Os gansos ruivos e o corvo invejoso da beleza

Budismo · Temporada 17 · Episódio 8 de 12 — em ordem cronológica

Imagina você vivendo de restos, quando avista dois seres de penas cor de fogo. A inveja morde: 'Por que eles, e não eu?'

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Transcrição

Imagina que você vive de comer lixo, de bicar restos, de catar sobras no esgoto da cidade, e um dia você avista, lá longe, a beira de um rio limpo, duas criaturas de penas cor de fogo, calmas, lindas, brilhando ao sol, e em vez de admirar, uma fisgada amarga te morde por dentro. Porque eles, e não eu, o que você faria com essa fisgada? Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, mas estava no longo caminho de se tornar um. Nessas vidas ele aparece às vezes como rei, às vezes como sábio, às vezes como animal. E aqui, repara, ele aparece como um par de gansos ruivos, daqueles que os antigos chamavam de cacavaca, os pássaros cor de cobre que vivem em casal e quase nunca se separam.

A história começa numa cidade movimentada, dessas cheias de gente e de fumaça e de barulho, e nessa cidade morava um corvo, um corvo comum, preto, esperto, daqueles que sabem exatamente onde encontrar comida, e não faltava comida pra ele. Tinha peixe jogado fora no mercado, tinha carne estragada, tinha o que sobrava das casas, tinha doce caído no chão das festas, o corvo comia de tudo, comia o tempo todo, comia até não querer mais. Pela barriga era um corvo de sorte, um dia ele desceu pra beber água num rio largo, de águas claras, longe da poeira da cidade. E foi ali que os viu, dois gansos ruivos, pousados na margem, o macho e a fêmea, lado a lado, como sempre andavam.

As penas deles tinham acordo em tardecer, um vermelho dourado que parecia guardar luz por dentro. Eles se moviam devagar, sem pressa, sem ganância, bicavam aqui e ali, brincavam na água, voavam um pequeno trecho e voltavam pra perto um do outro, e o corpo deles inteiro parecia em paz. O corvo ficou olhando e começou aquela fisgada. Sabe a fisgada da inveja? Não é raiva exatamente, é um aperto, é um isso devia ser meu. O corvo olhou pras próprias penas, pretas e sem brilho, e olhou pra aquele vermelho luminoso e pensou, o que será que esses dois comem pra ficarem tão lindos assim? Deve ser comida de rei, deve ser carne fina, fruta doce, manjar de palácio, se eu comer o que eles comem, eu também fico assim, e o corvo, que não era de ter vergonha, chegou perto e perguntou, falou com toda a inveja na boca, mas embrulhada em elogio, do jeito que a inveja sempre faz.

Vocês são tão bonitos, tão vistosos, com essas penas cor de fogo, eu sou preto, feio, sem graça nenhuma, me conta, qual é o segredo, o que vocês andam comendo pra terem essa beleza toda? O Ganso Ruivo, o Bodhisatta, olhou pro corvo com calma, sem desprezo, mas também sem mentir pra agradar, e respondeu mais ou menos assim, amigo, eu como que o lago me dá, brotos tenros, plantas da água, sementes que o rio traz, aqui mesmo, neste lugar limpo e quieto. Eu não disputo comida com ninguém, não brigo, não roubo, não vivo em sobressalto, e você me diz, do que você se alimenta, e o corvo, sem perceber a armadilha da própria pergunta, contou, contou todo orgulhoso.

Ah, eu como das coisas boas da cidade, como carne, como peixe, como doce, como o que sobra das festas dos homens, eu nunca passo fome, viu? Eu como melhor do que você, isso é certo, o Ganso então falou aquilo que é o coração do conto. Disse, com gentileza, repara só, você come comida farta, comida gorda, comida que muitos envejariam, e mesmo assim você é preto e teimoso e cheio de aflição. Eu como pouco, como simples, como o que o lago oferece sem briga, e olha minha cor. Não é a comida que te faz bonito, corvo, é como você vive. Você vive de roubar, de espreitar, de brigar pela sobra alheia, sempre alerta, sempre com medo de perder, sempre carregando dentro do peito uma cobiça que não descansa, é isso que escurece as suas penas, a inveja, o medo, a ganância, quem vive em paz, comendo o pouco que basta, sem disputar nada com ninguém, esse fica leve, e a leveza aparece por fora e o corvo ficou sem resposta, porque no fundo ele sabia, ele tinha o estômago cheio e o coração apertado, tinha a fartura toda do mundo e nenhuma serenidade, e os gansos, com a comida mais simples que existe, tinham aquilo que ele nunca tinha conseguido, a tranquilidade que se vê de fora, agora, repara no que esse conto está dizendo pra gente, hoje, neste exato momento, a gente vive cercado de corvos, e, sendo honesto, a gente é o corvo com muita frequência, a gente passa o dia olhando a vida dos outros, só que numa tela, a gente vê as penas cor de fogo do vizinho, a viagem do conhecido, a casa do colega, o corpo, a roupa, o sucesso, o jantar bonito de alguém que a gente nem conhece direito, e vem afizgada.

Por que ele, e não eu? O que será que essa pessoa tem que eu não tenho? Onde eu compro isso, como eu como isso? E a gente faz exatamente o que o corvo fez, pensa que é uma questão de consumir o certo, de ter a coisa certa, comer a comida certa, comprar o atalho certo pra ficar igualmente iluminoso. A gente acha que a serenidade do outro vem do que ele tem, e quase nunca a gente para pra perguntar como aquela pessoa vive por dentro, ou se ela está em paz de verdade, ou se está tão apertada quanto a gente. O conto é direto, sem rodeio, não é a fartura que te dá a beleza da paz. É a maneira de viver.

O corvo tinha mais comida que o ganso, e era infeliz, porque carregava cobiça. Aqui o budismo dá um nome pra essa virtude que falta. O contentamento, o santosa, o saber que o que basta já basta, e dá nome também pro veneno do corvo. A inveja, quem palia é isso, esse fogo frio que queima quem sente, não quem é invejado. A inveja não pinta as penas de ninguém de vermelho, ela só escurece as suas. E tem uma coisa bonita nesse detalhe dos gansos andarem sempre em par, sem disputa, sem ciúme, repartindo o mesmo lago. É a imagem do oposto da inveja, a vida que não precisa tirar do outro pra se sentir inteira.

Aqui vai uma coisa pra hoje. Hoje, quando bater aquela fisgada, a inveja disfarçada de admiração, aquele porquê ele e não eu, faz a pergunta do ganso ruivo. Em vez de perguntar o que essa pessoa tem que eu quero ter, pergunta, como eu estou vivendo por dentro, neste momento. E aí escolhe uma coisa pequena, hoje, que seja a sua plantinha de lago, um prato simples comido com calma, um tempo curto sem a tela na mão, um agradecimento sincero pelo pouco que já é seu. Não pra ficar bonito por fora, mas porque é assim, vivendo leve e sem disputar a sobra dos outros, que a cor da paz aparece.

E essa, ao contrário das penas, é a única beleza que ninguém consegue te tirar.