Imagina um homem que passou a vida inteira tentando não fazer mal a ninguém, não rouba, não mente, não machuca, vive de raízes e frutos lá no meio da floresta. E um dia, à beira de um lago, ele se abaixa pra cheirar uma flor de lotos, só cheirar, e ouve uma voz dizer "você acabou de roubar". Como assim roubar? Roubar o que? De quem? Se ele só encher o peito de perfume. A resposta a essa pergunta, nesse conto, vira do avesso tudo o que a gente acha que é ser uma pessoa boa. Deixa eu te contar, esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, quando ele ainda estava no longo caminho de juntar, vida após vida, as virtudes que um dia o levariam ao despertar.
Nesses contos ele aparece às vezes como rei, às vezes como bicho, às vezes como um homem simples que vive no meio do mato, e nesse aqui ele aparece justamente assim, como um aceta, um eremita que tinha deixado a cidade pra trás pra cuidar do próprio coração na quietude da floresta, então repara na cena, havia uma grande floresta, e bem no meio dela um lago coberto de lotos, flor de lotos sabe, a bisapufa, a flor que nasce no fundo da lama e abre limpa por cima da água, perfumando o ar todo em volta, o Bodhisatta, o nosso futuro Buda, morava ali perto, tinha construído uma cabana de folhas, comia o que a terra dava, bebia a água do lago, e passava os dias em silêncio, treinando a mente, vivendo com o cuidado de quem não quer deixar marca de sofrimento em lugar nenhum, um dia ele desceu até a margem pra buscar as raízes de lotos de que se alimentava, e quando entrou na água até a cintura, veio aquele perfume, um cheiro doce fresco que subia das flores abertas, o homem parou, fechou os olhos, e sem pensar muito se inclinou e cheirou uma das flores, demorado deixando o perfume preencher ele por dentro, foi um instante de gosto de prazer, daqueles bem pequenos que a gente nem registra que está tendo, e foi aí que ele ouviu a voz, vinha do ar, de toda parte, era a deusa que habitava aquela floresta, o espírito daquele lugar, e ela falou, "séria mas sem grosseria, oire mita, essa flor que você acabou de cheirar não foi dada a você, ninguém te ofereceu esse perfume, você o tomou, cheirar a flor que não te deram é roubar o perfume dela, você é um ladrão de aromas, o homem ficou perplexo, olha que coisa estranha para ouvir, ele que vivia com tanto rigor, que nunca tiraram o que era dos outros, sendo chamado de ladrão por causa de um cheiro, e ele tentou se defender, do jeito que a gente se defenderia, disse, mas espera aí, eu não arranquei a flor, eu não quebrei o talo, eu não machuquei a planta, eu só cheirei, o perfume continua lá, a flor continua inteira, que roubo é esse se eu não levei nada, e nisso repara, é exatamente o que a gente também diria, eu não fiz nada de mais, foi só um cheirinho, não tirei pedaço de ninguém, mas enquanto os dois conversavam, apareceu um outro homem no lago, um sujeito que entrou na água sem nenhuma delicadeza, arrancou punhados de raízes, quebrou os talos, pisoteou as flores, deixou tudo revolvido e sujo, e foi embora carregando braçadas de lotos, destruindo o que não levava, um estrago de verdade, e a deusa diante daquilo tudo, ficou calada, não disse uma palavra pra ele, o eremita não entendeu mais nada, como assim, aquele homem destruiu o lago inteiro, arrancou, quebrou, sujou, e você não diz nada a ele, eu só cheirei uma flor e você me chama de ladrão, onde está a justiça nisso, e a deusa deu a resposta que faz esse conto valer a pena, ela disse, daquele homem eu não falo nada, por que, porque ele já está coberto de sujeira, a vida dele é desregrada, manchada de mil faltas, uma falta a mais numa roupa preta de folígem não aparece, ninguém repara, mas você, você é diferente, a tua vida é como um pano branco, limpo, recém lavado, numa roupa branca, a mancha menor do mundo salta os olhos, é por isso que eu te aviso, e não a ele, não porque a tua falta seja maior, mas porque você é alguém que ainda pode reparar nela, eu te corrigo porque você é capaz de ouvir, quem busca a pureza precisa cuidar até das pequenas faltas, daquelas do tamanho da ponta de um fio de cabelo, que para os outros parecem do tamanho de uma nuvem no céu, e o eremita, em vez de se ofender, se curvou, agradeceu, porque entendeu que aquilo não era acusação, era cuidado, a deusa o estava tratando como alguém que vale a pena corrigir, e dali em diante ele passou a viver com uma atenção ainda mais fina, reparando nos desejos miudos que passavam pela mente dele, naqueles prazerezinhos que a gente toma sem nem pedir licença, e que vão, devagarinho, escurecendo o pano branco por dentro, agora repara no que esse conto está dizendo, porque ele cutuca bem fundo num jeito nosso de pensar, a gente vive a moral pela balança grossa, ah eu não matei ninguém, eu não roubei dinheiro de banco, comparado com fulano eu sou um santo, a gente mede a própria conduta pelo crime que não cometeu, e usa a falta enorme dos outros como muralha pra esconder as nossas faltinhas, e aí a gente toma o perfume que não deram, pega aquele tempinho que era do trabalho e diz que não é nada, expicha a verdade só um pouquinho num comentário, consome com os olhos, com a curiosidade, com a fofoca, coisas e pessoas que não nos foram oferecidas, e jura que não levou nada, porque tudo continua aparentemente no lugar, os budistas tem um nome pra esse senso fino, essa sensibilidade que dói na menor falta, iri, a vergonha interior, o pudor moral, é a delicadeza de quem reparou que está com a roupa branca e quer mantê-la branca, não pros outros aplaudirem, mas porque já provou como é bom andar limpo por dentro, e o conto é generoso ao mostrar que essa exigência maior não é castigo, é um elogio disfarçado, a deusa fala com o Eremita justamente porque ele é capaz de ouvir, ela não perde tempo com quem já desistiu de si mesmo, ela cuida de quem ainda tem o pano claro, e olha que coisa, a gente quase sempre quer o contrário, a gente quer que peguem leve, que relevem, que digam deixa pra lá, foi só um cheirinho, mas talvez a maior prova de respeito que alguém possa te dar seja justamente reparar na tua mancha pequena, porque como dizer, eu acredito que você é melhor que isso, aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa falta pequena, daquelas que você sempre justifica com não é nada, pode ser o exagero leve numa história pra ficar mais bonita, o tempo surrupiado de quem confia em você, a olhada que você dá no que não te diz respeito, o perfume que você toma sem pedir, e hoje, em vez de comparar com a falta grande dos outros pra se sentir limpo, faz o que o Eremita fez, não se defenda, só repara nela, com gentileza sem se crucificar, trata a tua vida como um pano branco que vale a pena manter branco, porque quem cuida da mancha do tamanho de um fio de cabelo é exatamente quem ainda está a caminho de algo muito maior.