Imagina uma casa onde todo mundo concorda em uma coisa só, que ninguém vai ceder. Cada um tem certeza absoluta de que está com a razão. E a discussão, que começou por uma bobagem, já tomou conta de tudo. Você conhece uma casa assim? Talvez você more numa. Agora imagina que essa casa não é uma casa qualquer. É um musteiro. Gente que largou tudo pra viver em paz, brigando como cachorro e gato por causa de uma regra minúscula. E o próprio Buda, em pessoa, tentando apartar e sendo ignorado, deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas. Os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava trilhando o caminho.
Vida após vida, juntando as virtudes que um dia o fariam desperto. Só que esse conto tem uma moldura especial, porque ele nasce de uma briga real, que aconteceu numa cidade chamada Kossambi. Fui assim. Em Kossambi viviam dois monjes respeitados, cada um cercado de discípulos. Um era mestre na disciplina, o outro mestre nos ensinamentos. E a confusão começou do jeito mais bobo que existe. Um dia, um deles deixou um pouco de água no recipiente do banheiro. Uma coisa que pela regra não se devia fazer. O outro reparou e comentou, de leve que aquilo era uma falta. O primeiro disse que não sabia, que não tinha feito por mal.
Pronto? Estava resolvido. Devia estar resolvido, mas não estava, porque as palavras, depois que saem, vão crescendo na boca dos outros. Os discípulos de um foram dizer aos discípulos do outro que o mestre deles tinha cometido uma falta e nem reconhecia. E os de lá responderam, e os de cá revidaram, e em pouco tempo o que era uma gota de água tinha virado um oceano de orgulho ferido. Os monjes se dividiram em dois lados, pararam de recitar juntos, pararam de fazer as cerimônias juntos, um mosteiro inteiro rachado por causa de uma poça. O Buda soube e foi até lá. Repara, ele não mandou recado, não delegou, foi pessoalmente, e falou com aquela calma dele que monjes não deviam viver assim, que a discordia destrói, que a harmonia constrói.
Pediu que se reconciliassem, e sabe o que aconteceu? Eles ouviram educadamente e continuaram brigando. Um deles chegou a dizer ao Buda mais ou menos assim, "Senhor, fica tranquilo, essa briga é nossa, a gente resolve", como quem diz, "obrigado, mas não se meta". Foi aí que o Buda contou a eles uma história de muito tempo atrás, uma história de reis. Havia, no passado, um rei de caixa chamado Brarmadatta. Esse rei era poderoso, tinha um exército enorme, e atacou o reino vizinho de Kossala, derrotou o rei de lá. Um homem chamado de Githi, tomou o reino inteiro, e o rei vencido teve que fugir disfarçado, escondido, vivendo como gente comum com a esposa nas ruas da própria cidade que perderam.
E foi nessa época difícil que nasceu o filho deles, um menino chamado de Gavu, que quer dizer mais ou menos vida longa. Nesse conto, repara, o futuro Buda é esse menino de Gavu. O Bodhisatta nasce no meio do ódio, filho de um pai destronado, criado para entés e vingar a família, só que o pai, o rei caído, foi descoberto. Um antigo servo o traiu, e o rei Brarmadatta mandou prender o casal e condená-los a morte. Levaram os dois pelas ruas, amarrados, para a execução, e no meio daquela multidão, o velho rei avistou o filho pequeno escondido, e sabendo que aquelas seriam suas últimas palavras, gritou para o menino uma frase que parecia um enigma.
Ele disse, mais ou menos, meu filho, não enxergue longe, e não enxergue curto, porque o ódio não se apaga com ódio, o ódio se apaga apenas com ausência de ódio, e os pais foram mortos, e o menino guardou aquela frase no coração, os anos passaram. Gavu cresceu, e era esperto, habilidoso, conseguiu entrar a serviço do palácio, justamente do rei que matara seus pais, e foi ganhando a confiança dele. Tocava bem, trabalhava bem, era agradável. O rei passou a gostar muito daquele rapaz, sem fazer ideia de quem ele era. Um dia numa caçada, os dois se afastaram da comitiva, sozinhos na floresta, e o rei cansado, deitou a cabeça no colo do rapaz e adormeceu.
Ali estava, o filho com a espada na mão, e o assassino dos pais dormindo, indefeso no seu colo. A vingança que ele fora criado para cumprir, ao alcance de um único golpe, Gavu sacou a espada, a mão tremia, e ele pensou, esse homem destruiu a minha família. Agora é a hora, mas então dentro dele, ressoaram as palavras do pai. Não enxergue longe, não enxergue curto, o ódio não se apaga com ódio, ele baixou a espada, levantou-a de novo, baixou de novo, três vezes a vingança subiu, e três vezes a lembrança do pai a fez descer. E o rei, no sono, acordou sobressaltado, dizendo que tinha sonhado que o filho de Dighiti vinha matá-lo.
O rapaz o acalmou, e então, segurando o rei pelos cabelos, com a espada à amostra, revelou, eu sou aquele filho, eu sou o de Gavu. O rei suplicou pela vida, e o rapaz, em vez de cortar, contou ao rei o que o pai dissera antes de morrer. Aquela frase sobre não enxergar longe nem curto, e explicou o sentido. Enxergar longe é alimentar a inimizade por muito tempo, sem fim. Enxergar curto é romper depressa demais com os amigos por qualquer atrito, e os dois entenderam, ali que cada um tinha a vida do outro nas mãos, e que se continuassem o ciclo, ele nunca terminaria. O rei devolveu o reino, deu a própria filha em casamento, e os dois, que deveriam se destruir, viveram em paz.
Quando o Buda terminou de contar isso aos monges de Kossambi, a mensagem ficou nua diante deles. Se reis, que tinham todo o motivo do mundo, sangue derramado, famílias mortas, conseguiram parar o ciclo do ódio, como é que monges, gente devotada à paz, não conseguiram parar por causa de uma poça de água. Agora, repara no que esse conto está dizendo. A virtude aqui tem nome, é a concórdia, a harmonia da comunidade, o que em Pali se chama Samaji, e o caminho até ela passa por uma das verdades mais repetidas pelo Buda. O ódio nunca se apaga com ódio, só com o seu contrário. A gente vive achando que vencer uma discussão é fechar a boca do outro, que ter razão é o prêmio máximo.
E olha como o nosso tempo é feito sob medida para essa armadilha. As redes premiam quem grita mais alto, quem dá a resposta mais ácida, quem humilha melhor. A gente entra numa briga por uma vírgula e sai dela inimigo de alguém que nunca viu. Como os monges, a gente confunde estar certo com estar bem. E fica enxergando longe, guardando o rancor que envenena por anos, ou enxergando curto, cortando relações inteiras por um único atrito. Aqui vai uma coisa para hoje, pensa numa briga sua que ainda está acesa, dessas que você revive na cabeça quando deita para dormir. E faz uma pergunta simples, a pergunta do velho rei, eu estou enxergando longe demais, alimentando isso sem fim, o curto demais, pronto para romper de vez.
Hoje, escolhe não devolver, não responde a farpa com farpa, não revida a mensagem ríspida. Deixa o ciclo morrer em você, porque como o menino aprendeu de espada na mão, o poder de continuar o ódio e o poder de encerrá-lo estão exatamente na mesma mão, na sua.