Imagina que chega na sua porta um homem de túnicas simples, cabelos emaranhados, olhos baixos, voz mansa. Ele diz que renunciou ao mundo, que não quer nada pra si, que vive só de orações e de silêncio. E você, como ouvido, abre a casa, oferece comida, confia, mas e si, por trás daquele rosto de santo, morasse um ladrão, a pergunta parece simples, mas ela mexe com algo profundo. A gente confia no disfarcio ou na pessoa, no traje ou no coração, deixa eu te contar. Aparece a um dos játakás, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, e tava atravessando vida após vida se tornando aquele ser desperto.
Nessas histórias, o futuro Buda, o Bodhisatta, aparece às vezes como rei, às vezes como sábio, às vezes até como bicho. Nesse aqui, ele aparece de um jeito especial, e já já você vai entender por quê. A história começa numa aldeia tranquila, dessas em que todo mundo conhece todo mundo. As pessoas ali eram gente de fé, tinham o costume bonito de receber bem qualquer um que parecesse buscar a vida espiritual. Se aparecia um acet, um renunciante, alguém de cabeça raspada ou de cabelo emaranhado, traje surrado, tigela na mão, a aldeia inteira se mobilizava, davam arroz, davam frutas, davam abrigo, achavam que estavam cultivando mérito, plantando bem, e estavam mesmo.
Só que num certo dia chegou ali um homem que tinha entendido uma coisa torta sobre tudo isso. Ele reparou, as pessoas não estavam confiando na bondade dele, porque ele não tinha bondade nenhuma, elas estavam confiando no traje, no cabelo emaranhado, na tigela, na cara de quem reza, e ele pensou, com a frieza de quem só pensa em si. Se é o disfarce que abre as portas, então eu visto o disfarce, e foi o que ele fez. Paspou parte da cabeça, deixou o resto crescer emaranhado, sujou as vestes na medida certa, aprendeu a baixar os olhos, a falar devagar, a soltar de vez em quando uma palavra bonita sobre desapego, por fora, um acet perfeito, por dentro, um homem de mãos rápidas e consciência adormecida.
Ele se instalou numa cabana perto da aldeia, e começou o teatro. De dia sentava em meditação fingida, recebia as oferendas com aquele ar humilde, agradecia com a voz suave, as pessoas saíam de perto dele leves, achando que tinham tocado em algo sagrado, à noite, porém, era outro homem. Saía de mansinho, entrava nos celeiros, nos quintais, nas casas que ficavam abertas justamente porque ninguém ali tinha medo de ninguém, levava grãos, levava roupas, levava as poucas joias que aquela gente simples guardava, e sempre deixava um pouco, nunca tudo, pra que a falta demorasse a ser notada.
Desperto até nisso, e o detalhe mais cruel, quando de manhã, alguém aparecia desesperado contando que tinha sido roubado, era ele, alfalso a seta, que corria um pedir conselho. Homem santo, o que a gente faz, tem um ladrão na aldeia, e ele, lado seu banquinho, fechava os olhos, suspirava, e dizia que o mundo está cheio de desejo, que é preciso vigiar o coração, que o ladrão sempre vem de onde a gente menos espera, falava a verdade pura, repara, e usava a verdade como esconderijo, quanto mais ele pregava sobre honestidade, menos suspeitavam dele. O disfarce sagrado tinha virado a armadura perfeita, agora, é aqui que entra o Bodhisatta.
Naquela época, o futuro Buda tinha nascido como um sábio de verdade, um renunciante que de fato havia largado tudo, e que vivia ali pelas redondezas. Quando ele chegou à aldeia, viu aquele homem cercado de respeito, viu as oferendas, viu a túnica, viu os olhos baixos. Mas o Bodhisatta tinha uma coisa que o disfarce não engana, ele tinha atenção, atenção de verdade, treinada, paciente, ele observou, reparou que os olhos do tal acet a corriam para as casas, não para dentro de si, reparou que a voz era doce, mas o jeito era inquieto, reparou que, do dia em que aquele homem chegara, os roubos tinham começado, coincidência demais para ser coincidência.
O Bodhisatta não saiu acusando aos gritos, não é assim que age quem é sábio de verdade, ele esperou, vigiou e numa noite acompanhou de longe os passos do santo de mentira, viu o homem deslizar para fora da cabana, entraram de não devia, encher o saco com o que era dos outros. Aí sim, com testemunhas, ele expôs tudo a luz do dia, mostrou o esconderijo, mostrou os bens guardados, mostrou o ladrão por baixo do traje, e quando a aldeia ficou sabendo, veio aquele misto de raiva e de vergonha, raiva do enganador, e vergonha de si mesmos, por terem se curvado a um pedaço de pano em vez de olhar para a pessoa.
O Bodhisatta, então, não jogou pedra, ele ensinou, disse com gentileza, que a renúncia não está no cabelo nem na túnica, que o sagrado não é uma fantasia que se veste, e que confiar é bonito, mas confiar de olhos fechados é um convite ao engano. A bondade dos audiões era real, disse ele. O problema é que tinham depositado essa bondade na embalagem e não no conteúdo. Agora repara no que esse conto está dizendo, porque ele é incomodamente atual, a gente vive cercado de disfarces sagrados. Só que hoje eles não vêm de túnica e cabelo emaranhado, vêm de outras roupas, vêm da pessoa que fala lindamente sobre propósito enquanto te usa, vêm do perfil impecável, do discurso de causa nobre, do selo, do título, da legenda inspiradora.
A gente aprendeu a confiar no traje moderno, na aparência de autoridade, na linguagem certa, na imagem cuidada, e igual àquela aldeia, a gente abre a porta para o disfarce e esquece de olhar a pessoa. O budismo não está te pedindo para virar desconfiado, frio, fechado, pelo contrário. A generosidade daqueles audiões era preciosa, e o conto não pede que ela acabe. O que ele pede é uma coisa mais fina, que a confiança ande de mãos dadas com atenção, que a gente continue de coração aberto, mas com os olhos abertos também, porque a fé sem atenção não é virtude, é só distração com cara de bondade, e tem o outro lado, talvez o mais importante.
O falso a seta é um espelho desconfortável. Quantas vezes a gente também veste um traje? Mostra calma que não sente, posta serenidade que não tem, fala de valores que não pratica na hora difícil. O conto não cobra só dos outros. Ele pergunta baixinho o que existe por baixo da sua própria túnica. Aqui vai uma coisa para hoje. Escolhe uma pessoa ou uma fonte em que você confia muito, dessas que você nunca questiona. Pode ser alguém que admira, uma figura, uma marca, um discurso, e faz só uma pergunta honesta. Eu confio nessa pessoa pelo que ela é, pelos atos dela ao longo do tempo, ou pelo traje que ela veste, pela aparência, pelo título, pela imagem, não para virar cínico, para devolver a sua confiança ao lugar certo, as pessoas de verdade, e não aos disfarces.
E, já que estamos nisso, faz a mesma pergunta para o espelho. Hoje, o que você está mostrando por fora bate com o que existe por dentro.