Imagina um ciúme tão grande, tão sem fundo, que o sujeito não confia nem no ar que a mulher respira. Aí ele resolve a coisa do jeito mais radical que existe, encolhe a esposa com magia, guarda ela dentro de uma caixinha, engole a caixa e a carrega dentro da própria barriga, pra onde ele for, ela vai, trancada não num quarto, não numa torre, mas dentro do corpo dele. E mesmo assim, mesmo assim, ela deu um jeito de traí-lo. A pergunta que esse conto deixa no ar é assustadora de tão simples. Se nem dentro da barriga de alguém você prende uma pessoa, o que será que prende mesmo? Deixa eu te contar.
Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava no longo caminho de se tornar Buda, nascendo hora como gente, hora como bicho. Nessa história ele veio ao mundo como um acet, um eremita retirado na floresta, daqueles que se sentam quietos e enxergam longe. Conta-se que havia, naquele tempo, um ser poderoso e temível, uma espécie de demônio que vagava pelos ermos. E esse demônio, num desses passeios, encontrou uma mulher de uma beleza fora do comum. Tomou ela pra si, fez dela sua esposa, e se apaixonou de um jeito do entio. Pegou um ciúme que não cabia no peito, e aí começou o tormento dele.
Porque o ciúmento, repara, não tem sossego. Em vez de ver companhia na esposa, via ameaça, pensava, e si, enquanto eu durmo, alguém chega perto dela, e se ela me deixar. O medo de perder envenenava cada instante a dois. Então ele teve uma ideia que só um ciúme cego poderia inventar. Por artes mágicas, encolheu a esposa, fez dela uma coisa pequenina, e a colocou dentro de uma caixa, uma caixinha que ele engolia. Guardava a mulher dentro do próprio estômago, no lugar mais escondido e mais bem vigiado do mundo. Quando queria a companhia dela, abria a boca, tirava a caixa, soltava a esposa, e depois engolia tudo de novo.
Agora, ele pensava, satisfeito, ninguém vai chegar perto dela, ela é só minha, está dentro de mim. Achava que tinha encontrado a fórmula perfeita da posse, onde já se viu prisão mais segura que a própria barriga do dono. Mas a vida, como sempre, acha fresta, sempre acha, um dia o demônio parou pra descansar a beira de uma água, sentiu vontade de ver a esposa, tirou a caixa, abriu, soltou a moça. E enquanto ele cochilava ali do lado, confiante de que estava tudo sob controle, aconteceu o que ele jamais imaginou. Acontece que havia, escondido naquele caminho, um outro homem. Um jovem esperto e bonito que, de longe, foi se aproximando sem fazer barulho.
A esposa do demônio o viu, e os dois num lampejo se entenderam. Quando o demônio acordou e foi guardar a esposa de novo na caixa, ela entrou levando o amante junto, escondido com ela. O demônio engoliu a caixa sem desconfiar de nada, e saiu andando, carregando dentro da barriga não só a esposa que ele tanto guardava, mas também o homem com quem ela o traía. A traição viajava dentro dele. Mais perto, impossível, foi quando o demônio passou diante da cabana do nosso acet, o Bodhisatta, e o Eremita, com aquele olhar de quem vê o que está por baixo das aparências, percebeu na hora. Olhou para o demônio e disse, com toda a calma do mundo, você carrega três dentro do seu corpo, você, sua esposa, e um terceiro que você nem sabe que está aí.
O demônio levou um susto e mandou a esposa sair da caixa. E junto com ela, descoberto, apareceu o amante. O demônio ficou aterrorizado e arrasado ao mesmo tempo, tinha encolido a mulher, engolido a mulher, vigiado cada respiração dela, e, ainda assim, dentro da própria prisão de carne, ela tinha achado o jeito de fazer o que queria. O acet então lhe falou, sem dureza, só com a verdade, não aguarda no mundo que segure o coração de quem não quer ser guardado, você pode prender o corpo onde quiser. O coração escapa por onde ele decidir, e o demônio, diante daquilo, sentiu-se o minteiro se desmanchar.
Entendeu que tinha passado a vida tentando impossível. Largou a obsessão e seguiu mais leve, curado daquela febre que nunca o deixava em paz. Agora, repara no que esse conto está dizendo, porque ele é bem mais fino do que parece. A gente, hoje, sorrida a ideia de engolir uma pessoa numa caixa. Mas será que somos tão diferentes assim? A gente vive um tempo apaixonado por controle. Quem ama quer saber onde o outro está a cada minuto. Liga o compartilhamento de localização, confere a hora em que a mensagem foi lida, repara em quem curtiu o quê, monta um cerco fininho de vigilância em volta de quem ama, e chama isso de cuidado.
Mas no fundo é a mesma caixa do demônio, só que digital. É a mesma fome de garantir, pela força, uma coisa que pela força não se garante. E o conto antigo sussurra a verdade que a gente tema e não ouvir. O controle não produz fidelidade, ele produz prisioneiros. E prisioneiro, mais cedo ou mais tarde, procura a fresta. O afeto que precisa de grade para existir já não é afeto, é apenas medo de perder. E o medo nunca prende ninguém, só envenena quem sente. O budismo aponta para outro lugar. O ciúme nasce do apego, daquela ilusão de que a gente pode possuir uma pessoa como se possui um objeto.
E todo apego vem com sofrimento de brinde. O demônio sofria não apesar do amor dele, mas por causa do jeito dele de amar, agarrado, possessivo, faminto. O oposto disso não é amar menos, é amar com as mãos abertas, é a meta, o amor que deseja o bem do outro sem querer aprisioná-lo. Aqui vai uma coisa para hoje, pensa numa relação da sua vida em que você anda apertando demais a mão fechada. Pode ser com quem você ama, com um filho, com um amigo, aquele impulso de checar, de conferir, de garantir que a pessoa é sua. E experimenta hoje, abrir um dedo dessa mão. Em vez de olhar onde o outro está, pergunta como ele está.
Em vez de erguer mais uma parede de controle, oferece um pouco de confiança, porque ninguém fica de verdade por estar preso, as pessoas ficam por escolha. E a única forma de saber se alguém te escolhe é, justamente, deixar a porta aberta.