O caranguejo de ouro grato que salva o lavrador

Budismo · Temporada 14 · Episódio 14 de 20 — em ordem cronológica

Você acreditaria que um caranguejo de ouro pode guardar uma dívida de gratidão? A ponto de te arrancar da beira da morte quando ninguém mais puder.

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Transcrição

Imagina que você poupa a vida de uma criatura pequena, dessas que quase ninguém olha duas vezes, e meses depois é justamente ela que aparece pra te salvar de uma morte certa. Você acreditaria que um caranguejo poderia retribuir um favor? E se eu te disser que, nesse conto, não é só um caranguejo qualquer, é um caranguejo de ouro, do tamanho de uma roda, que mora num lago e que carrega na cara passa a lembrança exata de quem foi bom com ele? Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, ainda estava no longo caminho de se tornar um.

Nesses contos ele aparece às vezes como rei, às vezes como sábio, às vezes como bicho, e nessa história ele nasce como um lavrador, um homem simples, de mãos calejadas, que tirava da terra o pão de cada dia, mas, mesmo simples, ele tinha uma coisa que vale mais que qualquer arado, um coração que não esmagava o que era pequeno. Ele repara na cena, todo dia, na hora de ir para a roça, esse lavrador passava na beira de um grande lago, e nesse lago vivia o tal caranguejo de ouro, um ser enorme, reluzente, mas tranquilo, como o lavrador passava por ali tantas vezes, foi criando uma intimidade boba e bonita com o bicho, parava, conversava sozinho, jogava um pedaço de comida, e o caranguejo aprendeu a confiar nele, saía da água, chegava perto, sem medo, era uma amizade silenciosa, dessas que a gente nem percebe que está construindo até o dia em que ela faz toda a diferença.

Agora, todo conto precisa de uma sombra, e a sombra aqui tinha bico e tinha asas, uma corva, uma corva de olhos espertos e fome antiga, olhava para aquele caranguejo de ouro e via comida, mas o caranguejo era grande demais, forte demais, com aquelas pinças que partiam galho, a corva não tinha força para vencer aquilo sozinha, então ela fez o que os espertos sem coragem sempre fazem, foi buscar um aliado mais cruel, procurou uma serpente negra, peçonhenta, e tramou com ela um plano, a serpente morderia, a corva esperaria o veneno fazer o trabalho, e depois as duas se banqueteariam. No meu sameira dele desto, só faltava a isca, e a isca, infelizmente, foi o nosso lavrador.

Naquele dia ele estava na roça, curvado sobre a terra sob o sol pesado, a serpente se enroscou por perto, e no momento certo deu o bote, gravou as presas na perna do homem, o veneno entrou quente e subindo, o lavrador caiu ali mesmo, entre os sucos da plantação, sentindo a vida começar a escapar pelos dedos, a corva, lado alto, já se aproximava, certa de que o festinho estava servido, mas tem uma coisa que os dois conspiradores não calcularam, o lavrador, mesmo caindo, mesmo com a vista escurecendo, pensou no amigo, numa última força ele se arrastou, ou chamou, ou de algum modo a notícia daquele tombo chegou até a beira do lago, e o caranguejo de ouro, que tinha guardado cada gentileza, sentiu que algo estava errado com o homem que nunca o tratou como bicho e sim como companhia, o caranguejo saiu da água.

Imagina a cena, aquele ser enorme e reluzente avançando pela terra firme, decidido, ele alcançou o homem caído, e quando a corva desceu para começar o banquete, o caranguejo foi mais rápido, agarrou a corva com uma das pinças, firme, sem soltar. A serpente, vendo a parceira presa, veio furiosa para atacar o caranguejo, e o caranguejo agarrou a serpente com a outra pinça, ali estava ele, segurando os dois algoses ao mesmo tempo, calmo como quem segura a justiça nas próprias mãos. A corva implorou, a serpente se debateu, e o caranguejo, com aquela paciência de quem tem o poder mas não tem pressa de usar a crueldade, impôs uma condição, a serpente teria que sugar de volta o veneno que tinha posto no lavrador, curar o que ferira, desfazer o mal feito, sob a pressão da pinça, a serpente cedeu, voltou até o homem, e retirou o veneno.

O lavrador respirou de novo, a cor voltou ao rosto, a vida, que estava indo, ficou. E o caranguejo, cumprida a cura, ele soltou os dois, não por fraqueza, mas porque o que ele queria não era a vingança, era salvar o amigo, o amigo salvo, o resto era excesso. Agora, repara no que esse conto está dizendo, bem de mansinho, ele fala de uma virtude que os budistas chamam de katanyuta, a gratidão, mas é uma gratidão de mão dupla, sabe? O lavrador foi bom com uma criatura que ninguém achava importante, sem esperar nada em troca, e o caranguejo guardou aquilo e devolveu na hora exata, a bondade que a gente espalha sem fazer conta, é uma semente que a gente nem vê brotar, e que um dia floresce justo quando a gente mais precisa, e olha como isso bate diferente no nosso tempo, a gente vive numa época que mede tudo, faço um favor e já fico esperando o retorno, já anoto na cabeça quem me deve o que, a gente trata gentileza como investimento, com taxa de juros e prazo de vencimento, e pior, a gente decide quem merece a nossa atenção pelo tamanho, damos um sorriso pra quem é grande, pra quem pode nos ser útil, e passamos reto por quem é pequeno, por quem parece não ter como nos retribuir, o lavrador faria o contrário, ele parava pra um caranguejo, ele tratava o pequeno como se fosse alguém, e foi exatamente o pequeno que o trouxe de volta da beira da morte, o futei também uma lição sobre como responder ao mal, o caranguejo tinha força pra esmagar a corva e a serpente, podia ter feito disso uma carnificina, mas ele usou o poder só até onde era preciso pra desfazer o dano, e parou ali, isso é uma sabedoria rara, ter a força e escolher a medida, não confundir justiça com sede de revanche, aqui vai uma coisa pra hoje, pense em alguém pequeno no seu dia, alguém que você costuma passar reto porque parece não ter nada a te oferecer, o atendente cansado, o entregador na chuva, a pessoa que limpa o lugar onde você trabalha, ou até um bicho que cruza o seu caminho, hoje faça uma gentileza a essa pessoa sem registrar nada, sem esperar nada de volta, sem nem contar pra ninguém, só porque sim, planta a semente e segue, porque um dia, quando você estiver caído entre os sulcos da sua própria vida, pode ser exatamente desse lado, do lado pequeno e esquecido, que vai vir a pinça de ouro que te puxa de volta.