A árvore e o urso: a inimizade que destrói os dois

Budismo · Temporada 21 · Episódio 2 de 4 — em ordem cronológica

Você já segurou uma brasa para jogá-la em alguém? O budismo é claro: a primeira mão a queimar é sempre a sua.

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Transcrição

Imagina dois seres que viviam um do lado do outro, em paz, e que tinham tudo pra continuar assim pra sempre, uma árvore enorme, firme e um urso que dormia sombra dela. E agora imagina que, por causa de um vento, de um galho que caiu na cabeça do urso num dia ruim, os dois passaram a se odiar. Você consegue ver o quanto desse ódio nasceu de quase nada, e a pergunta que fica é, quando duas criaturas decidem se destruir mutuamente, quem é que sai vivo dessa? Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, e estava ali, vida após vida, aprendendo a ser.

Às vezes ele aparecia como rei, às vezes como sábio, às vezes como animal na floresta. Nesse conto ele aparece de um jeito que talvez te surpreenda, como o espírito de uma árvore, uma divindade que morava numa grande árvore fandana, lá no meio da mata, observando tudo com a calma de quem está ali há muito tempo e já viu muita coisa, a história começa simples, tinha uma árvore fandana alta e bonita, daquelas de madeira dura e nobre, e debaixo dela ou perto dela, vivia um urso, os dois dividiam o mesmo pedaço de floresta sem grandes problemas, até que num certo dia o vento soprou mais forte e um galho seco se desprendeu lá do alto e caiu bem na cabeça do urso, foi só isso, um galho, um acidente dessas coisas que a floresta faz sem maldade nenhuma, mas o urso com a cabeça doendo não enxergou um acidente, enxergou um inimigo, essa árvore me atacou, pensou ele esfregando a pata na cabeça dolorida, ela fez isso de propósito, e ali naquele instante pequeno plantou-se uma raiz de ódio que ia crescer e crescer, o urso passou a olhar para a árvore com rancor, já não dormia em paz a sombra dela, toda vez que olhava para cima, lembrava da dor, e a dor virava raiva, e a raiva virava um plano, eu vou me vingar dessa árvore, eu vou fazer ela ser derrubada, nem que seja a última coisa que eu faça, acontece que mais ou menos na mesma época, um carpinteiro entrou na floresta, ele andava à procura de uma boa madeira, dura e reta, para construir uma roda de carroça, reparava nas árvores, batia no tronco, media com os olhos, e o urso viu nele a sua chance, chegou perto do homem, vingindo-se de amigo, e disse "ei, você está procurando madeira boa, eu sei exatamente qual árvore serve pra você, tenho uma fandana ali adiante a madeira mais firme dessa floresta toda, vem comigo eu te mostro, é perfeita pra sua roda, o carpinteiro mal podia acreditar na sorte, um urso que falava e que ainda por cima indicava a melhor árvore, foi atrás, e enquanto caminhavam o homem, esperto que era, fez uma pergunta inocente, mas me diz uma coisa, como é que eu sei que essa madeira é mesmo tão dura, e o cabo do meu machado ele é fraco, será que aguenta cortar uma árvore dessas, e o urso, cego de ódio, cavou a própria cova com a própria boca, ah isso é fácil de resolver", respondeu, "eu sei onde tem o couro mais resistente da floresta pra você forrar o cabo do seu machado, tem um urso por aqui, com uma pele grossa e forte, mata ele, tira o couro, e seu machado vai cortar qualquer coisa", ele estava tão tomado pela vontade de derrubar a árvore que entregou a si mesmo sem perceber, foi nesse momento que o espírito da árvore, o Bodhisatta, falou, a divindade que morava na Fandana tinha escutado tudo, e em vez de responder com medo ou com mais ódio, respondeu com uma serenidade que dizia muito, olhou pro carpinteiro e disse mais ou menos assim, olha que coisa, esse urso veio até você cheio de ódio de mim, querendo a minha morte, e, na ânsia de me destruir, acabou de entregar a própria pele, repara como o ódio funciona, ele não enxerga mais nada, nem a si mesmo, o carpinteiro entendeu o jogo, e o desfecho do conto é duro, como a vida às vezes é, ele matou o urso pra forrar o cabo do machado, e depois derrubou a árvore com o machado reforçado, os dois inimigos caíram, a árvore e o urso, a inimisade que cada um alimentou não poupou nenhum dos dois, o ódio que devia destruir o outro acabou destruindo os dois juntos, agora repara no que esse conto está dizendo, com aquela honestidade que dói um pouco, o urso não morreu por causa do galho, o galho foi só um acidente, o urso morreu por causa do que ele fez com o galho dentro da própria cabeça, ele pegou uma dor passageira e transformou numa identidade, eu sou aquele que foi atacado, e eu existo pra me vingar, e o veneno que ele preparou pro outro foi o mesmo veneno que correu nas veias dele, a gente vive isso o tempo todo, só que em escala menor e mais educada, alguém te responde mal numa mensagem, alguém te fecha no trânsito, um colega leva o crédito de um trabalho seu, coisas que no fundo são galhos caindo, e a gente faz o que o urso fez, guarda, remói, conta a história de novo e de novo pra si mesmo, alimentando a raiva até ela virar um projeto, eu vou mostrar pra essa pessoa, e aí passamos dias, semanas, às vezes anos, carregando um machado mental contra alguém que talvez nem lembre mais do galho que deixou cair, o budismo tem um nome pra raiz disso, e é a versão, a dosa, esse fogo que parece nos proteger e na verdade nos consome por dentro, tem aquela imagem antiga, segurar o rancor é como segurar uma brasa pra jogar no outro, quem se queima primeiro e mais é a mão que segura, o urso segurou a brasa o tempo todo, e quando finalmente ia jogá-la, ela já tinha queimado tudo, a nossa época é especialista em alimentar urso, as redes vivem da indignação, da resposta afiada, do revídeo imediato, a gente é treinado a reagir a não deixar barato, a defender o próprio território com unhas e dentes, e quase ninguém pra pra perguntar o que o carpinteiro perguntou sem querer, nessa minha vontade de derrubar o outro, o que é que eu estou entregando de mim mesmo, quanta paz, quanto sono, quanta pele eu estou descascando de mim pra forrar o machado que vou usar contra alguém, aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa pessoa contra quem você está, nesse exato momento, segurando uma brasa, pode ser uma raiva grande ou uma irritaçãozinha teimosa, e faz só uma pergunta, com calma, qual foi o galho, volta lá no começo e olha de novo pra coisa que disparou tudo, quase sempre você vai ver que era menor do que a montanha de raiva que você construiu em cima, não precisa virar amigo do urso da sua vida hoje, só precisa por um instante abrir a mão e soltar a brasa antes que ela termine de queimar a sua própria pele, porque na inimissade, como nesse conto, não costuma sobrar vencedor, costuma cair a árvore e cair o urso, os dois juntos.