As últimas instruções antes de Canaã · Números 27:1–36:13

A Biblia · Temporada 3 · Episódio 14 de 19 — em ordem cronológica

Você dedicou sua vida a uma única meta, e na beira da vitória, ela é negada. Sua reação nesse momento define o que você realmente é.

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Transcrição

Um homem descobre que não vai chegar onde passou a vida inteira tentando chegar. Estão quase lá. Dá pra ver a terra do outro lado do rio. E ele sabe que não vai entrar. E em vez de só lamentar, ele começa a arrumar tudo. Pra quem vai ficar depois dele? Deixa eu te contar. O povo de Israel finalmente tinha chegado perto. Depois de 40 anos andando pelo deserto, eles estavam acampados na beira de um rio. O Jordão, do outro lado, dava pra ver a terra prometida. A terra de Canaan, o lugar pra onde eles tinham caminhado a vida inteira, estavam quase lá. Quase. Mas o Moisés, o líder de tudo isso, já era muito velho.

E Deus tinha dito uma coisa difícil pra ele. Por causa de um erro que o Moisés cometeu lá atrás, ele não ia entrar na terra. Ele ia ver de longe. Mas não ia atravessar o rio com o povo. Tença no peso disso. Você guia um povo inteiro por 40 anos no deserto. Aguenta as reclamações, as rebeliões, a fome, a sede. E quando finalmente chega na porta, você descobre que não vai entrar. Vai ficar do lado de fora. E o impressionante é o que o Moisés faz com esse tempo final. Ele não passa os últimos dias se lamentando. Ele passa organizando tudo, cuidando das pessoas que vão continuar sem ele.

Essa parte da história é cheia de coisas práticas. Mas tem umas que vale muito a pena olhar de perto. Porque elas mostram que tipo de coração tinha ali. A primeira é uma história linda. Sobre cinco mulheres. Tinha um homem que tinha morrido no deserto e não deixou nenhum filho homem. Só cinco filhas. E naquela época, a herança, a terra, passava só de pai pra filho. Mulher não herdava. Então essas cinco mulheres iam ficar sem nada. O nome do pai delas ia simplesmente sumir, porque não tinha homem pra carregar. E elas fazem uma coisa corajosa. Elas vão até o Moisés, na frente de todo o povo, e falam.

Dizem nosso pai morreu. Não deixou o filho homem. Porque o nome dele tem que desaparecer só por isso. Dá a herança pra gente também. Imagina a coragem. Cinco mulheres, num mundo de homens, indo até o líder máximo questionar uma lei antiga. E o Moisés não as manda embora. Ele leva o caso direto pra Deus. E Deus diz, elas têm razão. Está certo o que elas falaram. Dá a terra pra elas. E vira lei. Uma lei nova, por causa de cinco mulheres que tiveram a coragem de falar. A partir dali, se um homem morresse sem filho homem, a herança ia pras filhas. Repara que mesmo perto do fim, com tanta coisa na cabeça, o Moisés para pra ouvir cinco pessoas que o mundo daquele tempo não costumava ouvir.

E muda a regra por causa delas. A segunda coisa que ele resolve é a mais importante de todas. Quem vai liderar quando ele se for. Porque o Moisés sabia. Um povo sem líder naquele momento ia se perder. Ia virar uma multidão sem rumo. E ele não queria deixar o povo assim. Então ele vai até Deus e faz um pedido que mostra que tipo de homem ele era. Ele não pede pra Deus deixar ele entrar. Ele não reclama. Ele pede Deus, escolhe um homem pra liderar esse povo depois de mim. Pra que eles não fiquem como ovelhas sem pastor. Para nessa imagem. Ovelhas sem pastor. Um bando de bichos perdidos.

