Doze homens entram escondidos numa terra, à mesma terra, andam juntos, veem as mesmas coisas, comem os mesmos frutos e quarenta dias depois, eles voltam e contam duas histórias completamente diferentes. Dez deles contam uma história de medo, dois contam uma história de esperança e a história que o povo escolheu acreditar mudou tudo. Mudou os próximos quarenta anos da vida deles, deixa eu te contar. O povo de Israel tinha chegado pertinho da terra prometida, a terra que Deus tinha jurado dar pra eles, faltava pouco, estava ali, do outro lado, e antes de entrar, eles mandam um grupo pra espiar, doze homens, um de cada tribo, líderes, gente respeitada.
A missão era simples, entrem na terra, olhem tudo, e voltem pra contar como é. Vejam se a terra é boa ou ruim, se a gente que mora lá é forte ou fraca, se as cidades têm muros ou não, e traga um pouco dos frutos de lá. E eles vão, por quarenta dias eles andam por aquela terra inteira, e a terra era linda, era farta, tão farta que, na volta, eles cortaram um único cacho de uvas tão grande, tão pesado, que precisou de dois homens pra carregar, pendurado num pau, entre os dois, pensa nessa imagem. Um cacho de uva que precisa de duas pessoas pra carregar, essa era a terra, era tudo que tinha um sonhado, e os doze voltam pro acampamento, e todo o povo se junta em volta deles, ansioso.
E aí, e os espias começam a falar, e no começo todos concordam. Eles dizem, a terra é maravilhosa, é de verdade uma terra onde corre leite e mel, olhem só esse fruto. Mas aí, dez deles, a maioria, mudam o tom, e vem o mar, eles dizem, mas o povo que mora lá é forte, a cidade são enormes, com muros altíssimos, e tem gente gigante por lá, gente tão grande que, do lado deles, a gente se sentia como gafanhotos, pequenininhos, e com certeza eles também olharam pra gente assim. Repara nessa frase, a gente se sentia como gafanhotos, eles já tinham perdido na cabeça antes de qualquer luta, o medo já tinha decidido o resultado por dentro, e o medo é contagioso.
Naquela mesma noite, o acampamento inteiro explode em choro, toda aquela gente chorando em pânico, e começam a falar coisas terríveis. Dizem, a, quem nos der a ter morrido no Egito, pra que Deus nos trouxe até aqui pra morrer nessa terra, vamos voltar pro Egito, vamos escolher outro líder, e voltar pra escravidão. Olha onde o medo levou eles, de volta pra corrente, eles preferiam a escravidão conhecida ao risco da liberdade, mas, no meio desse pânico todo, dois dos doze espias não aceitam, eles se chamavam Josué e Caléb, e eles tinham visto exatamente a mesma terra, os mesmos muros, os mesmos gigantes, mas eles contam a história de outro jeito, eles rasgam as próprias roupas, que eram um jeito antigo de mostrar desespero, e gritam pro povo, a terra é boa, muito boa, sim, o povo de lá é forte, mas se Deus está com a gente, a gente entra, não tenham medo dessa gente, a gente consegue, mesma terra, mesmos gigantes, duas histórias, dez olharam pro gigantes e esqueceram de Deus, dois olharam pra Deus, e os gigantes ficaram do tamanho certo, e o povo escolheu acreditar nos dez, escolheu o medo, chegaram a querer apedrejar o Josué e o Caléb, de tanta raiva de quem ainda tinha esperança, e aqui a história fica triste, Deus olha praquele povo, e fica profundamente decepcionado, não pelos gigantes, mas porque, depois de tudo, depois do mar aberto, do pão do céu, da água da rocha, eles ainda não confiavam nele, no último passo, eles travaram, e vem a consequência, e ela é dura, Deus diz, já que vocês não quiseram entrar, vocês não vão entrar, essa geração inteira, todos que choraram e quiseram voltar, vão viver e morrer aqui no deserto, vão andar por 40 anos, um ano pra cada dia que os espias passaram na terra, 40 anos vagando, quase uma vida inteira, tão perto, e tão longe, mas tinha uma exceção, duas pessoas daquela geração iam entrar na terra prometida, lá na frente, adivinha quem, o Josué e o Caléb, os dois que não tiveram medo, os dois que acreditaram, e é aqui que eu paro pra pensar, porque a parte mais impressionante dessa história não são os gigantes, é que 12 pessoas viram a mesma coisa, e voltaram com histórias opostas, a terra era a mesma, os muros eram os mesmos, os fatos eram idênticos, a diferença não estava na terra, estava nos olhos de quem olhava, dez olharam e viram o tamanho do problema, dois olharam e viram o tamanho da promessa, e isso fala demais com a gente, porque a gente faz isso todo dia na nossa escala, duas pessoas vivem a mesma situação difícil, uma desabar, a outra cresce, mesma situação, olhos diferentes, o que muda não é sempre o tamanho do gigante na sua frente, é o que você coloca ao lado dele pra comparar, se você bota só o seu tamanho ao lado do gigante, você vira gafanhoto, se você bota uma coisa maior ali, o gigante encole, e tem uma coisa que dói nessa história, é que o medo não custou barato, não foi só um momento ruim, custou 40 anos, uma geração inteira ficou do lado de fora de tudo que tinha sido prometido, não por causa dos gigantes, por causa do próprio medo, às vezes não é o obstáculo que nos para, é a história de medo que a gente conta pra si mesmo sobre o obstáculo, aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa coisa que você está adiando por medo, uma conversa difícil, um pedido que você não faz, uma mudança que você quer mas que te assusta, o seu gigante com muro alto e tudo, e hoje faz só um exercício, conta essa mesma situação de duas formas na sua cabeça, primeiro, do jeito dos dez espias, tudo que pode dar errado, como você se sente pequeno diante disso, o muro, o tamanho, o risco, e depois, conta de novo, do jeito do Josué e do Kaleb, o que pode dar certo, o que você ganha se for, e o que você já superou antes, que parecia impossível na época e hoje é passado, você não precisa decidir nada agora, só perceber que existem duas histórias possíveis sobre a mesma situação, e que aqui você vai acreditar, você está escolhendo, porque os gigantes eram reais, mas a terra também era, e a única diferença entre quem entrou e quem ficou de fora, foi qual das duas histórias eles deixaram ser mais forte.