E se eu te dissesse que existia um menino capaz de olhar pra terra batida de uma estrada e ler ali tudo o que aconteceu, que passou um ladrão que peso ele carregava nas costas, se estava com medo, se estava com pressa, pra onde ele ia, tudo, só pelas pegadas. E se eu te dissesse que esse mesmo dom, capaz de salvar um reino, quase custou a vida do próprio menino, deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, ainda estava no longo caminho de se tornar Buda, a gente chama esse ser de Bodhisatta. Nessa história, ele nasce como um jovem rapaz, e nasce com um talento muito raro, ele é um rastreador, os pés deixam marcas no mundo, e ele sabe ler essas marcas.
A história começa de um jeito estranho, quase mágico, conta-se que a mãe desse menino era uma criatura encantada, uma yakini, que se apaixonou por um homem, e foi viver com ele como esposa. Esse encontro nasceu o Bodhisatta, mas chegou o dia em que a mãe precisou voltar pro mundo de onde tinha vindo, e antes de partir, ela deixou pro filho um presente, um encantamento, um saber. A partir dali, aquele menino conseguiria seguir qualquer pegada, em qualquer chão, por mais antiga que fosse. Por isso ficou conhecido pelo nome que dá título a esse conto, o jovem hábil em pegadas, Badako sala, em Pali, aquele que é perito em rastros, e o tempo foi passando, e o menino cresceu, e a fama do seu dom também cresceu.
Ora, naquela cidade morava um tesoureiro do rei, um homem rico, e esse homem, certo dia, ficou sabendo do menino rastreador Iquista Estar, pegou uma quantia em moedas, escondeu num lugar bem distante, num esconderijo difícil, e depois chamou o jovem, dizem que você acha qualquer coisa pelas pegadas, pois então acha o meu dinheiro, e o menino sem alarde, foi seguindo as marcas no chão, virou aqui, contornou ali, leu o caminho que o próprio tesoureiro tinha feito dias antes, e parou em cima do esconderijo. Está aqui, o homem ficou maravilhado, e o rei ficou sabendo, o rei então teve uma ideia que vinha cheia de armadilha por dentro, ele mesmo no meio da noite, junto com o capelão da corte, entrou no próprio tesouro do palácio, pegou as joias mais preciosas da coroa, e escondeu tudo num tanque de água longe dali, tudo em segredo.
No dia seguinte, anunciou para a cidade inteira, fui roubado, roubaram as joias do rei, chamem o jovem rastreador, roubara, repara que o rei não queria recuperar joia nenhuma, ele queria ver se o menino era de verdade, e mais, queria ver até onde aquele dom ia. O Bodhisatta chegou, olhou para o chão, e começou a ler, seguiu as pegadas para fora do quarto do tesouro, atravessou o pátio, saiu pela muralha, foi acompanhando a marca dos pés noite a dentro até chegar na beira do tanque, e aí ele parou, porque os pés que ele estava seguindo, ele já tinha reconhecido, eram os pés do rei e do capelão.
Agora presta atenção no que vem aqui, porque é o coração da história. O menino sabia exatamente quem era o ladrão, mas ele estava diante do rei, cercado pelo chão pela corte inteira, e o rei perguntava, com cara de inocente, e então rapaz, quem roubou, aponta o ladrão, o Bodhisatta podia ter mentido, podia ter apontado um inocente qualquer para agradar o rei, podia ter ficado calado de medo, mas ele também não queria humilhar o rei na frente de todos, dizendo foi você. Então ele fez uma coisa muito sábia, ele começou a falar por parábolas, disse mais ou menos assim, senhor, eu sigo as pegadas até onde elas vão, e elas vão até a porta de uma certa casa, se o senhor me deixar parar aqui, eu paro aqui.
O rei insistiu, não, continua, aponta o ladrão, e o menino, com toda calma, foi apertando o cerco, dando indícios cada vez mais claros, sempre oferecendo ao rei uma saída para desistir da brincadeira, sem nunca trair a verdade, e sem nunca cuspir a acusação na cara dele. O rei foi ficando sem chão, porque ele percebeu o tamanho do perigo de ter alguém assim no reino, um homem que vê tudo. E aí dizem, ele chegou a pensar no impensável, mandar matar o menino, para que ninguém nunca soubesse que o próprio rei tinha ensenado roubo, e o Bodhisatta, que lheia pegadas no chão, leu também a pegada que estava se formando no coração do rei, sentiu perigo, e então ele falou, agora sem rodeio, mas sem ataque, disse uma verdade que parou todo o mundo, Senhor, num lugar onde a pessoa honesta vira ameaça, e onde a verdade precisa ter medo, ali já não mora justiça, eu sigo pegadas, mas existe uma pegada que nenhum rastreador consegue apagar, a marca que as nossas ações deixam em nós mesmos.
E essas palavras, contam, tocaram o rei, ele largou a armadilha, reconheceu, ali no fundo, que tinha brincado com o fogo, e em vez de matar o jovem, honrou, porque entendeu que um reino não se sustenta apagando quem fala a verdade, um reino se sustenta exatamente por causa dessas pessoas, agora, repara no que esse conto está dizendo pra gente, esse menino tinha um dom poderoso, o de enxergar o que estava escondido, e o conto poderia ter parado aí, na esperteza, no talento, mas a história não trata o talento como o herói, o herói é a coragem mansa de dizer a verdade no lugar certo, da maneira certa, na hora em que dizer a verdade é perigoso, os budistas chamam isso, em parte, de saca, a verdade, e de uma fala correta que não machuca a toa, mas também não se vende, e olha como isso fala com a gente hoje.
A gente vive num tempo em que ler pegadas ficou fácil, a gente tem o rastro de todo mundo na palma da mão, o que a pessoa apostou, o que ela curtiu há dez anos, onde ela tropeçou, virou esporte e seguir pegada à leia, mas quase ninguém pergunta a coisa que o menino sabia, o que eu faço com o que eu descubro, a gente usa a verdade que encontra para construir ou para destruir, para agradar quem tem poder, ou para um raro que é certo, hoje é tão comum a gente apontar o ladrão mais fácil, o inocente conveniente, só para não contrariar o rei da vez, seja ele um chefe, um grupo, uma plateia online, e é tão raro alguém que diz a verdade inteira, mas com cuidado, sem virar crueldade, aqui vai uma coisa para hoje, pensa numa verdade que você está segurando, uma daquelas que você sabe e que seria mais cômodo não dizer, antes de soltar ou de engolir, faz o que o jovem rastreador fez, procura o jeito de falar que seja verdadeiro e gentil ao mesmo tempo, não a verdade que humilha, nem o silêncio que mente, a verdade que abre uma porta para outra pessoa fazer melhor, porque pegada no chão o vento apaga, mas a marca de como você tratou a verdade no momento difícil, essa fica em você.