O avarento que não usa a própria riqueza

Budismo · Temporada 14 · Episódio 15 de 20 — em ordem cronológica

Você tem um cofre transbordando, mas vive como mendigo. Afinal, de quem é a riqueza que você se recusa a usar?

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Transcrição

Imagina que você tem um cofre cheio até a boca, ouro, prata, joias, tudo guardado, tudo seguro. E mesmo assim você come a comida mais rala da casa, veste a roupa mais puída e fica de olho desconfiado em qualquer um que se aproxima. Pergunta sincera, de quem é essa riqueza afinal, sua ou de ninguém? Porque tem uma diferença e esse conto vive bem em cima dela. A diferença entre ter e usufruir, entre acumular e viver. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda. De quando ele ainda não era o Buda, ainda estava no longo caminho de se tornar Buda. A gente chama esse ser de Bodhista, e ele aparece nessas histórias de muitas formas.

Ora como rei, ora como sábio, ora como um simples mercador, e ora, como nesse conto como um pássaro lá no alto de uma árvore, observando os homens lá embaixo. A história acontece no reino de Kasi, na cidade de Benares. Vivia ali um homem riquíssimo, riquíssimo de verdade. Os baús dele transbordavam, os cofres não fechavam de tão cheios, e ainda assim, repara, esse homem não tocava em nada daquilo. Não por disciplina, não por desapego, não por generosidade. Era pura avareza, pura agarração. Ele tinha medo, medo de gastar, medo de perder, medo de que alguém visse o que ele tinha e quisesse um pedaço.

Então ele se vestia de trapos, pra ninguém desconfiar, comia papa de arroz quebrado, a comida dos mais pobres, enquanto nos seus depósitos apodrecia manjares que ele jamais provaria. Dormia num catre duro, de portas trancadas, contando moedas no escuro só pra ouvir o tilintar, e depois trancando tudo de novo, suspirando. E o curioso é o seguinte, naquele tempo, na floresta perto da cidade, vivia um pássaro chamado Maihaka. É o nome desse jataka, sabe, Maihaka, e esse pássaro tinha um canto muito particular. Ele voava pelas árvores carregadas de frutos maduros, frutos doces pendurados ao alcance de qualquer bico, e em vez de comer, ele só cantava sem parar, meu, meu, meu, é tudo meu, o canto dele parecia dizer exatamente isso, meu, meu, meu, e enquanto ele cantava "meu, meu, meu", os outros pássaros chegavam, pousavam nos galhos, e comiam os frutos calmamente, comiam a vontade, se fartavam, e iam embora satisfeitos.

E o Maihaka continuava ali, gritando que tudo era dele, e voando atrás dos bandos pra repetir, em outra árvore, a mesma ladainha. Ele guardava com a voz o que nunca levava ao bico, possuía no grito, e passava fome no galho. Pois bem. O Bozata, naquela vida, era uma divindade da floresta, um espírito que morava numa daquelas árvores, e via tudo aquilo de cima, via o pássaro Maihaka berrando "meu, meu, meu" sem nunca comer um fruto sequer, e via, lá na cidade, o homem rico passando fome no meio da fartura, e ele entendeu que eram a mesma criatura, o mesmo erro, com penas ou sem penas, agora o rei de Benares era um rei atento, e ele tinha um conselheiro de muita sabedoria, justamente o tipo de homem em que o Bozata gostava de soprar uma verdade.

Um dia, esse homem rico, o avarento, a doeceu e morreu, e como ele não tinha herdeiros, nem filhos, nem ninguém a quem tivesse aberto o coração ou a mão, toda aquela montanha de riqueza ficou sem dono, pela lei do reino, foi recolhida ao tesouro do rei. E olha a cena, levar um dia após dia, carregando ouro, prata, joias, tecidos, dos depósitos do morto para o palácio, sete dias, dizem, carregando sem parar, o rei ficou pasmo, tanto mais tanto, na casa de um homem que viveu vestido de trapos e comendo papa de pobre. E o rei perguntou ao conselheiro Sábio, que era onde o Bozata agora se fazia ouvir, como pode, como um homem com tudo isso viveu como o mais miserável dos mendigos, e o conselheiro respondeu com a história do pássaro Mayraca, contou do pássaro que voa entre os frutos doces gritando "meu, meu, meu", e morre de fome no meio do pomar, enquanto os outros, que nada possuem se alimentam em paz, e disse, a riqueza desse homem foi exatamente assim, foi um canto de "meu, meu, meu" que não alimentou ninguém, nem a ele mesmo.

Riqueza que não é usada com sabedoria, dizia o Sábio, não é diferente de não ter riqueza nenhuma, é só peso, é só guarda, é só medo trancado num baú. Agora, repara no que esse conto está dizendo, porque ele é mais afiado do que parece. A virtude que aparece aqui, do avesso, é o dana, a generosidade, o dar, mas tem uma camada antes do dar, é o uso, é a capacidade simples de desfrutar o que a vida coloca na sua frente sem ficar travado pelo medo de perder. O avarento e o pássaro Mayraca não pecam por terem muito, eles pecam por transformarem o ter num agarrar e o agarrar numa prisão, eles passam fome cercados de fartura, e essa é a ironia mais cruel, quem não solta, no fim, não tem, só carrega e olha, é fácil apontar o dedo para o velho avarento sentado no escuro contando moedas, mas a gente vive cheio de Mayracas modernos, viu, a gente guarda mil fotos que nunca olha, compra livros que nunca abre e enche a estante de um dia o leio, junta dinheiro para uma vida que está sempre adiada para o ano que vem, para quando der, para quando sobrar tempo, acumula seguidores, contatos, planos, e no meio de toda essa abundância fica com a sensação esquisita de fome, meu, meu, meu, a gente canta o dia inteiro sobre coisas que mal tocamos, e os frutos, doces, maduros, vão ficando para trás, no galho intactos, o conto não está pedindo para você ser pobre, está pedindo outra coisa mais delicada que você use de verdade o que já é seu, que coma o fruto, em vez de só vigiar a árvore, aqui vai uma coisa para hoje, olhe em volta de você e acha uma coisa que você guarda para ocasião especial, aquela louça boa, aquele perfume caro, a roupa bonita que mofa no armário esperando um dia digno o suficiente, hoje, usa, sem ocasião, sem motivo, só porque hoje é um dia da sua vida e ela está passando, e se der faz uma segunda coisa, pega algo que está te sobrando, qualquer coisa, e dá para alguém, não o que sobrou e você ia jogar fora, mas algo que ainda tem valor, sente como o fruto fica mais doce quando ele finalmente sai do galho, porque a riqueza, qualquer riqueza, só vira sua de verdade no instante em que você deixa de gritar meu, e começa, enfim, a viver.