Sem ninguém pra guiar. Sem ninguém pra proteger. Era essa a maior preocupação do Moisés no fim. Não ele mesmo, o povo, e Deus escolhe um homem chamado Josué. Um homem mais novo, que tinha acompanhado o Moisés de perto por anos. Que era fiel, corajoso, e o Moisés faz uma coisa simbólica e linda. Na frente de todo o povo, ele coloca as mãos sobre o Josué. Passa pra ele a liderança. Ali, na frente de todo mundo. Pra ninguém ter dúvida de quem ia mandar. Ele entrega o seu lugar. De boa vontade. Com as próprias mãos. Pensa em como isso é difícil. Entregar pra outra pessoa, mais nova.

A coisa que você construiu a vida inteira. E o Moisés faz isso sem briga, sem ciúme. Ele abençoa o sucessor. E ele continua organizando. Ele cuida de dividir a terra entre as famílias. Pra cada tribo saber o que ia ser seu. Ele separa umas cidades especiais, as cidades de refúgio. Que eram lugares pra onde uma pessoa que tivesse matado alguém sem querer por acidente. Podia correr e ficar segura. Até ter um julgamento justo. Pra que ninguém fosse morto por vingança antes de ter chance de explicar o que aconteceu. É para que tipo de cuidado é esse. Ele tá pensando até na pessoa que comete um erro sem querer.

Garantindo que ela tenha pra onde correr. Que ela tenha um julgamento justo. E não a morte pela mão de um parente furioso. E ele resolve até detalhes pequenos. Sobre as filhas que iam herdar. Surge uma dúvida nova. E se elas casarem com um homem de outra tribo. A terra delas vai pra outra família. E a tribo perde aquele pedaço. E o Moisés resolve isso também. Com calma. Com cuidado. Pra que ninguém sair se prejudicado. Tudo isso. Nos últimos dias da vida dele. Sabendo que não ia entrar. E é aqui que eu paro pra pensar. Porque tem uma coisa rara nesse homem. Ele tá no fim. Ele sabe que não vai colher o que plantou.

Não vai pisar na terra que perseguiu por 40 anos. Qualquer um teria todo o direito de ficar amargurado. De jogar tudo pro alto. De dizer se eu não vou aproveitar. Que se vire quem fica. Mas o Moisés faz o contrário. Ele planta com mais cuidado ainda. Ele organiza tudo pro povo que vai continuar sem ele. Escolhe o sucessor. Divide a terra. Protage os fracos. Faz as leis justas. Ele cuida do futuro que ele mesmo não vai viver. E isso me toca muito. Porque a maior parte das coisas boas da vida a gente planta sem ver crescer. Quem planta uma árvore que demora 30 anos pra dar sombra muitas vezes não vai sentar embaixo dela.

Quem ensina uma criança não vê o adulto que ela vai virar. Quem cuida de uma coisa com amor, às vezes, é pra que outros aproveitem depois. O Moisés sabia que ia ficar do lado de fora. E mesmo assim, deixou tudo arrumado pra quem ia entrar. Esse é um tipo de generosidade que quase não tem nome. Cuidar de um futuro que não vai ser seu. Aqui vai uma coisa pra hoje. Tença numa coisa que você cuida. Ou poderia cuidar, sabendo que talvez não seja você quem vai aproveitar. Pode ser uma pessoa mais nova que você tá ensinando. Pode ser um trabalho que vai dar fruto só lá na frente. Pode ser um lugar que você quer deixar melhor do que encontrou.

Mesmo que outros é que vão usar depois. Hoje, faz uma coisa pequena por esse futuro que não é seu. Ensina uma coisa que você sabe pra alguém mais novo. Deixa uma instrução clara pra quem vier depois. Planta alguma coisa, no sentido que for, sabendo que talvez não seja você quem vai sentar embaixo da sombra, porque tem uma grandeza estranha nisso, em cuidar bem de uma terra que você sabe que não vai pisar. O Moisés fez isso até o último dia. E talvez seja uma das coisas mais bonitas que um ser humano consegue fazer.