A codorniz contente com pouco

Budismo · Temporada 14 · Episódio 19 de 20 — em ordem cronológica

Você se acha livre, mas está gordo demais para voar. A fartura que te empanturra é a armadilha perfeita.

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Transcrição

Imagina dois pássaros que comem a mesma coisa, vivem no mesmo bosque, respiram o mesmo ar. Um deles vive magrinho, leve, esquecido; o outro vive gordo, lustroso, admirado. E aí me responde, qual dos dois você acha que estava em perigo de morte? A resposta nesse conto vira do avesso tudo o que a gente costuma achar sobre ter mais e ter menos. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, mas estava no longo caminho de se tornar um. Nessas histórias ele aparece às vezes como gente, às vezes como rei, mendigo, sábio e às vezes como bicho.

Dessa vez ele aparece com penas. Ele nasceu como uma codorniz, era uma codorniz pequena, dessas que vivem rente ao chão, no meio do mato baixo, perto de uma aldeia. E essa codorniz, repara, tinha um jeito muito próprio de viver, ela comia pouco. Não porque faltasse comida não, o bosque era farto, tinha grão caído, tinha brotinho tenro, tinha semente de sobra espalhada por todo lado. A codorniz simplesmente comia o suficiente para ficar de pé, para voar quando precisasse, para cantar de manhã. E parava, comia o quanto a fome pedia e nem um bico a mais. Por causa disso ela vivia magra, levezinha, os ossinhos dela quase apareciam debaixo das penas e os outros bichos do bosque, quando passavam por ela, meio que torciam o nariz.

Olha essa codorniz, diziam, vive ali no canto, comendo migalha, sem vício nenhum, que vida sem graça, agora perto dali. Nesse mesmo bosque, vivia uma outra codorniz. E essa era o oposto, essa tinha descoberto, num canto da floresta, um lugar onde a comida brotava farta, gorda, doce, e ela ia lá todo dia, comia, comia, comia, sem medir. O que entrava no bico, ia pra dentro, e ela engordou, ficou roliça, brilhante, com o peito estufado, as penas lustrosas de tão bem alimentada. Era a codorniz mais bonita do bosque, dessas que param qualquer um pra olhar. E ela tinha um orgulho danado disso, passava perto da codorniz magra e dizia, com aquele tom de quem sabe das coisas, você devia comer mais prima, olha como eu estou, cheia, forte, vistosa, você aí, definhando a toa, com tanta fartura no mundo, a codorniz magra, que era o bode sata, só inclinava a cabeça e respondia, mansa, cada um sabe a medida do próprio bico, prima, eu como o que me basta, e me basta o que como.

A outra ria, achava aquilo um disparate, continuou no seu banquete diário, cada dia mais cheia, cada dia mais lenta, só que tinha uma coisa que a codorniz gorda não sabia, aquele lugar fartinho onde ela se empanturrava todo dia não era um acaso da natureza, era uma armadilha, tinha um caçador de pássaros que jogava grão ali de propósito, justamente pra cevar as aves, pra deixá-las pesadas, gordas, valiosas, porque pássaro magro não interessa a ninguém, mas pássaro gordo, há esse rende no mercado, e chegou o dia, o caçador apareceu com a rede, ficou ali no exato ponto onde a comida brotava farta, e as aves vieram, como vinham todo dia, confiantes, sem desconfiar de nada.

A codorniz gorda veio também, voando pesado, devagar, o corpo cheio puxando pra baixo, quando a rede caiu, ela tentou subir, tentou bater as asas com força, tentou escapar, mas não conseguiu, era pesada demais, o próprio peso, aquele peso de que ela se orgulhava, prendeu ela no chão, ficou ali, presa, debatendo as asas lustrosas sem nenhum proveito. E a codorniz magra? A codorniz magra estava longe, no seu cantinho, comendo seus poucos grãos. Quando ouviu estar da alhaço, a confusão, o bater de asas, ela só erguia o voo, leve, rápida, subiu reto pro céu como uma flecha e sumiu no alto das árvores.

O pouco que ela tinha deixado o corpo dela leve o bastante pra fazer a única coisa que importava naquela hora, escapar com vida. Conta a história que, voando ali no alto, em segurança, a codorniz sabe, ela olhou pra baixo e disse uma coisa que ficou. Que a fartura sem medida não engorda a vida, engorda a armadilha. E que quem aprende a se contentar com o que basta carrega consigo uma liberdade que peso nenhum pode comprar. Agora, repara no que esse conto está dizendo. Ele não está dizendo que comida é ruim, nem que ter coisas é pecado. Ele está falando de uma virtude que em Pali se chama santo ti, o contentamento, a arte de saber qual é a sua medida, de comer o que basta, ter o que basta, querer o que basta, e parar ali no ponto certo antes que o a mais comece a te prender.

E olha como isso bate forte hoje. A gente vive num tempo que é, do começo ao fim, uma grande vida. Tudo foi feito pra você querer mais um pouco. Mais um item no carrinho, mais um episódio, mais uma rolagem na tela, mais uma comprinha que você nem precisava. E igualzinho ao caçador do conto, esse mais quase nunca é de graça. Tem alguém espalhando o grande propósito sabendo que pássaro sevado é pássaro que rende. A gente acha que está se fartando por escolha própria, quando muitas vezes está só engordando dentro de uma rede que outro armou. E aí, no dia em que a gente leveza, pede que a gente voe, pede uma decisão rápida, a gente descobre que está pesado demais.

Cheio de coisa, cheio de compromisso, cheio de dívida, cheio de excesso. E o que devia ser força virou âncora. A Codornis Sábia não era melhor que a outra porque tinha menos. Ela era mais livre porque não confundia ter muito com estar bem. Ela sabia a hora de fechar o bico. E essa hora, essa medida, é uma das coisas mais difíceis e mais preciosas que existem. Aqui vai uma coisa pra você. Escolhe uma única área da sua vida onde você anda comendo demais, no sentido amplo. Pode ser comida mesmo, pode ser compra, pode ser tela, pode ser trabalho. E hoje, faz uma vez só o gesto da Codornis Magra.

Chega no ponto em que seria o suficiente. E para ali de propósito, mesmo tendo mais a mão, sente o que é querer mais e escolher não pegar. Esse pequeno parar repetido é o que ter leve o bastante pra voar no dia em que a rede cair.