Imagina um corvo pousado na beira de um altar, com os olhos fixos não no incenso, não na flor, mas no brilho dourado de uma oferenda que reluza ao sol. Ele não quer comer aquilo, ele só quer ter. E uma coisa que a gente nunca tenha, exatamente aquilo que a gente só quer ter. Será que dá pra encher o bico de ouro e ainda sim continuar com fome? Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, e tava aos poucos, vida após vida, se tornando o desperto. Nesses contos ele aparece às vezes como rei, às vezes como mercador, às vezes como um simples bicho do mato.
E nesse aqui, repara, ele aparece justamente como um corvo. Mas um corvo diferente, a história se passa numa cidade grande dessas cheias de templos. Todos os dias, antes do sol esquentar, as pessoas subiam as escadarias de pedra carregando suas oferendas, tigelas de arroz fumegante, frutas maduras, bolinhos de mel, e nas datas especiais, pequenos enfeites dourados que os ricos depositavam diante dos santuários. O cheiro de comida boa subia no ar, e onde sobe cheiro de comida boa, ali aparecem os corvos. Vivia naquela cidade um bando deles, e entre eles havia dois que a gente precisa conhecer.
Um era um corvo jovem esperto, de pena lustrosa, que tinha feito do telhado do templo o seu posto de observação. O outro era um corvo velho, de penas meio puídas, calado, que ninguém ali levava muito a sério. Esse velho era o Bodhisatta, o futuro Buda, nascido naquela vida com asas e bico. O corvo jovem passava os dias num cálculo só. Ele olhava pra baixo, pra o vai e vem das oferendas, e o coração dele apertava de cubiça. Não era fome, repara bem. Ele tinha o que comer de sobra, restos não faltavam numa cidade daquele tamanho. O que ele queria era o dourado, aquele brilho dos enfeites motivos que os fiéis deixavam.
Se eu pegasse aquilo, ele pensava, se eu levasse aquilo pro meu ninho eu seria o corvo mais importante de todos. Nenhum outro teria o que eu tenho. E um dia ele tentou. Mergulhou do telhado num voo rasante, agarrou com o bico um pequeno ornamento dourado de cima de um altar e disparou de volta pra cima. O coração disparado de triunfo. Levou pro ninho, escondeu debaixo dos gravetos, e ficou ali olhando aquilo, esperando sentir a felicidade que tinha imaginado. Só que a felicidade não veio. Veio outra coisa, veio medo, porque agora ele tinha algo a perder. Passou a noite sem dormir, com medo de que outro corvo descobrisse o tesouro.
De manhã voltou ao altar, e a vontade tinha crescido, não diminuído. Um enfeite agora aparecia pouco. Ele queria mais, roubou de novo, e de novo. E quanto mais juntava, menos dormia, e mais magro ficava, porque já nem se lembrava direito de comer. O brilho do ouro tinha apagado nele até o brilho do apetite. Foi aí que o corvo velho, o Bodhisatta, pousou ao lado dele numa beirada de telhado. Ficou um tempo em silêncio, como quem não tem pressa. Depois falou, sem censura na voz, só com aquela calma de quem já viu muita coisa. Meu jovem, ele disse, eu te observo faz dias. Você junta o que não come e guarda o que não usa.
Me diz uma coisa, esse ouro já te alimentou alguma vez? Já te aqueceu numa noite fria? Já voou junto com você? O jovem ficou sem resposta. Engoliu em seco e disse, meio sem jeito. Mas é bonito, é valioso, os homens brigam por isso, lutam por isso, então deve valer alguma coisa. E o velho respondeu, condossura, vale, sim, pra quem pode usar. Pro homem, o ouro compra arroz. Mas você é um corvo, pra nós o ouro não compra um único grão. O que vale pra um não vale pra todos. E a tristeza do mundo, meu jovem, mora bem aí. Na hora em que a gente cobiça uma coisa não porque ela serve, mas porque ela brilha.
Você não está mais rico, você está mais preso. Cada peça que você esconde é mais uma corrente no seu pé. Repara, o corvo livre é o que voa de bico vazio. O rucovio, o jovem olhou pro seu monte de tesouro inútil. Olhou pras próprias penas, que tinham perdido o lustro. E pela primeira vez em muitos dias, sentiu não o desejo, mas o cansaço de desejar. Naquela tarde, um por um, ele devolveu os enfeites ao pé dos altares de onde tinha tirado. E dizem que naquela noite ele dormiu como não dormia via tempos leve de bico vazio sob as estrelas. Agora repara no que esse conto está dizendo pra gente, aqui, hoje, porque é fácil sorrir do corvo que junta ouro que não pode gastar.
Mas e a gente, a gente faz isso o tempo todo. A gente acumula o dourado das oferendas alheias o dia inteiro, deslizando o dedo pela tela. A gente coleciona coisas que não usa, segue vidas que não vive, deseja objetos não porque eles servem pra alguma coisa na nossa vida real, mas porque eles brilham na vitrine, no anúncio, no feed de outra pessoa. A gente confunde como o corvo o ter com o valer e o resultado é o mesmo, a noite sem sono, o medo de perder, a vida mais cheia de coisas e mais vazia de paz. O budismo tem um nome pra essa raiz, lobia, a cobiça, o agarrar-se, e o remédio não é ficar pobre, é ficar livre, é descobrir como o corvo velho, que o que de fato sustenta a vida é sempre simples e quase sempre já tá ao alcance.
Aqui vai uma coisa pra hoje. Escolhe em volta de você agora, na sua casa, na sua tela, e escolhe uma coisa que você anda querendo muito. Antes de buscar essa coisa, faz a pergunta do corvo velho, isso me alimenta, me aquece, me serve de verdade, ou só brilha, e se for só brilho, experimenta o gesto do corvo jovem no fim da história. Devolve, solta, larga uma coisa que você guarda e não usa, dá pra alguém que precise e reparem como seu bico fica mais leve pra voar.