O recenseamento do povo no deserto · Números 1:1–4:49

A Biblia · Temporada 3 · Episódio 8 de 19 — em ordem cronológica

Você se sente perdido, sem um lugar, carregando pesos que não são seus? A resposta pode estar na única coisa que te falta: um centro.

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Transcrição

Imagina contar um povo inteiro, pessoa por pessoa, no meio do deserto, sem computador, sem papel de verdade, só gente passando, uma de cada vez, e alguém anotando, e quando a conta termina, o número é gigante, mais de seis tantos mil homens, e isso só os homens adultos, com as mulheres, as crianças e os velhos, era mais de dois milhões de pessoas. No meio do nada, deixa eu te contar por que eles fizeram essa conta, porque parece chato, uma contagem, mas tem uma coisa linda escondida aqui. O povo de Israel tinha saído do Egito, estava acampado no deserto, ao pé de uma montanha, e Deus pede pro Moisés uma coisa, conta o povo, todos os homens de vinte anos pra cima, os que podiam servir, os que podiam carregar o peso da caminhada que vinha pela frente, e eles contam.

O povo era dividido por tribo, agora pra você entender, esse povo era dividido em doze grupos grandes, doze tribos, cada tribo vinha de um dos doze filhos de um homem chamado Jacó, lá no comecinho da história, era uma família que tinha virado um povo, e aí, em vez de uma multidão sem forma, espalhada, perdida no deserto, Deus faz uma coisa, ele organiza, ele diz pra cada tribo, o seu lugar é aqui, ele desenha um acampamento, e não é um acampamento qualquer, é um quadrado, no meio de tudo, bem no centro, ficava atenda sagrada, a tenda onde Deus se encontrava com o povo, o coração do acampamento, e ao redor dessa tenda, em volta, ficava um grupo especial, a tribo encarregada de cuidar das coisas sagradas, eles montavam suas barracas formando um anel de proteção ao redor do centro, e aí, mais pra fora, nos quatro lados do quadrado, ficavam as outras tribos, três tribos de um lado, três do outro, três no outro, três no último, pensa na imagem de cima, um grande quadrado, no meio, a tenda de Deus, em volta, os guardiões, e nos quatro lados, o povo todo, cada um no seu lugar, e cada tribo tinha sua bandeira, sua marca, pra que cada pessoa soubesse exatamente onde era o seu canto, onde estava a sua gente, e tinha uma ordem até pra andar, quando o acampamento ia se mexer, atravessar mais um pedaço de deserto, eles sabiam quem ia na frente, quem ia no meio, quem ia atrás, ninguém empurrava ninguém, ninguém se perdia, aquela tribo que cuidava do sagrado tinha um trabalho ainda mais específico, quando o acampamento se mexia, eram eles que desmontavam a tenda de Deus, com todo cuidado, carregavam cada peça, e montavam tudo de novo no próximo lugar, e o texto entra num detalhe lindo aqui, ele diz exatamente quem carrega o que, esse grupo carrega as cortinas, aquele grupo, as madeiras, aquele outro, os objetos sagrados, enrolados em panos, pra ninguém nem tocar direto, cada família tinha a sua parte pra carregar, ninguém carregava tudo, e ninguém ficava sem carregar nada, e é aqui que eu paro pra pensar, porque vista de longe, essa é uma das partes mais difíceis de gostar na Bíblia, é contagem, é número, é lista de quem carrega o que, parece um inventário, mas tem uma coisa por baixo que muda tudo, é o cuidado de dar pra cada um o seu lugar, pensa no que tinha acontecido pouco tempo antes, aquela gente era uma multidão de escravos, no Egito eles não tinham nome, não tinham lugar, não tinham valor, eram só uma massa de gente que trabalhava, ninguém os contava porque ninguém os via como pessoas, e agora Deus para tudo pra contar, um por um, como quem diz, eu sei quantos vocês são, eu não vou perder ninguém pelo caminho, cada um de vocês está na minha conta, ser contado é o oposto de ser esquecido, e tem mais, olha o desenho do acampamento de novo, Deus no centro, e todos em volta dele, organizados, cada um com o seu lugar e a sua função, é como se a história dissesse, quando o que importa está no centro, o resto encontra o seu lugar em volta, a vida ganha forma, você sabe onde fica o seu canto, você sabe o que é seu pra carregar, e o caos vira ordem, a multidão perdida vira um povo, eu acho isso muito bonito, porque a sensação de estar perdido, de não saber qual é o seu lugar, de não saber o que é seu pra carregar e o que não é, essa sensação machuca demais, e muita dessa sensação vem de uma coisa só, de não ter um centro, de ter um monte de coisas disputando o meio da nossa vida, todas gritando, todas querendo ser o mais importante, aquele povo aprendeu, no deserto, que com um centro claro, tudo mais encontra seu lugar, aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa coisa só que você está carregando, e que talvez não seja sua pra carregar, porque naquele acampamento, cada um tinha a sua parte, e só a sua parte, ninguém carregava o que era do outro, e a gente esquece disso o tempo todo, a gente carrega a culpa que é do outro, a preocupação que é do outro, o problema que é do outro, a gente enche as costas de pesos que nem eram pra estar com a gente, então hoje, repara num peso que você tá carregando e pergunta, isso aqui é meu pra carregar, é a minha parte, ou eu peguei pra mim uma coisa que era de outra pessoa, você não precisa largar tudo de uma vez, só perceber, só olhar pra mochila nas suas costas e separar, isso aqui é meu, isso aqui não é, porque a caminhada já é longa demais pra você atravessar o deserto carregando o peso que não te pertence.