Imagina um filhote que cresceu ouvindo, todos os dias, a mesma frase do pai, não voe mais alto do que isso. E imagina que, num belo dia, com as asas fortes e o vento batendo no peito, esse filhote olha para cima e pensa, ele só está com medo, eu sou maior que o medo dele. O que será que acontece com quem decide que os limites são só conversa de gente velha? Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o desperto, mas o Bodhisatta, aquele que estava, vida após vida se preparando para despertar, às vezes ele aparece como rei, às vezes como sábio, às vezes como bicho.
Nesse aqui, ele nasceu no meio de uma revoada de Abutris, lá no alto de uma montanha que olhava o mundo inteiro de cima, e ele era o rei daquele bando. Repara, o Bodhisatta, como rei dos Abutris, já estava velho, as penas dele tinham o brilho cansado de quem já viu muita coisa, e ele tinha um filho, um Abutris jovem, chamado Supata, com asas largas, peito largo, e um orgulho ainda mais largo que tudo isso. Quando Supata abria as asas e cortava o céu, os outros Abutris paravam para olhar, ninguém voava como ele, ninguém subia tão rápido. E o pai, o velho rei, via aquilo com os olhos misturados.
Orgulho sim, mas também um aperto, porque quem já viveu sabe de uma coisa que os jovens ainda não sabem, força sem medida não é dom, é perigo. Então, um dia, o pai chamou o filho e disse, com toda a calma de quem fala o que importa, filho, você voa lindamente, mais alto que qualquer um do nosso bando, mas escuta o que eu vou te dizer, e guarda no coração. Quando você subir, há um limite, tem uma altura que a gente conhece. Daqui de cima a gente vê os campos, os rios, os homens lá embaixo do tamanho de formigas. Não passa disso, daquela altura para cima, o mundo muda, o vento não é mais amigo, o ar fica fino, trai sueiro, e o calor que vem de lá, ele despedaça as asas.
Já vi acontecer, não voe além da altura de onde a terra ainda parece a terra. E o jovem Supata o viu, assenou com a cabeça, mas, lá dentro, alguma coisa nele riu, coitado do meu pai, velho, cansado, esses limites são dele, não são meus, as asas dele já não aguentam, então ele acha que as minhas também não vão aguentar, por um tempo ele obedeceu, voava alto, mas respeitava a linha, e cada vez que chegava perto dela, e via que estava tudo bem, a vozinha de dentro ficava mais alta, ta vendo, não tem perigo nenhum, eu poderia subir mais, eu deveria subir mais, eu fui feito para subir mais, até que veio o dia, o céu estava limpo, de um azul que parecia chamar, e Supata abriu as asas, pegou o vento e foi, subiu, passou da altura onde os campos viram um tapete, passou da altura onde os rios viram linhas de prata, chegou na linha do pai, aquela linha de onde a terra ainda era a terra, e não parou, bateu as asas com mais força e cruzou, e que sensação, o mundo lá embaixo sumindo, o vento uivando, ele rindo da própria coragem, meu pai não sabia de nada, olha onde eu cheguei, olha o que eu consigo, subiu mais, e mais, a terra virou uma mancha sem forma, sem rio, sem campo, sem nada que ele reconhecesse, e foi aí que o conto diz o que o pai já sabia, o sol, lá em cima, não perdoa, o calor que parecia tão distante começou a queimar, as penas dele, aquelas penas magníficas, começaram a se abrir, a se soltar, a se desfazer, Supata tentou bater as asas, e não tinha mais asa para bater, o vento que ele achava que era amigo, simplesmente o largou, e ele caiu, caiu de uma altura que ninguém deveria ter alcançado, e se despedaçou contra a terra dura, longe, muito longe da montanha onde o pai esperava.
Agora repara no que esse conto está dizendo, e dizendo para a gente, hoje, não só para os abutres de uma fábula antiga, a virtude aqui não é covardia, o pai nunca disse não voe, ele disse conheça sua medida, em palí, isso tem um nome bonito, que aparece muito nos ensinamentos, o caminho do meio, e a sabedoria de quem reconhece a hora de parar. Não é o limite do medroso, é o limite de quem enxerga longe, de quem já viu o que acontece lá em cima, e voltou para contar, e veja como isso bate na gente, a gente vive num tempo que transformou voar alto demais em elogio, não tem limites, valem, o céu não é o teto, a gente aplau de quem se queima, e chama de ambição, a gente trabalha até o corpo se desfazer, e chama de dedicação, a gente sobe e sobe, atrás de mais um cargo, mais um número, mais uma curtida, achando que quem nos pede para desacelerar é só gente velha e cansada, com medo de viver, e a vozinha de dentro, igualzinha de supata, sussurra, o limite é deles, não é meu, eu aguento, só que o sol lá em cima não negocia, o corpo se desfaz, as relações se desfazem, a paz se desfaz, e a gente descobre, no meio da queda, que o pai não estava com medo, ele estava com sabedoria, a diferença entre o orgulho e a sabedoria muitas vezes é só uma, a sabedoria já visitou a altura, o orgulho só imaginou, aqui vai uma coisa para hoje, pensa numa área da sua vida em que você está subindo, e em que alguém que te quer bem já te avisou, com calma, para ter cuidado, pode ser o trabalho, pode ser uma dívida, pode ser o jeito como você cuida, ou não cuida, do seu corpo, e em vez de descartar o aviso como medo dos outros, faz uma pergunta honesta, será que isso é o meu limite real, ou só o limite que o meu orgulho não quer aceitar, conhecer a sua medida não é parar de voar, é chegar inteiro do outro lado.