Imagina que o chão se abre embaixo dos pés de uma pessoa, e ela some. Engolida pela terra, viva, isso acontece nessa história. E acontece com gente que, pouco antes, estava reclamando do líder. Deixa eu te contar. O povo de Israel estava no deserto, já fazia tempo que eles tinham saído do Egito, da escravidão. E o líder deles era o Moisés. Era ele que falava com Deus, que guiava todo mundo, e nem todo mundo gostava disso. Tinha um homem chamado Korah. Ele era da mesma família grande do Moisés, trabalhava perto das coisas sagradas, ajudava no serviço da tenda de Deus, mas ele queria mais, e o Korah não estava sozinho.
Ele juntou outros três homens, dois irmãos, o Datan e o Abirão, e um outro, o On, e junto com eles, 250 líderes do povo, gente importante, gente que os outros respeitavam. Repara no tamanho disso. Não era um reclamão sozinho. Era um grupo grande, organizado, de gente com nome e com voz. E eles vão até o Moisés e o Arão, que era o irmão dele e o sacerdote principal. E fala uma coisa que, à primeira vista, até parece bonita. Eles dizem, mais ou menos, "já chega pra vocês dois. O povo inteiro é santo, cada um deles. Deus está no meio de todos nós. Então por que vocês se acham acima de todo mundo? Para, e pensa um seu.
O que eles falaram não parece tão errado. Somos todos iguais. Por que vocês mandam? Sou até justo, mas tinha uma coisa por baixo. Não era amor pela igualdade. Era inveja. Era o Korah querendo o lugar do Arão. Era gente querendo o poder pra si, escondido atrás de uma frase bonita. E o Moisés, quando ouve isso, faz uma coisa que diz muito sobre quem ele era. Ele não grita. Ele não se defende. Ele cai com o rosto no chão. Ele se abaixa e entrega a briga pra Deus decidir. E aí ele propõe um teste. Ele diz pro Korah e pros duzentos e cinquenta. A manhã de manhã, cada um de vocês pega um recipiente, põe brasa e incenso dentro e traz pra frente da tenda.
O incenso era uma coisa que só os sacerdotes podiam oferecer a Deus. Era coisa sagrada. E o Moisés diz. Aí a gente vai ver. Deus vai mostrar quem ele escolheu. Não eu, ele, e manda chamar o datan e o abirão, os outros dois. Mas eles se recusam a ir. Eles mandam uma resposta cheia de desprezo. Dizem não vamos. Você nos tirou de uma terra boa cheia de leite e mel pra nos matar no deserto. E ainda quer mandar na gente, repara que eles chamam o Egito, a terra da escravidão, de terra boa cheia de leite e mel, a saudade distorce tudo. Eles esqueceram do chicote. Só lembram do que perderam.
Chega amanhã. O Korá e os duzentos e cinquenta aparecem com seus recipientes de incenso na frente da tenda. E o Korá ainda junta o povo todo em volta contra o Moisés pra assistir e a glória de Deus aparece. E Deus fala com Moisés e o arão. Diz afastem-se desse povo que eu vou acabar com eles num instante. E olha o que o Moisés faz. De novo. Ele cai com o rosto no chão e implora. Ele diz não Deus. Vai um homem pecar e você se irrita com o povo inteiro. De novo o Moisés se coloca na frente da gente que tava contra ele. Pede pra Deus poupar a multidão. E Deus ouve. Manda o povo se afastar das tendas do Korá, do Datan e do Abirão.
Não chegue em perto. Não toque em nada do que é deles. E o povo se afasta. E o Datan e o Abirão saem e ficam parados na porta das suas tendas. Com as mulheres, com os filhos, com as crianças pequenas. Desafiando e o Moisés diz uma coisa. Ele diz agora vocês vão saber que não fui eu que inventei tudo isso. Se essa gente morrer de morte normal, de velice, então Deus não me mandou. Mas se a terra se abrir e engolir eles vivos, então vocês vão saber que eles desprezaram a Deus. E mal ele termina de falar. O chão racha, a terra se abre debaixo dos pés deles. E engolhe o Korá, o Datan, o Abirão, suas famílias, suas tendas, tudo o que era deles.
Eles descem vivos pra dentro da terra. E o chão se fecha por cima. E todo o povo de Israel que estava por perto sai correndo, gritando, com medo de que a terra engolisse eles também. E os duzentos e cinquenta que estavam ali com o incenso na mão. Um fogo desce e consome todos eles. Foi um dia aterrorizante. E o mais impressionante vem no dia seguinte. Você pensaria que o povo aprendeu, né? Que ficou quieto. Mas não. No dia seguinte, o povo inteiro se junta de novo contra o Moisés e o Arão. E reclama, vocês mataram o povo de Deus, eles culpam o Moisés. Pela coisa que o próprio Deus tinha feito na frente de todo o mundo.
É quase inacreditável. E uma praga começa a se espalhar pelo povo. As pessoas começam a morrer. E o que o Arão faz? O mesmo homem que eles estavam acusando, ele pega o recipiente com incenso, ascende e corre pra dentro do meio do povo. Ele se coloca no meio entre os que já morreram e os que ainda estavam vivos. E a praga para. Bem ali, no lugar onde ele se plantou. Repara nisso. O homem que eles queriam derrubar é o mesmo que corre pro meio do perigo pra salvar eles. E é aqui que eu paro pra pensar. Porque é fácil olhar pra essa história e achar que ela é sobre castigo. Sobre Deus punindo quem desobedece.
Mas tem uma coisa mais embaixo. O coratim é um argumento bonito. Somos todos iguais. Por que você manda? E sabe o que mais me chama a atenção? Que ele já tinha um lugar. Já trabalhava perto do sagrado. Já era alguém. Mas não bastava. Ele queria o lugar do outro. E acho que isso fala com a gente. Tem uma forma de inveja que se veste de justiça. A gente quer uma coisa que é do outro. E em vez de admitir que a gente só quer, a gente arruma um discurso. Não é justo. Eu mereço tanto quanto ele. E às vezes é verdade. Mas às vezes é só a inveja achando uma roupa bonita pra vestir.
E o contraste com o Moisés é o que me pega. Toda vez que atacam ele, ele se joga no chão e pede pelo povo. Quem tinha o poder de verdade era o que menos brigava por ele. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa vez recente em que você ficou incomodado com o lugar de alguém. O cargo de alguém. O reconhecimento que alguém teve. O espaço que o outro ocupa. E faz só uma pergunta pra si mesmo, com honestidade. Eu quero crescer, ou eu quero lugar do outro. São coisas diferentes. Querer crescer é olhar pra frente. Querer o lugar do outro é olhar pro lado, com inveja. Você não precisa resolver nada hoje.
Só perceber qual dos dois está mexendo com você por baixo. Porque dar nome pra essa inveja, antes que ela arrume um discurso bonito, já é o começo de não ser engolido por ela.