Imagina que um predador faminto descobre o teu ponto fraco. Ele percebe exatamente o que você adora, o que te faz baixar a guarda e monta a armadilha em cima disso. A isca é justamente aquilo que você mais deseja. Você vai cair? A resposta a essa pergunta nesse conto separa quem volta pra casa inteira de quem vira o jantar de alguém. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, atravessando vida após vida, hora como homem, hora como animal, sempre aprendendo e ensinando alguma virtude pelo caminho. E nessa aqui, repara, ele aparece de um jeito que talvez te surpreenda.
A história se passa numa região de mato fechado, perto de uma aldeia tranquila. Vivi ali um chacal, um bicho esperto, de olho miúdo e fome grande. Esse chacal tinha um nome que na língua antiga, soa como putimança, e o nome já diz muita coisa, quer dizer algo como carne podre, carniça, pois era exatamente isso que ele cheirava de longe e do que vivia, carniça quando dava e bicho fresco quando conseguia enganar alguém. E o chacal tinha uma companheira, uma chacala, esposa dele, sempre faminta, sempre cobrando, traz comida, ela dizia, traz comida boa, dessas de morder e sentir o sangue quente.
O chacal vivia sob essa pressão, e por isso andava o tempo todo bolando o esquema, acontece que perto dali, num pasto cercado pela aldeia, viviam várias cabras, e entre elas havia uma cabra diferente, uma cabra de olhar calmo, de passo medido, que não saía correndo a toa nem se assustava com qualquer barulho. Essa cabra era o Bodhisatta, o futuro Buda, nascido naquela vida na forma humilde de um bicho de rebanho, mas mesmo sendo uma cabra, carregava dentro de si uma coisa rara, presença de espírito, aquela calma que não é indiferença e sim atenção, a capacidade de olhar para uma situação e enxergar o que está realmente acontecendo, por baixo da aparência.
O chacal botou o olho nessa cabra, ali pensou ele, ali tem carne de sobra, vou levar para minha esposa, mas a cabra não era boba, e o chacal logo percebeu que no peito, na força bruta, ele não venceria, cabra tem chifre, tem coice, e essa em especial andava sempre desperta, então o chacal fez o que predador esperto faz, trocou a força pela astúcia, trocou o ataque pela conversa macia, um dia, ele se aproximou bem devagar, com a voz mais doce que conseguiu fingir, querida amiga, disse o chacal, que bom te encontrar, sabe, eu fiquei pensando em você esses dias, você vive aí sozinha, sem companhia de verdade, e eu também ando muito só, por que a gente não se torna amigo, amigos de verdade, da queles que se visitam, que comem juntos, que se cuidam, a cabra olhou pra ele, não respondeu de imediato, e nesse silêncio dela já mora o conto inteiro, porque a cabra não se deixou levar pela palavra bonita, ela reparou, porque um chacal, que come carne, que vive de bicho morto, ia de repente querer a amizade de uma cabra, o que ele ganha com isso, onde está o anzol escondido nessa isca tão doce, então a cabra respondeu, também com gentileza, mais firme, amigo chacal, eu agradeço o convite, mas me diz uma coisa, a amizade verdadeira nasce de que, nasce da semelhança, do cuidado de quem não quer te fazer mal, e eu te conheço, conheço o teu apetite, conheço a tua fome, a tua boca quer ser minha amiga, mas o teu estômago quer outra coisa, eu prefiro ficar onde estou, o chacal não desistiu, voltou outras vezes, tentou de tudo, hora bancava o coitado, hora prometia proteção, hora jurava que tinha mudado de vida e que agora só comia capim e raiz como ela, em uma das tentativas ele até combinou com a esposa, a chacala se faria de morta no caminho, para a cabra, de coração mole, se aproximar para ajudar, e aí os dois cairiam em cima, mas a cabra atenta, reparou no peito da chacala subindo e descendo, morto não respira, e ela se afastou tranquila, sem pânico, sem dar bandeira, apenas dizendo de longe, que pena, sua esposa parece estar passando muito mal, melhor eu chamar gente da aldeia, e o plano ruiu sozinho, vez após vez o chacal armava, e vez após vez a cabra escapava, não porque corria mais rápido, nem porque era mais forte, mas porque enxergava, ela não se deixava embriagar nem pela lisonja, nem pela pena, nem pelo medo, mantinha a mente clara o bastante para perguntar, em cada situação, o que está realmente acontecendo aqui, os fatos batem com o que estão me dizendo, e, no fim, foi o chacal que se deu mal com suas próprias tramas, enquanto a cabra seguia viva, passando em paz, agora, repara no que esse conto está dizendo, a cabra não venceu o chacal com violência, venceu com lucidez, com aquilo que na tradição se chama satí, a tensão plena, mente desperta, ela não era ingênua a ponto de acreditar em qualquer voz doce, nem era paranoica a ponto de sair correndo de tudo, ela ficava no meio, calma, e atenta ao mesmo tempo, e olha como isso fala com a gente hoje, nós vivemos cercados de chacais de palavra doce, não com focinho e pelo, mas com tela e som, o anúncio que sabe exatamente o que você deseja e oferece justo isso, a mensagem urgente dizendo que você precisa clicar agora, comprar agora, decidir agora, a pessoa que te elogia de mais bem na hora em que vai te pedir alguma coisa, o esquema fácil demais para ser verdade, tudo isso é o chacal se aproximando com voz macia, montando armadilha em cima daquilo que você mais quer ouvir, e o nosso problema é que a gente anda distraído, a gente decide no automático, compressa com a guarda baixa, sem fazer a pergunta simples que a cabra fazia, a gente engole a isca antes de reparar no anzol, não por falta de inteligência, mas por falta de presença, porque parar para olhar exige um instante de silêncio que a gente quase nunca se dá, aqui vai uma coisa para hoje, da próxima vez que algo aparecer na sua frente bom demais, doce demais, urgente demais, faz como a cabra, não saia correndo, mas também não engula na hora, respira uma vez, e pergunta, por dentro com toda calma, quem está me dizendo isso, e o que essa pessoa ganha se eu acreditar, os fatos batem com a aparência, esse instante de atenção, esse pequeno silêncio antes do sim, é o que separa quem volta para casa inteiro de quem vira o jantar de alguém.