A castidade testada e a firmeza do jovem asceta

Budismo · Temporada 17 · Episódio 9 de 12 — em ordem cronológica

Um desejo invencível te puxa, o corpo inteiro responde. Mas e se a verdadeira força não fosse resistir, e sim observar a onda passar?

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Transcrição

Imagina um jovem que cresceu sozinho na floresta, sem nunca ter visto uma mulher na vida. Um dia, alguém aparece e jura pra ele que existe uma criatura linda, perfumada com a voz mais doce do mundo, e que essa criatura quer arrastá-lo de volta pro meio das pessoas. O que segura esse rapaz na floresta? O que faz ele ficar de pé quando tudo nele quer correr? A resposta a essa pergunta nesse conto é a diferença entre uma vida inteira de paz e uma vida inteira de arrependimento. Deixa eu te contar. Esse é um dos de atacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, mas estava no longo caminho de se tornar um.

A gente chama esse ser de Bodhisatta, o futuro desperto, e ele aparece nessas histórias às vezes como um animal, às vezes como um rei, e às vezes, como agora, como um jovem que carrega no peito uma firmeza que ainda vai surpreender muita gente. Conta a história que num tempo antigo viviam a seta nas montanhas, longe de tudo. Era um homem sério daqueles que largaram a cidade o dinheiro e o barulho pra viver de raízes, frutas e silêncio, e esse a seta tinha um filho. O menino nasceu ali mesmo, no eremitério, e foi criado entre as árvores. A mãe não estava mais por perto, e o pai resolveu criar o garoto do jeito que ele acreditava ser o mais limpo, sem nunca deixá-lo descer até Aldeia, sem nunca deixá-lo conhecer os prazeres do mundo.

O rapaz cresceu assim, aprendeu a meditar, a recolher água, a acender fogo, a recitar os ensinamentos, e nunca, em toda a vida dele, tinha postos olhos numa mulher, não sabia sequer que tal coisa existia. Esse rapaz era o Bo de Sata. Acontece que o pai, de vez em quando, precisava descer pra buscar sal, vinagre, umas coisas que a floresta não dava, e numa dessas viagens, ele demorou. O céu fechou, choveu sem parar, os caminhos viraram lama, e o velho Aceta ficou preso na aldeia esperando o tempo abrir. Lá em cima, sozinho no eremitério, o filho começou a cuidar de tudo. O fogo, as oferendas, o pomar pequeno que mantinham.

E foi nesse intervalo, com o pai longe, que o teste chegou. Apareceu uma mulher. Uma mulher da cidade, esperta, dessas que conhecem o jogo do desejo melhor do que ninguém. Ela tinha ouvido falar do jovem criado na floresta puro, sem malícia nenhuma, e quis ver se conseguia desviá-lo do caminho. Subiu até o eremitério vestida, não como Aceta, mas com roupas leves, perfumes, gestos calculados. E quando o rapaz a viu, ele não sabia o que era aquilo. Não tinha nome pra aquela criatura. Perguntou, com a inocência de quem nunca foi tocado pela cobiça. O que é você? Que fruto come? Que árvore te deu sombra? E ela foi tecendo a teia.

Dizia coisas doces, oferecia carinho, descrevia um mundo de delícias que ele nunca tinha imaginado. Encostava, sorria, prometia. O corpo do rapaz, que era jovem e vivo, começou a responder. Ele sentiu pela primeira vez aquela onda quente subindo, aquele puxão que parecia vir de dentro dos ossos. E por um momento, a história quase virou outra, ele quase foi. Mas então o pai voltou. Subiu a montanha exausto, com o saco de sal nas costas, e encontrou o filho diferente. Abatido, distraído, sem vontade de fazer as tarefas, olhando pro caminho da aldeia como quem perdeu alguma coisa. O velho perguntou o que tinha acontecido, e o rapaz, sem saber mentir, contou.

Falou da criatura linda, do perfume e da promessa, do calor que tinha sentido. E perguntou ao pai se podia descer atrás daquilo. O pai, então, não gritou, não condenou, não amaldiçoou a mulher. Ele fez o que o mestre verdadeiro faz, mostrou ao filho o que estava em jogo. Explicou com calma o que era o desejo dos sentidos. Disse que aquilo que parecia mel por fora era armadilha por dentro, que o prazer prometido durava um instante e cobrava o resto da vida. Que quem larga o caminho pra correr atrás de uma sombra perfumada acaba atingido por ela como um pano barato é atingido de açafrão, e que essa tinta, o ali de raga, a cor do açafrão, desbota rápido, esmaece, escorre na primeira chuva, não fixa em nada.

O desejo, disse o pai, é exatamente assim. Pega forte, colore tudo, e depois some, te deixando mais vazio do que antes. O rapaz escutou e reparou no que sentia. Viu que aquele puxão já estava esmaecendo, que o que parecia o fim do mundo era só uma onda passando, e ele ficou. Voltou pro fogo, pra água, pro silêncio. Manteve a firmeza, a castidade do espírito, não por medo, mas por quem enxergou com clareza o que cada caminho daria de fruto. Diz o conto que ele seguiu reto, e que essa reta o levou longe, muito longe, no caminho do despertar. Agora, repara no que esse conto está dizendo.

Não é sobre proibir o prazer, nem sobre fingir que a gente não sente desejo. O rapaz sentiu, e bem forte. O ponto é outro, é sobre enxergar a natureza daquilo que nos puxa antes de sair correndo atrás. E olha como isso fala com a gente hoje. A gente vive cercado de coisas tingidas de açafrão. A propaganda promete que aquele produto vai te completar. O aplicativo promete que a próxima rolagem traz a alegria. A mensagem promete que a próxima conquista, a próxima compra, a próxima pessoa, finalmente vai preencher o buraco. E a gente corre. Tinge a vida inteira com essa cor que some no dia seguinte, e acorda mais vazio, já correndo atrás da próxima tinta.

A castidade desse conto no fundo é a liberdade de não ser arrastado. É conseguir olhar para coisa linda e perfumada e perguntar, antes de tudo, isso vai fixar ou vai desbotar. Aqui vai uma coisa para hoje. Da próxima vez que bater aquela vontade urgente, aquela que diz que você precisa ter isso agora, faz o que o rapaz aprendeu a fazer, para e espera a onda passar. Não decide nada por cinco min. Senta com o desejo, observa ele subir, observa ele apertar, e observa ele, sozinho, começar a esmaisser, porque ele vai esmaisser, e quando passar, você vai ver com mais clareza o que era mel de verdade e o que era só a safrão escorrendo na chuva.