O porco Tundila que ensina o irmão a não temer a morte

Budismo · Temporada 14 · Episódio 13 de 20 — em ordem cronológica

Você sabe o dia da sua morte. O que você faz? Quem te ensina a morrer sem medo é um porco.

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Transcrição

Imagina que você descobre, hoje, que tem uma data marcada para sua morte, que existe gente esperando, afiando a faca, contando os dias. O que você faz com esse medo? Sai correndo, grita ou para? Respira e pergunta a si mesmo que diferença esse pavor todo faz. Tem um conto antigo em que quem responde essa pergunta com mais sabedoria não é um rei, nem um monge, nem um general. É um porco. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, ainda estava no caminho vida após vida, juntando virtude e sabedoria. As vezes ele aparece como rei, as vezes como mercador, as vezes como árvore, as vezes como bicho.

Nessa história, o futuro Buda nasceu como um porco. Isso mesmo. E nem por isso a luz que ele carregava dentro era menor. Aconteceu assim. Numa aldeia perto de uma grande cidade, vivia uma velha sem filhos, sozinha daquelas que a vida foi deixando de lado. Um dia, uns audiões que tinham ido beber e festejar pegaram um leitãozinho recém-nascido e num gesto meio de brincadeira, meio de pena, deram o bichinho de presente para ela. Toma, vó, para te fazer companhia. E a velha, repara, não tratou aquele porco como porco, tratou como filho. Deu de comer da sua própria comida, deixou dormir perto, conversava com ele como se ele entendesse.

E o engraçado é que ele entendia. Porque dentro daquele corpo de porco morava o Bodhisatta, o futuro Buda. As pessoas da aldeia começaram a chamá-lo carinhosamente de Vó Porquinho. E o nome dele ficou sendo Tundila. Tundila cresceu forte, grande, lustroso, mas mais do que isso, cresceu sábio. Tundila tinha um irmão, mais novo, chamado Mahatundila, e é aqui que a história aperta o coração. Um dia chegaram a casa da velha, uns homens da cidade, bêbados, precisando de carne para uma festa. Olharam para o porco gordo e disseram, vó, toma esse dinheiro e nos dá teu porco. A velha resistiu, claro, mas os homens insistiram, e ela, fraca, sem força para brigar, acabou cedendo de um jeito que nem ela mesma entendeu direito.

Agora presta atenção na cena. O irmão mais novo, vendo aqueles homens se aproximando com cordas e olhares de quem já está pensando no churrasco, foi tomado por um pavor sem fundo. Começou a tremer, a guinchar, o corpo todo sacudido de medo, e correu para o irmão, para o Tundila, e disse, quase sem voz, "Irmão, esses homens vem me buscar. Eles nunca vieram assim antes. Hoje eu vou morrer. Estou com tanto medo que mal consigo ficar de pé. Me ajuda. Me diz o que eu faço." E o Tundila, o futuro Buda, olhou para o irmão tremendo e respondeu com uma calma que vinha de um lugar muito fundo.

Ele disse, mais ou menos assim, "Irmão, você está com medo da morte, mas para e repara numa coisa. Por que a gente foi alimentado todo esse tempo? Porque essa velha nos deu de comer, nos engordou, cuidou da gente com carinho. Não foi por bondade pura. Foi também porque, lá no fundo, esse dia ia chegar. Esse corpo nosso sempre teve um destino. O medo que você está sentindo agora não vai mudar uma vírgula do que vai acontecer. O medo só faz uma coisa. Estraga o pouco de vida que ainda resta. Ele te mata duas vezes e continuou. Olha para a água parada. Quando ela está agitada, você não enxerga nada dentro dela.

Quando ela quieta, você vê o fundo. Teu medo é a água agitada. A quieta é o coração, irmão, e você vai ver com clareza que não tem para onde fugir do que é a natureza das coisas. Tudo o que nasce, morre. O que a gente pode escolher não é se morre. É como se atravessa esse momento, tremendo de pavor ou inteiro, com dignidade, sem ódio de ninguém. Conta a história que a voz do Tundila era tão firme e tão cheia de paz que o irmão mais novo foi se acalmando. O tremor parou, o coração assentou. E mais, dizem que aquela voz ecoou pela aldeia toda e as pessoas que ouviram ficaram tão tocadas pela serenidade daquele porco diante da morte que algo nelas mudou.

Ouve quem largasse a faca, ouve quem fosse embora sem coragem de fazer o que tinha vindo fazer. A coragem mansa de uma criatura sem medo desarmou a violência dos homens. Agora, repara no que esse conto está dizendo. A virtude central aqui tem nome, é caante misturada com a clareza diante da impermanência, a nica, a capacidade de encarar o que não dá para mudar sem se desmanchar por dentro. E olha que coisa interessante. A gente vive numa época que é especialista em fugir desse assunto. A morte virou tabu, virou aquilo de que ninguém fala na mesa de jantar. A gente esconde os velhos, maquia a perda, empurra para debaixo do tapete qualquer lembrete de que isso tudo é passageiro.

E aí quando o medo bate, a gente está totalmente despreparado, igual o irmão mais novo, tremendo, sem chão, e não é só sobre a morte com mim maiúsculo não, é sobre as mil pequenas mortes do dia a dia, o emprego que pode acabar, a relação que pode terminar, o resultado do exame que você está esperando, a gente passa horas se torturando com o cenário do pior, agitando a água sem enxergar nada, gastando hoje com o sofrimento de um amanhã que talvez nem venha. Tundila te lembra, o medo não muda o fato, ele só rouba o presente, e tem uma coisa linda escondida aí também, o futuro Buda, mesmo prestes a morrer, não pensou primeiro em si, pensou no irmão, usou seus últimos momentos não para se lamentar, mas para acalmar quem amava, essa é a marca do Bodhisatta, até na sombra da morte, a bondade vem antes do desespero, aqui vai uma coisa para hoje, pensa numa coisa que está te enchendo de medo agora, alguma perda que você teme, algum fim que você não quer encarar, em vez de fugir do pensamento faz o contrário, senta com ele, só por um mini, em silêncio, como quem deixa a água agitada ir quietando, respira e se pergunta com a calma do Tundila, esse medo todo muda alguma coisa no que vai acontecer, se não muda e quase nunca muda, então ele não merece o teu hoje, devolve a tua atenção para a vida que ainda está acontecendo, bem aqui, agora, porque o segredo do porquinho sábio não era não morrer, era não desperdiçar nenhum indivíduo sendo morto pelo medo antes da hora.