Viver de restos: os ascetas preguiçosos

Budismo · Temporada 14 · Episódio 18 de 20 — em ordem cronológica

Largar tudo para viver de restos parece virtude, não parece? Um deus desceu para provar que, às vezes, a preguiça é o disfarce mais sagrado de todos.

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Transcrição

Imagina um grupo de homens que largou tudo, casa, família, dinheiro, para viver uma vida santa na floresta e que, depois de tanta renúncia, descobriu um jeito de comer sem nunca precisar trabalhar para a própria comida. Eles não plantam, não colhem, não pedem com as próprias mãos. Eles esperam os outros comerem e vivem do que sobra do prato dos outros. Parece humildade não parece, mas espera até você ver o que está por baixo disso. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, vida após vida, nascendo às vezes como homem, às vezes como animal, sempre construindo virtude.

E nessa história ele nasce como saca, o Senhor dos deuses, e desce até a terra para desmascarar uma preguiça que se disfarçava de santidade. Era assim. Havia um homem rico em Benares que, num certo momento da vida, ficou cansado de tudo, cansado dos negócios, do barulho da cidade, das contas, das ambições, e pensou, "vou deixar tudo isso para trás e me tornar uma seta na floresta, vou viver de pouco, vou me purificar". E assim ele fez, largou a fortuna, vestiu uma roupa simples e foi morar entre as árvores com um pequeno grupo de seguidores que se juntaram a ele, só que tem uma coisa.

Largar a riqueza é fácil de dizer, largar os hábitos é que é difícil, e esse homem, o de roupa de acet, continuava com a mesma cabeça de antes, queria os frutos da vida santa sem pagar o preço dela, queria a aparência da renúncia sem o trabalho da disciplina. Então olha o que esse grupo inventou. Perto do eremitério deles passavam, de tempos em tempos, manadas de gado e caravanas de viajantes, e esses viajantes gente boa, faziam suas refeições ali pela estrada, no descanso, comiam o que tinham trazido, e o que sobrava, as cascas, os restos, os pedaços que ninguém quis, jogavam fora antes de seguir caminho.

E os acetas, os acetas esperavam, quietinhos, escondidos, esperavam os viajantes irem embora, e aí saíam correndo para recolher aquelas sobras do chão, os restos da comida dos outros, e faziam disso a sua refeição do dia. Em Pala isso tem até um nome, vigiaça, que quer dizer justamente isso, as sobras, o que resta no prato depois que a pessoa já comeu, e eles se gabavam disso. Olha que interessante, eles diziam, uns pros outros, e pra quem quisesse ouvir, que eram homens virtuosos, contentes, sem ganância, porque viviam só de restos, não pediam nada, não tomavam nada de ninguém, só aproveitavam o que ia ser jogado fora de qualquer jeito, que humildade né, que desapego, lado alto, o Bodhisatta, nascido como saca, o rei dos deuses, observava aquilo, e ele enxergou o que estava realmente acontecendo, aquilo não era desapego coisa nenhuma, era preguiça, era um grupo de homens fortes, saudáveis, perfeitamente capazes de buscar o próprio sustento de um jeito digno, que tinha escolhido viver na dependência dos restos alheios pra não ter o trabalho de fazer nada, e ainda chamavam isso de virtude, tinham pegado a preguiça e vestido ela com a roupa da santidade, então saca desceu, tomou a forma de um homem comum, e foi até o eremitério, e começou a conversar com eles, como quem está curioso, vocês vivem de que? ele perguntou, e eles, todos orgulhosos responderam, ah, nós vivemos das sobras dos restos, somos comedores de vigaça, não dependemos de plantar, nem de colher, nem de pedir, somos contentes com o que os outros deixam, e saca então fez a pergunta que furou tudo, ele disse mais ou menos assim, me explique em uma coisa, quem é de verdade o comedor de restos, é o que vive caçando o que sobra do prato dos outros por preguiça de cuidar de si, ou é o homem que, depois de ter repartido o que tem, depois de ter oferecido o melhor da sua comida a quem tinha fome, come com gratidão o que sobrou, porque esses dois comem sobras, mas um come por generosidade, e o outro come por preguiça, e não dá pra chamar os dois de virtuosos, os acetas ficaram sem resposta, porque a verdade tinha sido dita na cara deles, saca mostrou que o nome bonito que eles davam pra própria conduta, viver de restos, era só uma máscara, por baixo não havia desapego nenhum, havia um apego enorme, o apego ao conforto de não fazer esforço, e ele os repreendeu com firmeza, mas também com clareza, mostrando o caminho de uma vida santa de verdade, que se sustenta no próprio esforço e na generosidade, não na esperteza preguiçosa, e voltou pro seu mundo, agora repara no que esse conto está dizendo, porque ele é mais afiado do que parece, a virtude budista do meio dessa história é viria, a energia, o esforço reto, o disposição de fazer o que precisa ser feito sem terceirizar pros outros o peso da própria vida, e o conto não ataca quem é pobre, nem quem de fato precisa de ajuda, ele ataca uma coisa muito específica, a preguiça que se disfarça de virtude, o hábito de pegar o nosso menor esforço e dar pra ele um nome nobre, e olha como a gente faz isso hoje, do nosso jeito, a gente vive cercado de restos, só que digitais, a gente consome o pensamento jamais tegado dos outros, e chama de estar informado, repete opinião pronta, e chama de ter convicção, espera os outros produzirem, criarem, se exporem, e a gente fica ali, recolhendo as sobras, comentando, reagindo, sem nunca colocar nada de próprio no mundo, e damos a isso nomes bonitos, minimalismo, praticidade, estou só simplificando, quando no fundo, às vezes, é só a velha preguiça vestida de filosofia de vida, a gente também tem os nossos disfarces de santidade, o conto não diz que descanso é pecado, nem que simplicidade é ruim, simplicidade de verdade é uma das coisas mais bonitas que existem, o que ele cutuca, é a mentira que a gente conta pra si mesmo, é quando a gente para de fazer esforço, e em vez de admitir, inventa uma virtude pra justificar, aqui vai uma coisa pra hoje, escolhe uma área da sua vida em que você anda vivendo de restos, pode ser no trabalho, num relacionamento, no jeito de cuidar do corpo, no que você consome de informação, um lugar onde você está esperando que os outros façam o esforço e você só aproveita o que sobra, e talvez tenha até arrumado um nome bonito pra isso, e faz, hoje, uma única coisa por esforço próprio nessa área, uma só, produz em vez de só consumir, cozinha em vez de só esperar, oferece antes de receber, o que a diferença entre o aceta preguiçoso e o homem virtuoso não estava na comida que eles comiam, estava em quem tinha plantado, repartido e oferecido primeiro.