Imagina uma lei que diz assim, de tempos em tempos tudo volta a zero, as dívidas perdoadas, quem foi vendido como escravo solto, a terra que sua família perdeu, devolvida. Uma lei que apaga as contas do passado e dá pra todo mundo, de novo, um começo limpo. Essa lei existiu. Faz mais de três mil anos, e ela tinha um nome. Era chamada de Jubileu. Deixa eu te contar. Quando o povo de Israel estava pra entrar na terra prometida, Deus dá pra eles um jeito de contar o tempo. E esse jeito é estranho pra gente, o e-mail, ele fala da terra, e diz uma coisa linda. Diz, a cada seis anos vocês plantam e colhem, mas no sétimo ano, a terra também descansa.
Vocês não plantam. Deixam o chão respirar? Repara nisso. Não é só a pessoa que descansa um dia por semana, é a própria terra que descansa um ano inteiro, de sete em sete, e aí vem a conta maior. Deus diz, contem sete vezes sete anos, quarenta e nove anos, e o ano seguinte, o ano cinquenta, vai ser diferente de todos. Esse era o Jubileu. E o Jubileu começava de um jeito bonito. No dia mais sério do ano, o dia do perdão, eles tocavam um chifre, um som alto, comprido, que corria por toda a terra, e aquele som anunciava, chegou, o ano em que tudo recomeça. E o que acontecia nesse ano, três coisas, e cada uma delas é de cair o queixo, a primeira.
Quem tinha vendido a sua terra, recebia ela de volta. Pra entender isso, você precisa entender uma coisa daquele tempo. Quando uma família passava por um aperto, perdia tudo, ela acabava vendendo um pedaço de chão que era dela. E sem terra, no mundo deles você não tinha como viver. Você virava pobre pra sempre, e seus filhos também. E os filhos dos seus filhos, a pobreza virava uma corrente, passava de pai pra filho e não soltava nunca. O Jubileu cortava essa corrente. De cinquenta em cinquenta anos, a terra voltava pra família que a tinha perdido. Como se Deus dissesse, ninguém vai ficar pobre pra sempre.
Ninguém vai carregar a dívida dos avós a vida inteira. A segunda coisa, quem tinha virado escravo, era solto. Naquele tempo, quando uma pessoa devia muito e não tinha como pagar, ela se vendia. Ia trabalhar pra outra pessoa pra quitar a dívida, virava escrava por causa do dinheiro. No Jubileu, essas pessoas eram libertadas, voltavam pra suas famílias, livres e a terceira. As dívidas que ainda corriam, eram perdoadas. Para e pensa no tamanho disso, era um botão de reiniciar. A cada cinquenta anos, a sociedade inteira voltava pra um ponto de equilíbrio. Os muito ricos não podiam acumular pra sempre.
Os muito pobres não ficavam afundados pra sempre. Tudo respirava de novo, e Deus dá o motivo pra tudo isso. E o motivo é o coração de toda a história. Ele diz sobre a terra. Ela não é de vocês. A terra é minha. Vocês são apenas hóspedes nela, moradores de passagem, entende? A ideia de fundo é essa. Ninguém é dono de verdade. A gente só toma emprestado, por um tempo, e depois passa adiante. A terra, as coisas, até o tempo. Nada é nosso pra sempre. E sobre as pessoas que tinham virado escravas, Deus diz uma coisa ainda mais forte, diz, vocês não podem tratar essa gente como propriedade, porque eles são meus.
Eu tirei todos vocês da escravidão no Egito, vocês não vão fazer com os outros o que fizeram com vocês, aí está a raiz de tudo. Vocês já foram escravos, vocês sabem como dói. Então não faça um sistema que prenda os outros pra sempre. E é aqui que eu paro pra pensar, porque o jubileu é no fundo uma ideia sobre uma coisa que a gente tem muita dificuldade de fazer, que é soltar, soltar uma dívida que alguém tem com você, soltar uma vantagem que você acumulou, soltar a ideia de que o que você tem é só seu, pra sempre, e que você não deve nada a ninguém. A gente vive numa lógica de acumular, juntar, segurar, não soltar nunca.
E o jubileu vira essa lógica de cabeça pra baixo. Ele diz, a cada tanto tempo, abre a mão, deixa o outro recomeçar. E tem uma coisa que me toca de verdade aqui, é a ideia de que ninguém deveria carregar pra vida inteira o peso de um erro, de uma má sorte, de uma dívida antiga. A gente faz muito isso por dentro, sabia? A gente prende as pessoas no erro que elas cometeram, e prende a si mesmo também. Fica devendo a si mesmo por uma coisa que aconteceu há anos, que já passou, e que a gente se recusa a perdoar. O jubileu é como um lembrete de que existe uma data sim pra encerrar a conta, pra dizer chega, aquilo já passou, você pode recomeçar.
Aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa dívida que alguém tem com você, e não precisa ser dinheiro. Pode ser uma mágoa, uma pessoa que te magoou, e que de algum jeito você sente que ainda te deve alguma coisa, uma desculpa que nunca veio, um reconhecimento que você esperou e não recebeu, e pensa só hoje na ideia de dar um jubileu nessa conta. De soltar, não precisa ligar pra pessoa, não precisa avisar ninguém, é uma coisa que acontece só dentro de você, é escolher tirar aquela pessoa da sua lista de quem te deve, porque tem um detalhe que é fácil de esquecer, a dívida que o outro tem com você, quem fica carregando o peso dela, no dia a dia, é você, você é quem segura o papel na mão, o tempo todo, o jubileu não soltava só o devedor, soltava também quem segurava a dívida, e talvez seja essa a liberdade mais difícil, e mais bonita, de todas, a de quem decide, enfim, abrir a mão.