O discurso de despedida de Moisés · Deuteronômio 1:1–4:43

A Biblia · Temporada 3 · Episódio 15 de 19 — em ordem cronológica

Quarenta anos perdidos no deserto por um simples erro. É o que acontece quando um povo esquece sua própria história.

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Transcrição

Um homem de 120 anos se levanta na frente de um povo inteiro. Ele sabe que vai morrer em breve e sabe que não vai entrar na terra para onde guiou todo mundo e o que ele faz com as últimas palavras. Ele conta a história deles de volta, tudo do começo ao fim, para que ninguém esqueça. Deixa eu te contar. O povo de Israel estava parado na beira do Rio Jordão. Do outro lado a terra prometida, 40 anos de deserto chegando ao fim, mas tinha uma coisa difícil ali. Quase todo mundo que estava ouvindo Moisés era gente nova. A geração que tinha saído do Egito, que tinha visto o mar abrir, que tinha vivido tudo aquilo, quase toda ela já tinha morrido no caminho.

Quem ia entrar na terra era os filhos, os netos, gente que era criança ou nem tinha nascido quando tudo começou e o Moisés sabia de uma coisa. Um povo que esquece de onde veio se perde. Então ele junta todo mundo e começa a falar e esse discurso é no fundo um homem velho contando para os mais novos a história que eles precisam carregar. Ele começa do começo, lembra eles do Monte Sinai, lá atrás, onde Deus tinha falado com o povo. Lembra de quando Deus disse já ficaram tempo demais parados nessa montanha. Está na hora de andar, de seguir para a terra. E aí ele conta uma coisa sobre si mesmo, com uma honestidade que surpreende.

Ele lembra de quando o trabalho de liderar o povo ficou pesado demais para ele sozinho. Tanta gente, tantos problemas, tantas brigas para resolver. E o Moisés conta que disse, eu não consigo carregar esse povo sozinho. É peso demais para um homem só. Repara que ele não se pinta como super-herói. Ele admite que precisou de ajuda, que escolheu outros homens para dividir o trabalho, para julgar as pequenas causas, para ele não fazer tudo sozinho. Um líder que admite o próprio limite, e aí ele chega na parte mais dolorida da história deles. Os 12 espias. Lembra dessa, quando eles tinham chegado perto da terra a primeira vez, lá atrás.

Eles mandaram 12 homens para espiar a terra, para ver como era. E os 12 voltaram dizendo que a terra era linda, cheia de frutas. Mas 10 deles disseram, não dá, tem gigantes lá. Cidades enormes, a gente vai morrer, não dá para entrar. E o povo acreditou no medo. Chorou a noite inteira, disse que preferia ter morrido no Egito. Se recusou a entrar. E foi por isso que eles passaram 40 anos no deserto. Não foi castigo à toa. Foi porque quando a porta se abriu pela primeira vez, eles tiveram medo demais para atravessar. E uma geração inteira teve que passar. Antes de tentar de novo, o Moisés lembra eles disso.

Sem maldade. Mas sem esconder. Como quem diz? Olha o que o medo já custou para a gente. Olha quantos anos a gente perdeu por não confiar. E aí, no meio de toda a recordação, vem o coração do discurso. A coisa que o Moisés mais queria que aquele povo guardasse. Ele diz de muitos jeitos a mesma coisa. Não esqueçam. Não esqueçam o que vocês viram com os próprios olhos. Não esqueçam que vocês ouviram a voz de Deus saindo do meio do fogo, na montanha. E mesmo assim continuaram vivos. Não esqueçam o dia em que vocês ficaram na frente daquela montanha em chamas. E ele dá um motivo.

Ele diz "tomem cuidado". Porque quando vocês entrarem na terra e tudo for bom, e vocês tiverem casa, comida, segurança, é aí que é fácil esquecer. É aí que vocês vão começar a achar que conseguiram tudo sozinhos. Para nisso um cês. Porque é verdade até hoje. A gente não costuma esquecer nos dias difíceis. É nos dias bons que a gente esquece. Quando tá tudo dando certo, é fácil achar que foi tudo mérito nosso. Que a gente não precisa de ninguém. É na fartura que a memória fica preguiçosa. E o Moisés sabia disso. Por isso ele insiste tanto. Lembrem, contem pros seus filhos.

Contem pros seus netos. Não deixem essa história morrer com vocês. E aí ele faz um pedido que resume tudo. Ele diz uma coisa que vai virar o centro de toda a fé daquele povo. Que existe um só Deus. Que não é como os ídolos das outras nações. Esses deuses de pedra e madeira que não veem, não ouvem, não fazem nada. Que o Deus deles é vivo e que ama e que tirou eles da escravidão com a própria mão. E ele diz, foi porque ele amou vocês. Não porque vocês eram o maior povo ou o mais forte. Vocês eram pequenos. Foi por amor. Só por amor. E é aqui que eu paro pra pensar. Porque me impressiona o que o Moisés escolhe fazer com o pouco tempo que sobrava.

Ele não dá uma lista de ordens novas. Ele não faz ameaças. Ele conta a história. De novo. Com paciência. Como um avô que senta os netos na frente e diz, deixa eu te contar de onde a gente veio. Porque ele entendeu uma coisa profunda. Que a memória é o que mantém um povo vivo. Quem esquece de onde veio, esquece quem é. E quem esquece quem é, se perde. E acho que isso vale pra cada um de nós também. A gente tem uma tendência da nada a esquecer as coisas boas. Os momentos em que a gente foi ajudado. Às vezes em que a gente passou por um perigo e saiu inteiro. As pessoas que carregaram a gente quando a gente não conseguia andar sozinho.

Nos dias bons, a gente acha que sempre esteve tudo bem. Que sempre foi tudo mérito nosso. E o remédio pra isso é simples, mas exige esforço. É lembrar. É contar a própria história de volta, de vez em quando. Pra não virar uma pessoa que acha que chegou onde chegou sozinha. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa coisa boa que você tem hoje. E que você já trata como óbvia. Uma pessoa que tá do seu lado. Um lugar pra morar. A sua saúde. Uma dificuldade do passado que você superou. E quase esqueceu que era difícil. E hoje, faz o que o Moisés pediu. Lembra de onde aquilo veio. Lembra de quem te ajudou.

Lembra de como era antes quando você ainda não tinha aquilo. Se der conta pra alguém. Pra um filho, um amigo, alguém mais novo. Diz olha, nem sempre foi assim. Deixa eu te contar como foi. Porque a gratidão não é um sentimento que aparece sozinho. Ela nasce da memória. Quem lembra de onde veio, agradece naturalmente. E quem esquece, acha que sempre teve tudo. E nunca acha que é o bastante. O Moisés gastou suas últimas forças pra que um povo inteiro não esquecesse. Talvez valha a pena hoje a gente fazer o mesmo com a própria história. Só lembrar. E agradecer.