E se a pessoa mais íntegra que você conhece, alguém que passou anos cultivando a calma, a renúncia e a verdade, um dia escorregasse? E se essa pessoa caísse exatamente naquilo que jurou nunca fazer, o que você acha que ela faria depois? Esconderia, inventaria uma desculpa bonita, ou olharia o erro de frente? Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, mas estava no longo caminho de se tornar Buda, vida após vida, juntando virtude. A gente chama esse ser de Bodhisatta, e nessa história ele aparece como um homem chamado Arita, uma seta de cabelos cor-de-ouro, alguém que tinha tudo para ser um exemplo perfeito, e que justamente por isso vai nos ensinar algo sobre o que fazer quando a gente não é perfeito.
Arita nasceu numa família rica, de comerciantes, quando os pais morreram, ele recebeu uma fortuna imensa nas mãos, ouro, prata, propriedades, tudo, e um dia, repara, ele estava sentado revendo aqueles cofres todos, e veio um pensamento que mudou a vida dele, ele pensou assim, quem juntou tudo isso, meu avô, meus pais, onde eles estão agora, foram embora e não levaram uma moeda. Eu também vou embora um dia, do mesmo jeito, e vou levar o que? E ali, no meio da riqueza, ele sentiu o vazio daquilo tudo com uma clareza que doía, então Arita fez uma coisa que a gente acha quase impossível de imaginar, ele distribuiu a fortuna inteira, deu para quem precisava, abriu a mão de cada moeda, e foi embora para o Himalá e a viver como a seta.
Lá ele se sentou, fechou os olhos, respirou, e começou o trabalho silencioso de quem quer limpar a mente, com o tempo, ele alcançou estados profundos de concentração, aqueles que os textos chamam de janas, e até poderes que vinham da mente serena, ele vivia de frutas e raízes, sem desejar nada, sem possuir nada, era de verdade um homem livre, passaram-se anos assim, e um dia a comida da floresta ficou escassa, e Arita desceu até a cidade de Benares para pedir esmola, o rei de Benares viu aquele a seta de presença tão serena, de olhos tão calmos, e ficou encantado, convidou Arita para morar no próprio jardim real, ali pertinho do palácio, e prometeu cuidar de todas as necessidades dele.
Arita aceitou, durante 12 anos ele viveu no jardim do rei, respeitado por todos, comendo na mesa do palácio, e mantendo mesmo no meio do luxo da corte, a sua disciplina de renúncia. 12 anos, repara, 12 anos firme, aí a vida virou, o rei precisou sair para sufocar uma revolta numa fronteira distante, antes de partir, ele chamou a rainha e pediu, cuide do nosso a seta como eu cuidaria, não deixe faltar nada a ele, e foi, e aconteceu o que ninguém esperava, principalmente o próprio Arita. Num dia comum, ele chegou ao palácio na hora da refeição, a rainha tinha acabado de se banhar, estava descansando, e quando avisaram que o a seta tinha chegado, ela se levantou às pressas.
No movimento, a roupa dela se afrochou, e escorregou um pouco. E Arita, que por 12 anos não tinha olhado para a mulher nenhuma com desejo, naquele instante olhou, e o desejo, que ele achava morto, estava só adormecido. Acordou de uma vez, como um fogo que parecia apagado e ainda tinha brasa por baixo, a concentração dele se desfez na hora. Os poderes que vinham da mente serena foram embora. E Arita, o grande a seta, o homem da renúncia caiu. Ele e a rainha cederam ao desejo, e pior, não foi uma vez só. Dia após dia, ele continuava indo ao palácio com a desculpa da refeição, e na verdade ia atrás daquele prazer.
A floresta, a calma, os anos de prática, tudo foi ficando pra trás, encoberto por essa nova fome que ele alimentava em segredo. A coisa correu pela cidade, as pessoas comentavam, e a notícia chegou até o rei lá na fronteira. Mas o rei, repara, era um homem sábio, ele pensou, isso deve ser inveja, gente querendo manchar o nome de um homem santo, não vou acreditar até ver com meus próprios olhos. Terminou o serviço, voltou pra Benares, foi até a rainha e perguntou direto se era verdade, e ela, sem conseguir mentir, contou tudo. Mesmo assim, o rei não condenou ninguém de imediato. Ele foi até o jardim, encontrou Arita, sentou-se com respeito e disse, com toda a calma, "Senhor, me chegou um boato.
