O pequeno papagaio e a lição da gratidão

Budismo · Temporada 17 · Episódio 4 de 12 — em ordem cronológica

O que você faz quando quem te deu tudo, não tem mais nada para dar? A sua resposta separa quem é grato de quem só usa.

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Transcrição

Imagina uma figueira velha, gigante, carregada de frutos doces por estações e mais estações, e imagina um passarinho pequeno, um papagaio verde, que come dessa árvore todos os dias, sem nunca pensar duas vezes, até que um dia os frutos acabam, a árvore seca, e aí vem a pergunta que separa um tipo de coração de outro. O que esse passarinho faz agora? Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, mas estava se tornando Buda ao longo de muitas vidas. Nesses contos o futuro Buda, o Bodhisatta, aparece às vezes como rei, às vezes como mestre, às vezes como um simples animal.

E nessa história, repara, ele aparece como um papagaio pequeno, um papagaio que vai dar uma lição de gratidão que faz tremer até os deuses. Conta-se que nas margens do Rio Ganges, lá onde a floresta fica densa e o vento cheira a frutas maduras, vivia um bando enorme de papagaios, o líder desse bando era o nosso Bodhisatta, nascido naquela vida como um pequeno papagaio de penas verdes e olhos atentos. Os papagaios tinham escolhido para morar uma figueira imensa, dessas que dão sombra para meio mundo e fruto o ano inteiro. Galho sobre galho, fruto sobre fruto. Para um bando de papagaios, era o paraíso, comiam, brincavam, criavam seus filhotes, e a árvore generosa dava e dava e dava, sem reclamar.

Passaram-se os anos, e a árvore foi ficando velha, como tudo fica. Um dia os frutos rarearam, depois sumiram de vez. A casca começou a rachar, os galhos secaram, e de cada fenda do tronco passou a sair só um pozinho seco, um farelo sem gosto, sem nenhum suco da vida. A figueira que tinha alimentado gerações de papagaios agora estava nua, quebrada, acabada, e aqui presta atenção, porque é nesse ponto que a história mostra a sua verdade. Os outros papagaios olharam aquela árvore seca, e fizeram a conta mais natural do mundo. Não tem mais comida aqui, vamos embora. E foram, bateram asas, levantaram voo emrevoada, e procuraram outra árvore, cheia, verde, carregada.

Ninguém olhou para trás. Para que olhar, a árvore não tinha mais nada a oferecer, só que um papagaio não foi. O nosso, o Bodhisatta ficou. Ficou pousado naquele tronco rachado, comendo o pós seco que sobrava nas vendas, bebendo o orvalho que se juntava de manhã nas cascas. Não reclamava. Não procurava melhor. Ele tinha decidido uma coisa simples e enorme ao mesmo tempo. Enquanto essa árvore me deu sombra e fruto, eu não estava sozinho. Agora que ela não tem mais nada, eu não vou abandoná-la. Na fartura ou na falta, ela é a minha amiga. Esse pequeno gesto, esse passarinho fiel num tronco morto, fez uma coisa estranha acontecer lá em cima.

Sabe quando um ato de bondade é tão puro que parece mexer com o próprio mundo? O trono de Saka, o rei dos deuses, esquentou. Era o sinal, na tradição, de que algo de uma virtude rara estava acontecendo lá embaixo entre os seres. Saka olhou, viu o papagaiozinho e ficou intrigado. Por que esse pássaro fica numa árvore que não dá mais nada? O que segura ele ali? Para testar, Saka tomou a forma de um ganso real e desceu. Pousou perto e perguntou, com toda a lógica do mundo, pequeno papagaio, essa árvore tá seca, sem fruto, sem folha, a floresta está cheia de árvores carregadas, por que você fica aqui passando fome num tronco morto? E o papagaio respondeu de um jeito que vale carregar para a vida inteira.

Ele disse mais ou menos assim, pelos anos que a gente passa junto, comendo da sua fartura, eu chamei essa árvore de amiga, agora que ela está velha e sem nada, eu vou trocá-la por outra mais bonita só porque deixou de me servir. Quem abandona um amigo na hora da necessidade, só porque já tirou dele o que queria, esse não conhece a gratidão. E sem gratidão, de que vale tudo mais. Saka ouviu aquilo e ficou tocado de verdade. Não era teimosia, não era apego cego, era gratidão, aquela virtude quem pali chamam de catanhuta, o reconhecimento de quem soube o bem que lhe foi feito. O rei dos deuses revelou quem era e disse, pela sua fidelidade, peça o que quiser.

E o papagaio não pediu fortuna, não pediu uma floresta inteira para si, pediu uma coisa só, que a sua velha amiga voltasse a viver. Saka então fez brotar das raízes da figueira uma corrente de néctar divino, o tronco rachado se encheu de seiva, os galhos secos reverdeceram, os frutos voltaram, mais doces do que nunca. A árvore que todos tinham abandonado floresceu de novo, por causa do único que não a abandonou. Agora repara no que esse conto está dizendo, porque ele fala direto com a gente hoje, a gente vive num tempo que ensina o contrário do papagaio, a gente aprende a otimizar, a trocar o que não rende mais, o amigo que não serve mais pra nada, a gente vai deixando de responder, o lugar, a pessoa, a comunidade que já não nos dá vantagem, a gente substitui pela versão mais nova, mais cheia, mais verde.

E damos a isso nomes bonitos, seguir em frente, cuidar de si, cortar o que não soma. Às vezes é mesmo, mas com que frequência, no fundo, a gente só está fazendo a conta dos outros papagaios, não tem mais fruto aqui, vamos embora. Esquecendo de tudo o que aquela árvore nos deu quando a gente precisava. Gratidão não é lembrar do bem enquanto ele ainda está acontecendo, isso é fácil, qualquer um faz. Gratidão é lembrar do bem depois que ele acabou, quando o outro não tem mais nada a te oferecer, é ficar no tronco seco, é a única forma de bondade que não espera nada de volta, porque já não há nada pra receber.

E olha que coisa o conto sussurra no fim, foi justamente esse coração que não pedia nada que fez a vida voltar, não porque a gratidão seja um truque pra conseguir milagres, mas porque um coração assim já é, ele mesmo, a árvore reflorecida. Aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa pessoa ou num lugar que te sustentou em alguma fase da sua vida e que hoje não te oferece mais nada útil. Um professor antigo, um avô esquecido, um amigo que ficou pra trás na correria, alguém que já não rende em troca nenhuma, hoje faz o gesto do pequeno papagaio, volta a esse tronco, manda uma mensagem, faz uma visita, uma ligação, sem pedir nada, só pra dizer que você não esqueceu o fruto que comeu, repara na sensação, é essa a seiva voltando.