O grande papagaio fiel à árvore mesmo seca

Budismo · Temporada 17 · Episódio 3 de 12 — em ordem cronológica

A fonte que te nutriu secou. Você a abandonaria, como todos os outros?

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Transcrição

Imagina que a casa que te deu abrigo à vida inteira, que te alimentou, que foi o teu mundo, um dia para de dar frutos, fica seca, oca, sem nada a oferecer, todos os outros vão embora, voando para árvores carregadas de comida, e você fica, porque você ficaria? Essa é a pergunta que mora no coração desse conto, e a resposta vai mexer com o jeito que a gente trata aquilo que um dia foi importante e hoje não serve mais pra nada, deixa eu te contar. Nesse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, vida após vida, e aparecia hora como gente, hora como bicho.

Nesse aqui, ele veio ao mundo como um papagaio, mas não um papagaio qualquer. Um grande papagaio, o rei de um bando enorme, sábio e de coração firme, lá nas encostas dos Himalias, a beira de um grande rio, havia uma figueira gigantesca, uma árvore daquelas que a gente olha e custa acreditar, os galhos se abriam pra todos os lados, pesados de figos doces, vermelhos como brasa, cheios de mel, e nessa árvore morava o nosso papagaio com o seu bando, era a casa deles, geração após geração, ali eles nasciam, comiam, criavam os filhotes e dormiam protegidos pela copa farta, e o tempo passou, como o tempo sempre passa.

A árvore foi ficando velha, um ano, deu menos figos, no outro, menos ainda, até que chegou o dia em que ela não deu mais nada, os galhos secaram, a casca rachou e foi caindo aos pedaços, buracos se abriram no tronco, de cada fenda quando o vento batia, saía só um pó fino, uma poeira seca, a árvore que tinha sido um rio de fartura virou um esqueleto de madeira morta, plantado à beira d'água, e aí o bando fez o que os bandos fazem, um por um, foram levantando voo, procuraram outras árvores, outros pomares, outros lugares onde ainda havia comida, ninguém os culpa por isso, repara, é o instinto, é a vida pedindo passagem, onde não tem sustento, não dá pra ficar, mas o grande papagaio não foi, ele continuou ali, pousado na árvore seca, comia o que sobrava, e quase nada sobrava, pedacinho de casca, um resto de fibra, o que dava, bebia a água do rio ali do lado e se contentava, não reclamava, não se lamentava, não saía por aí espalhando que a árvore tinha sido injusta com ele por ter envelhecido, ele ficava, e ficava feliz, no seu jeito sereno, fiel à árvore que tinha sido a sua casa à vida inteira, lá em cima, no mundo dos deuses, o trono de saca, o rei dos devas, começou a esquentar, é assim que dizem nas histórias antigas, quando alguém na terra pratica uma virtude muito alta, o assento do rei celeste aquece, e ele desce pra ver o que está acontecendo, saca olhou pra baixo, e viu aquele papagaio solitário, magro, pousado num tronco morto, sem nenhuma queixa no coração, e ele quis entender, quis testar, como inistar aí, saca tomou a forma de um ganso selvagem e desceu, pousou perto do papagaio e puxou conversa, com um tom meio provocador, meio curioso, amigo papagaio, ele disse, essa árvore está morta, não dá mais fruto, não dá mais nada, o bosque inteiro está cheio de árvores verdes, carregadas, porque você não vai embora também, porque insiste em ficar num pau seco, e o papagaio respondeu com uma calma que desarma, ele disse, mais ou menos assim, ó amigo, nos tempos bons, quando essa árvore estava cheia de figos, eu vivi dela, comia sua fartura, criei os meus, dormia sua sombra, ela me deu tudo o que eu fui, agora que ela está velha e seca, eu deveria abandoná-la só porque ela não tem mais nada pra me dar, isso seria a coisa mais ingrata que existe, a amizade não se mede pelo que a gente pode tirar do outro, verde ou seca, frutífera ou estéreo, ela é a minha amiga, eu não a deixo na hora da fraqueza, saca ouviu aquilo e ficou tomado, não era teimosia, não era falta de juízo, era gratidão pura, daquelas que não pedem nada em troca, ele largou o disfarce de ganso e apareceu na sua forma resplandescente, e disse ao papagaio que aquela fidelidade merecia recompensa, ofereceu o que eu vejo, o que ele quisesse, e o papagaio, fiel até no pedido, não pediu riqueza nem prazer pra si, pediu que a sua velha árvore voltasse a viver, que ela tornasse a dar figos, a ficar verde, a abrigar de novo, saca atendeu, tirou um pouco de nectar celeste e derramou no tronco, e a figueira velha estremeceu, brotou, encheu-se de folhas novas e de frutos doces como antes, e o papagaio viveu o seus dias ali, ao lado da amiga que ele nunca tinha abandonado.

Agora, repara no que esse conto está dizendo, porque ele bate bem fundo no jeito que a gente vive hoje. A virtude aqui tem nome, é a gratidão, o reconhecer aquilo que nos sustentou. Os antigos chamavam isso de uma das marcas da pessoa boa, a capacidade de lembrar o bem que receberam e honrar-lo, especialmente quando a fonte daquele bem serve mais a ninguém. E olha como a gente anda na contramão disso, a gente vive num tempo que ensina o contrário do papagaio, a gente é treinado pra trocar, o celular ficou lento, troca, o eletrodoméstico envelheceu, descarta, e o pior é que esse hábito não fica só nas coisas, ele escorrega pras pessoas, a amizade que não traz mais novidade, a gente esfria, o parente que ficou velho e doente, que já não diverte nem ajuda, vira peso.

O lugar que nos formou, a gente esquece assim que arruma um endereço melhor. A gente mede tudo pelo que ainda dá lucro, ainda dá prazer, ainda rende. E quando para de render, a gente vai embora, leve, sem culpa, voando pra próxima árvore verde. O papagaio não pensava assim. Pra ele, a amizade verdadeira não era um contrato de utilidade, era um laço que continuava existindo mesmo depois que a serventia acabou. E talvez seja exatamente isso que separa a gratidão de verdade da gratidão de conveniência. A gratidão de verdade aparece justamente quando não sobra mais nada a ganhar. Aqui vai uma coisa pra hoje.

Pensa em alguém ou em alguma coisa que te sustentou um dia e que hoje você anda meio deixando de lado justamente porque já não te oferece o que oferecia. Pode ser um avô, uma professora antiga, um amigo que ficou pra trás, um lugar. Hoje, faz um gesto pequeno por essa pessoa ou por essa lembrança sem esperar nada em troca. Uma ligação, uma visita, uma mensagem dizendo obrigado. Volta na árvore seca, mesmo que ela não tenha mais figo nenhum pra te dar. Porque a gente não honra o que ama pelo que ele ainda produz. A gente honra pelo que ele já foi.