Dizem que o Senhor caiu, que abandonou a vida pura, mas eu não acredito nos outros. Eu quero ouvir do Senhor, é verdade." E aqui está o coração do conto. Arita ficou diante de uma escolha, era tão fácil mentir, ele tinha poder, tinha prestígio, tinha doze anos de reputação impecável, ninguém ia contestar a palavra dele contra de qualquer um, bastava dizer, não é verdade, e talvez tudo voltasse ao lugar, mas Arita pensou numa coisa simples e enorme. Se eu mentir agora, eu não perco só a renúncia, eu perco a verdade também. E quem mente uma vez, abre a porta pra fazer qualquer coisa depois.
Não existe maldade que a mentira não cubra. Então Arita levantou os olhos e disse, é verdade, oh rei, eu caí, eu cedi ao desejo. Assim, sem rodeio, sem desculpa, sem culpar a rainha, sem culpar o destino. A verdade nua, o rei ficou impressionado, não com a queda, mas com a honestidade. E perguntou, Senhor, o Senhor tem a sabedoria pra enxergar tudo isso. Por que essa sabedoria não impediu o Senhor de cair, e Arita respondeu com uma frase que vale pra todos nós, oh rei, são quatro as coisas que viram tudo de cabeça pra baixo no mundo, com força violenta, o desejo, o ódio, a ilusão e a vaidade.
Quando uma delas toma a pessoa, nem a sabedoria mais clara segura, do mesmo jeito que a água some quando a terra abre, e então, tendo dito a verdade em voz alta, tendo reconhecido a queda diante de todos, Arita sentiu uma coisa estranha acontecer dentro dele, a vergonha sincera, aquela que os budistas chamam de ir e o respeito pelas consequências que chamam de otapa, esses dois despertaram com força, ele percebeu que se conseguiu cair tão fundo, era porque tinha se acomodado, tinha confiado demais no luxo do palácio, ali mesmo diante do rei, ele se levantou, pediu licença, agradeceu, e voltou para o Himalaya, para a floresta, para o silêncio, retomou a prática do zero, com humildade, recuperou a concentração, recuperou a serenidade, e dessa vez não largou mais, caiu sim, mas se reergueu, e o que o reergueu foi exatamente ter dito a verdade.
Agora repara no que esse conto está dizendo, e como ele agentiu com a gente. Ele não diz que o homem santo nunca tropeça, diz que ele tropeça sim, como qualquer um, a diferença não está em nunca cair, a diferença está no que você faz no instante seguinte, e hoje agente vive num tempo que ficou especialista em não dizer a verdade sobre os próprios deslizes, agente erra e já corre para a explicação, foi o estresse, foi culpa dele, todo mundo faz, agente edita a história até parecer que não foi bem assim, agente apaga a mensagem, deleta o post e conta a versão que nos deixa bonitos, e o problema é que cada mentirinha dessas, cada desculpa pronta, não conserta nada, só empurra a queda para mais fundo, porque tira da gente a única coisa que poderia nos reerguer, que é olhar o erro de frente e chamá-lo pelo nome.
Arita não se salvou por ser perfeito, ele se salvou por ser honesto justamente na hora em que a mentira seria mais cômoda, aqui vai uma coisa para hoje, pensa num erro recente seu, pode ser pequeno, uma promessa que você não cumpriu, uma vez que você foi ríspido, algo que você fez e logo arrumou uma justificativa por dentro, hoje em vez de defender, experimenta a frase do acet, é verdade, eu falei nisso, diz para você mesmo primeiro, sem o mais no fim, sem culpar ninguém, e se der, diz para a pessoa envolvida, você vai sentir o quanto é difícil e vai sentir, logo depois, o quanto isso te coloca de pé de novo, porque é assim, não é a queda que define a gente, é a verdade que a gente tem coragem de dizer depois dela.