Imagina que você aprendeu uma coisa rara, uma habilidade que ninguém mais na cidade inteira tem. E tudo o que pediram em troca foi uma promessa pequena. Nunca esconda de onde isso veio. Só isso. E aí, um dia, no momento errado, diante das pessoas erradas, você sente vergonha de dizer a verdade. Vale a pena mentir para parecer mais importante? Nesse conto, essa pequena mentira não custa só a reputação. Ela apaga, num piscar de olhos, o dom mais valioso que um homem tinha. Deixe-o te contar. Esse é um dos de atacas. Os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, e estava percorrendo, vida após vida, o longo caminho de se tornar um desperto.
Nesses contos ele aparece às vezes como rei, às vezes como bicho, às vezes como um jovem simples que vai aprender, na pele, uma lição que carrega para sempre. Aqui, ele aparece justamente assim, como um rapaz pobre que tinha tudo para dar certo e que tropeçou feio antes de aprender. A história começa numa grande cidade onde vivia um jovem brâmane, filho de família humilde, ele era esperto, trabalhador e tinha um sonho, aprender alguma arte que mudasse a vida dele. Procurando mestre, foi parar num lugar inesperado. Fora dos muros, num casebre simples, morava uma mulher de casta baixa, uma chandala, gente que naquele tempo era olhada de cima pra baixo, evitada, tratada como se valesse menos, mas essa mulher guardava um segredo que reis envejariam, ela conhecia um feitiço, um encantamento que fazia uma mangueira dar frutos fora de época, bastava recitar as palavras certas e a árvore floresce na hora, carregava de mangas doces e maduras a qualquer momento do ano, mesmo no auge do calor seco, mesmo quando nenhuma outra árvore dava nada, o rapaz descobriu isso e quis aprender.
Foi até ela com humildade, serviu, ajudou nas tarefas, conquistou a confiança dela aos poucos. E a mulher, vendo que ele tinha bom coração, resolveu lhe ensinar, mas, antes de passar o feitiço ela olhou nos olhos dele e disse uma coisa que era a alma de todo o ensinamento. Eu te ensino com uma única condição, se algum dia alguém te perguntar quem foi seu mestre, com quem você aprendeu isso você diz a verdade, você diz que aprendeu comigo, achandá-la, se você esconder, se você tiver vergonha de mim e mentir, o feitiço perde a força na mesma hora e nunca mais volta, ele prometeu, de coração prometeu e aprendeu, as palavras entraram nele e a partir dali ele podia, sozinho, fazer qualquer mangueira despejar frutos, vendendo aquelas mangas impossíveis fora de estação, ele começou a juntar dinheiro, a vida melhorou e o nome dele começou a correr.
Foi aí que a fama chegou aos ouvidos do rei, o palácio mandou chamar esse homem que fazia mangas brotarem do nada. Diante do trono, o jovem recitou o feitiço, a árvore do jardim real se cobriu de frutos dourados e o rei, encantado, ficou maravilhado, mangas perfeitas fora de tempo na palma da mão. O rei fez dele um homem de confiança, deu posição, deu honras, de filho de família pobre, ele passou a frequentar o palácio. E então veio a pergunta, o rei curioso perguntou, mas me diga, de quem você aprendeu uma arte tão extraordinária, quem foi seu mestre? Repara num instante, ali, cercado de cortesãos, de gente de casta alta, de toda a pompa do palácio, o rapaz sentiu vergonha, vergonha de dizer que sua mestra era uma mulher pobre, de casta desprezada, que morava num casebre fora dos muros.
Achou que dizer a verdade ia diminuí-lo aos olhos de todos, achou que precisava de uma origem mais nobre para combinar com o lugar onde tinha chegado. E mentiu, disse que tinha aprendido com um mestre famoso, um brâmane respeitado, alguém à altura daquele salão. No mesmo segundo, ele não sentiu nada de diferente. O feitiço tinha ido embora silenciosamente, sem aviso, sem barulho, mas ele não sabia ainda. Pouco depois, o rei pediu de novo a maravilha. Quis ver as mangas brotarem outra vez, na frente de visitas. O homem se aproximou da árvore, levantou a voz, recitou as palavras com toda a confiança, e nada.
A mangueira ficou ali, seca, parada, indiferente. Ele tentou de novo, e o suor escorrendo, a voz tremendo, nada. As palavras tinham virado som vazio, o dom estava morto, o rei, que não era tolo, percebeu o engano e o pressionou, você me mentiu, não foi, esse não foi seu verdadeiro mestre. Encurralado, sem saída, o homem finalmente confessou. Aprendeira com uma chandala, uma mulher pobre, e tinha tido vergonha de admitir. E contou a condição que ela havia posto, e a promessa que havia quebrado. O rei então lhe disse a verdade nua. Um tesouro desses, quem te dá não importa de que casta seja.
A pessoa que te entrega conhecimento é, por isso mesmo, digna de toda a tua gratidão. Mandou que ele voltasse, pedisse perdão à mestra, e implorasse pelo feitiço de novo. O homem foi, mas a mulher, vendo aquele que tiver a vergonha dela, que a negara no momento em que mais devia honrá-la, não pôde mais lidar o que ele jogar a fora. O dom estava perdido, para sempre, agora repara no que esse conto está dizendo. A virtude no centro dele tem dois nomes que andam juntos. Tem a verdade, a saca, a palavra que a gente honra mesmo quando custa caro. E tem a gratidão pelo mestre, o reconhecer de onde a gente veio, sem vergonha, sem maquiar a origem.
O que destruiu o homem não foi a pobreza dele nem a casta da mulher. Foi o orgulho, somado a uma mentira pequena, dita para parecer mais do que era diante dos outros. E como isso parece com a gente hoje? A gente vive num tempo que ensina a editar a própria história. A gente arruma o currículo, inflá um pouco aqui, esconde dali, aprende a citar a fonte chique e esquecer convenientemente a humilde. Quantas vezes a gente recebeu ajuda de alguém que o mundo acharia pequeno demais, alguém sem título, sem prestígio e depois, na hora de contar, deixou esse nome de fora. A gente troca a verdade por uma imagem e o conto avisa, com toda a gentileza.
O dom que veio por uma porta humilde vai embora pela porta do orgulho. Quando você nega quem te ensinou, alguma coisa em você seca por dentro do mesmo jeito que aquela mangueira. Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa em uma habilidade que você tem, qualquer uma, e em quem te ensinou de verdade. Pode ser uma pessoa simples, alguém que o mundo não acharia impressionante. Hoje diga o nome dessa pessoa em voz alta, para alguém com orgulho. Isso eu aprendi com fulano sem editar, sem trocar por uma fonte mais bonita, ou um rar quem te deu o que você sabe não diminui você. É exatamente isso que mantém o seu feitiço vivo.