Imagina que alguém te oferece tudo o que você sempre quis. O cargo, a fortuna, o reconhecimento, a pessoa amada, tudo de uma vez só. E o preço é só um, fazer uma única coisa que, lá no fundo, você sabe que é errada. Uma coisa pequena, dizem eles, rápida, ninguém vai lembrar, você aceita? Esse conto fala de um homem que tinha conquistado a paz mais rara do mundo e que quase trocou ela por uma coroa. Deixa eu te contar. Ele é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, ainda estava no caminho, ainda era o Bodhisatta, aquele que vida após vida foi acumulando virtude.
E nessa vida ele nasceu com o nome de Lomas Saka Sapa, repara, ele e o príncipe da época eram amigos de infância, cresceram juntos, estudaram juntos, dividiram os mesmos professores, mas, lá pela juventude, os dois tomaram caminhos bem diferentes. O príncipe seguiu para o palácio, para a vida do Trono, das festas, do poder, e Kassapa, esse nosso protagonista, olhou para toda aquela agitação do mundo e sentiu que não era ali, largou tudo, foi para a floresta, virou a seta, e não foi uma seta meia boca não. Kassapa foi fundo, anos e anos sentado em silêncio, comendo pouco, dormindo no chão, domando a mente como quem toma um cavalo selvagem, e o tempo foi passando, e a disciplina dele foi ficando tão afiada, tão limpa, que ele alcançou aquilo que na tradição se chama os poderes da meditação profunda.
A mente dele ficou serena de um jeito que quase ninguém conhece. Era um homem que não precisava de nada, que não temia nada, que não desejava nada. Você consegue imaginar a leveza disso, acordar e não dever nada a ninguém, nem a si mesmo. Enquanto isso, lá no reino, o velho rei morreu, e o amigo de infância subiu ao trono, virou o rei, e reis, deixa eu te dizer, são pessoas que vivem cercadas de gente que quer alguma coisa. Um dia, esse rei foi tomado por um medo antigo, dessas inseguranças que o poder não cura, só esconde. Ele queria garantir o trono, queria afastar os inimigos, queria que os deuses estivessem do lado dele, e os brâmanes da corte, os conselheiros, sussurraram no ouvido dele uma ideia terrível, disseram assim, majestade, existe um sacrifício antigo, um ritual de sangue, em que se imolam centenas de animais aos deuses.
Quem faz esse sacrifício se torna invencível, vira Senhor de toda a terra. Mas para que o ritual tenha força total, ele precisa ser conduzido por um homem santo de verdade, e só existe um homem assim. O seu velho amigo, o Aceta Kassapa, repara na armadilha, não bastava o sangue dos animais, eles precisavam manchar as mãos do homem puro, precisavam que a própria virtude do santo abençoasse a matança, como se a luz fosse necessária para legitimar a escuridão. O rei mandou os mensageiros à floresta, e os mensageiros voltaram com a resposta. Kassapa recusou, claro que recusou, tirar a vida de seres inocentes e a contra tudo o que ele tinha construído em silêncio durante anos.
Era a primeira virtude, a base de tudo, silla, a não violência, o respeito pela vida que pulsa em cada criatura, aí entra o veneno mais sutil dessa história. Os conselheiros tiveram outra ideia, disseram ao rei, ofereça a ele a sua filha mais bela, a princesa, diga que ela será dele se ele conduzir o sacrifício. E o rei chamou a filha, vestiu ela com as joias mais finas, e a levou junto. Quando Kassapa, o homem que não desejava nada, que tinha passado a vida inteira esvaziando o coração de qualquer apego, quando ele levantou os olhos e viu aquela mulher diante dele, alguma coisa tremeu.
Um desejo antigo que ele achava morto abriu o olho lá no fundo e nesse instante dizem os textos, os poderes da meditação dele se apagaram. Como uma chama que o vento leva, a serenidade de anos evaporou diante de um único desejo não vigiado. E ele disse sim, ele o santo disse sim ao sacrifício, pela mulher, pela promessa. Ficou tudo pronto, o dia marcado, as centenas de animais reunidos presos esperando, o povo todo veio assistir, porque corria a notícia de que o grande aceta Kassapa em pessoa ia conduzir o ritual, e lá estava ele, de espada na mão, o homem puro, prestes a derramar o primeiro sangue, com a princesa observando e a coroa do mundo prometida.
Mas no momento exato em que ele ia disferir o golpe, o primeiro animal soltou um som, um gemido de pavor, um som de criatura que sabe que vai morrer e não entende porquê. E aquele som atravessou Kassapa como uma flecha, ele parou, olhou para a espada na própria mão, olhou para os animais tremendo, olhou para a multidão sedenta de espetáculo, e de repente ele se viu, viu o que tinha virado, o homem que tinha largado o mundo inteiro por liberdade, agora ali, de espada erguida, escravo de um desejo, prestes a comprar uma coroa com o terror dos inocentes. A vergonha desabou sobre ele, aquela vergonha sagrada, iri, que é a capacidade de sentir nojo do próprio erro antes de cometê-lo por inteiro.
Ele baixou a espada e disse na frente de todo mundo não, eu não vou fazer isso, que eu perca a coroa, que eu perca a princesa, que eu perca o mundo todo, a minha vida santa não está à venda, e na mesma hora conta o conto, a clareza voltou, a serenidade voltou, ele soltou a espada, soltou a promessa, soltou a princesa e voltou para a floresta mais firme do que nunca, sabendo agora exatamente o quanto a paz dele valia, agora repara no que esse conto está dizendo, ele não está falando de um santo perfeito, está falando de alguém que quase caiu, que sentiu o desejo, que disse sim que chegou com a espada na mão, a pureza dele não foi nunca ter tremido, foi conseguir parar a tempo, foi ouvir aquele gemido e reconhecer, no meio do erro que dava pra voltar.
E olha como isso é tão nosso, tão de hoje, a gente vive sendo seduzido a fazer uma coisinha só em troca de algo grande, maquiar um número no trabalho para fechar o trimestre, pisar num colega para subir, ficar calado diante de uma injustiça porque falar custaria caro, e o argumento é sempre o mesmo que os conselheiros usaram, é rápido, todo mundo faz, e olha o tamanho do prêmio, a gente acha que vende um pedacinho pequeno e fica com a coroa, mas o conto avisa, o pedacinho que você vende, é justamente aquilo que faz de você quem você é, e a coroa sem isso, é só metal frio na cabeça de alguém que não se reconhece mais no espelho, o mais bonito é que ele te dá uma esperança também, mesmo que você já tenha dito sim, mesmo que já esteja de espada na mão, ainda dá pra parar, ainda dá pra ouvir o gemido e baixar a lamina, aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa situação em que estão te empurrando pra um sim que pesa no estômago com a promessa de alguma recompensa boa, e, antes de assinar, antes de erguer a espada, faz uma pausa de um mim e pergunta, o que exatamente eu estaria entregando de mim em troca disso, se a resposta for algo de que você se envergonharia diante de quem te ama, baixa a lamina, nenhuma coroa do mundo vale a paz de poder se olhar no espelho amanhã.