Um povo inteiro tinha sido libertado da escravidão, tinha visto um mar se abrir, comia um pão que caia do céu todo dia, de graça, e sabe do que eles reclamavam da comida. Deixa eu te contar, porque essa história é sobre uma coisa que mora dentro de todo mundo. O povo de Israel estava no deserto, caminhando rumo à terra prometida, e começou um barulho no meio deles, um barulho de reclamação. E o texto diz que eles começaram a se queixar, e não era uma queixa pequena, era uma onda de gente insatisfeita, espalhando insatisfação um pro outro. E aí surge a queixa principal, e ela é quase engraçada, de tão humana, eles começam a chorar e a dizer "ah, quem nos dera um pouco de carne pra comer".
A gente lembra do peixe que comia no Egito, de graça, lembra dos pepinos, das melancias, das cebolas, do alho, e agora, agora a gente não tem nada, só esse maná, esse maná, esse maná, todo santo dia. O maná era o talpão do céu, uma comida que aparecia toda manhã no chão, como orvalho, e que sustentava eles havia meses, um milagre diário, comida caindo do céu. E eles estavam enjoados disso, repara na memória deles, eles dizem que no Egito comiam peixe de graça, de graça, eles eram escravos no Egito, eles apanhavam, eles choravam de tanto trabalhar, os filhos deles eram mortos, mas, de longe, com fome, a escravidão começou a aparecer boa, eles lembravam só do peixe, esqueceram do chicote.
É uma coisa estranha que a memória faz, quando o presente é difícil, o passado ruim ganha um brilho que ele nunca teve. A gente embeleza até a prisão de onde a gente fugiu, e aí a história abre uma janela pra uma pessoa que a gente quase esquece no meio disso, o Moisés. Porque o Moisés era o líder, e quando o povo reclama, é com ele que o povo reclama, toda aquela gente chorando, querendo carne, olhando pra ele, e o Moisés chega no fundo do poço, ele fala com Deus de um jeito que assusta, ele diz mais ou menos assim, por que o Senhor me deu esse peso? Esse povo todo não é meu filho pra eu carregar no colo, de onde eu vou tirar carne pra dar pra toda essa gente, eu não aguento mais carregar isso sozinho, se é pra ser assim, é melhor eu morrer, para e sente o tamanho desse desabafo, esse é o homem que enfrentou o faraó, que abriu o mar, e ele tá esgotado, esvaziado, pedindo pra morrer porque o peso de carregar todo mundo ficou grande demais, e olha o que Deus faz, ele não dá uma bronca no Moisés, ele resolve o problema do Moisés primeiro, ele diz, junta 70 homens experientes do povo, e eu vou dividir esse peso, o que está sobre você, eu vou colocar também sobre eles, você não vai carregar sozinho, e a onda, repara, antes de cuidar da queixa do povo, Deus cuida do cansaço do líder, ele divide o peso, ele dá ajudantes pro Moisés, como quem diz, você não foi feito pra carregar tudo sozinho, ninguém foi, e aí Deus vira pro povo, e aqui a história fica pesada, ele diz, vocês querem carne, vão ter carne, mas não por um dia, vocês vão ter carne por um mês inteiro, até sair pelo nariz, até vocês enjoarem dela, porque vocês choraram dizendo, porque a gente saiu do Egito, e então vem um vento, e o vento traz uma quantidade absurda de pássaros, umas codornizes, que caem em volta do acampamento, tanta ave que dava pra pegar com a mão, comida demais, comida até demais, eles pediram carne, e receberam carne demais, a ponto de fazer mal, e o lugar daquela história ganhou um nome triste, um nome que quer dizer mais ou menos a sepulturas da gula, o lugar onde o desejo descontrolado fez mal ao próprio povo, e é aqui que eu paro pra pensar, porque é fácil olhar pra esse povo e julgar, como assim reclamar do pão do céu, que gente ingrata, mas espera, a gente faz exatamente isso, a gente consegue uma coisa que sonhou, e em pouco tempo ela vira rotina, vira óbvio, e a gente começa a olhar pro lado, pro que falta, e a reclamar, a casa que a gente tanto quis vira a casa pequena, o trabalho que a gente comemorou vira o trabalho chato, a pessoa pela qual a gente se apaixonou vira a pessoa que irrita, o milagre de ontem vira o tédio de hoje, e a gente nem percebe quando o brilho foi embora, esse povo não tinha um problema de comida, eles tinham comida caindo do céu, eles tinham um problema de coração, um coração que não conseguia ver o que tinha, porque estava grudado no que faltava, e tem uma segunda coisa que me toca aqui, é o moisés esgotado, porque às vezes o problema não é o que a gente carrega, é carregar sozinho, e a resposta de Deus pra ele é linda na sua simplicidade, divide, chama gente, você não tem que segurar tudo nas suas costas, aqui vai uma coisa pra hoje, hoje, num momento qualquer, faz uma conta de cabeça, pega uma coisa que você tem hoje, e que um dia você sonhou em ter, qualquer coisa, pode ser o teto sobre a sua cabeça, pode ser uma pessoa que te ama, pode ser a comida que vai estar na sua mesa, pode ser só o fato de você estar respirando, com saúde pra ouvir isso aqui, e pra por um sino que isso já foi, já foi um pedido seu, já foi uma coisa que você não tinha, já foi um maná que caiu do céu pra você, você não precisa fingir que está tudo perfeito, tem coisa que falta, e tudo bem querer mais, mas só hoje, antes de olhar pro que falta, olha uma vez pro que já caiu do céu na sua vida, e virou tão comum que você nem vê mais, porque o povo do deserto morreu de tanto olhar pra carne que faltava, e nem percebeu o pão que estava ali, todo dia, na porta da barraca, esperando ser visto.