que contornar, pegar o caminho mais longo, voltar por onde já tinham vindo, mais ou menos. E você sabe o que acontece quando a gente está cansado e o caminho fica mais longo do que a gente esperava.

A paciência acaba. O texto diz que o povo ficou impaciente por causa do caminho. Cansados, desanimados, e começaram a falar contra Deus e contra o Moisés. E olha o que eles dizem. É quase uma birra de criança cansada. Eles dizem por que vocês nos tiraram do Egito pra morrer aqui no deserto. Não tem pão, não tem água. E a gente já tá enjoado desse pão fraquinho. Esse pão fraquinho que eles falam é o Maná. Lembra, aquele alimento que caía do céu toda manhã, o pão que Deus dava de graça todo dia pra eles não passarem fome. Para e repara no tamanho da ingratidão. O pão milagroso que vinha do céu sem eles plantarem nada, agora virou essa comida fraca de que a gente tá enjoado.

É assim que funciona. Quando a gente reclama demais, até o milagre começa a aparecer pouco. E aí acontece uma coisa assustadora. Cobras começam a aparecer no acampamento. Cobras venenosas. O texto chama de serpentes ardentes, porque a picada queimava como fogo, e elas mordem o povo. Muita gente é picada, e muita gente morre. De repente o acampamento inteiro vira um lugar de pânico. Cobras no chão, entre as tendas, no meio das pessoas, gente gritando, gente morrendo da picada. E aí, no meio do desespero, alguma coisa muda no povo. Eles vão até o Moisés. Mas dessa vez não é pra reclamar.

É pra confessar. Eles dizem, a gente pecou. A gente falou contra Deus e contra você. Por favor, pede pra Deus tirar essas cobras da gente. Repara na diferença. Antes eles reclamavam. Agora eles admitem. A gente errou. Essa é a primeira virada da história. O povo, pela primeira vez em muito tempo, para de apontar o dedo pra fora e olha pra dentro. E o Moisés faz o que ele sempre faz. Ele ora pelo povo. Mesmo pelo povo que tinha acabado de falar mal dele, ele pede a Deus por eles. E aí vem a parte estranha. A parte que faz essa história ser tão diferente de todas as outras. Deus não tira as cobras.

Pensa nisso. Seria o mais fácil, né? E com as cobras, acaba o problema. Mas não é isso que Deus faz. Em vez disso, Deus dá uma instrução esquisita pro Moisés. Ele diz, faz uma serpente, faz uma cobra de metal, de bronze, e põe ela no alto de um poste, bem no meio do acampamento. E quem for picado, é só olhar pra ela. Quem olhar, vive. Para um cisno, quanto isso é estranho. A coisa que estava matando o povo era a cobra. E o remédio que Deus manda fazer é uma imagem de cobra. A própria coisa que machucava, levantada no alto, vira o sinal da cura, e o Moisés obedece. Ele faz uma serpente de bronze, põe num poste bem alto, no meio de todo mundo, e daí em diante acontecia assim.

Alguém era picado por uma cobra. Sentia o veneno, a dor, o medo, e em vez de só desesperar, a pessoa erguia os olhos. Olhava pra aquela serpente de bronze lá no alto, e vivia. Não tinha remédio, não tinha cura na ferida. Era só isso. Olhar. E é aqui que eu paro pra pensar. Porque essa história é estranha de propósito, eu acho. Deus podia ter sumido com as cobras, mas não sumiu. Ele deixou o perigo ali e deu uma saída que dependia de uma coisa só. A pessoa erguer os olhos. Pensa no que isso pede. Você está no chão picado, com veneno queimando por dentro. Toda a sua vontade é olhar pra ferida, pra dor, pro problema, é olhar pra baixo.

E o que Deus pede é o contrário. Olha pra cima. Tira os olhos da ferida e levanta a cabeça. E tem uma coisa de humildade aí também. Olhar praquele poste era admitir. Eu não consigo me curar sozinho. Eu preciso de algo fora de mim. A cura não estava na mão deles. Tava em levantar os olhos pra fora de si. E eu acho bonito que era simples assim. Não pediram pra eles fazerem uma penitência enorme. Não pediram pra eles serem perfeitos. Pediram pra eles olharem. Só olharem. Como quem diz, confiem. Tirem os olhos do problema e olhem pra mim. A parte mais difícil de quase toda dor não é a dor em si.

É que a dor prende o nosso olhar nela. A gente fica encarando a ferida e esquece que existe um pra cima. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa coisa que está te mordendo agora. Uma preocupação. Um medo. Uma dor que fica voltando na sua cabeça. E repara o quanto você fica olhando pra ela. Encarando o problema. Remoendo. Olhando pra baixo. Pra ferida. Hoje, uma vez só, quando essa coisa vier de novo, tenta fazer o gesto do povo no deserto. Em vez de mergulhar de novo no problema, levanta os olhos. Pode ser literal. Levanta a cabeça. Olha pra cima. Pra janela. Pro céu. Pro que tá além de você.

Não é mágica. Não vai sumir com o veneno na hora. Mas tem uma coisa que muda quando a gente para de encarar a ferida e lembra que existe um pra cima. Às vezes a cura começa nesse gesto pequeno. Tirar os olhos da picada. E olhar pra fora de si mesmo.