Imagina que você é o mais veloz da sua espécie, o mais rápido entre todos. E aí um dia o seu rei te pede uma coisa impossível, alcançar o sol, não chegar perto, não correr atrás. Alcançar. O que você faz quando o pedido é grande demais até pra quem é grande. E mais. O que você faz depois, quando descobre que pode fazer aquilo e que isso muda quem você decide ajudar. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, mas estava no longo caminho de se tornar Buda. A gente chama esse ser de Bodhisatta, o futuro desperto.
E nessas histórias ele aparece de muitos jeitos, às vezes como rei, às vezes como sábio e às vezes como nesse conto como um animal. Aqui ele é um ganso, um ganso dourado, líder de um bando enorme que vivia numa caverna numa montanha distante, lá onde o ar é fino e o céu é grande. Esse ganso se chamava Javana, que quer dizer veloz, ligeiro, rápido como pensamento. E ele merecia o nome. Quando o bando levantava voo de manhã, ele era uma faísca dourada cortando o céu. Nenhum outro ganso, nenhuma ave, nenhum vento conseguia acompanhá-lo. Ele voava por puro prazer de voar, sem se gabar, sem competir, do jeito que um peixe nada ou que a água desce à montanha.
Era a natureza dele, e ele a vivia com leveza. Agora naquele tempo reinava em Benares um rei chamado Brarmadata, e esse rei tinha ouvido falar do ganso veloz, o Javana Hansa, e ficou curioso, daquela curiosidade que mistura a admiração com um que de vaidade. Ele mandou caçadores até a montanha, não pra ferir o ganso, mas pra atraí-lo com bondade, com comida boa, com palavras gentis. E assim, aos poucos, o ganso dourado começou a descer até os jardins do palácio e a conversar com o rei. Os dois ficaram amigos. O rei oferecia milho dourado em pratos de ouro, água perfumada, e ouvia o ganso falar de coisas que só quem voa alto consegue ver.
Um dia o rei, conversando, perguntou, "Amigo Javana, dizem que você é o mais veloz de todos os seres alados. É verdade? Existe alguém mais rápido que você?" O ganso respondeu, sem orgulho, só com a honestidade de quem conhece a si mesmo. "O rei, eu conheço uma velocidade maior que a minha. Eu sou rápido, mas a vida que escapa de nós é mais rápida ainda. Cada instante que passa, passa mais ligeiro do que eu jamais voei. É contra isso que ninguém alcança. O rei achou aquilo bonito, mas, sendo o rei, quis uma prova mais concreta da velocidade do ganso." E pediu um desafio. Disse que dois pássaros do palácio, os mais rápidos que ele tinha, deveriam apostar corrida com Javana.
O ganso gentil, aceitou, mas só pra agradar o amigo. E no dia da corrida, ele voou tão devagar quanto pode, deixando os outros à frente pra não humilhar ninguém. Até que num único bater de asas, passou os dois como se eles estivessem parados, deu a volta e voltou. Sem esforço, sem suor, sem alarde. O rei encantado e já um tanto teimoso, lançou então o pedido grande, o pedido impossível. Javana, se você é assim tão veloz, prova de vez. Vou e alcance o sol, saia agora e me traga notícia do nascer ao pôr do dia, mais rápido que a própria luz. Monitra-se do bastariniro, desafiar o sol.
E o ganso, em vez de rir ou de recusar, fez uma coisa que revela muito sobre ele. Ele aceitou, mas com uma condição de companhia, não de competição. Disse, vou tentar ao rei. Mas deixa eu levar comigo dois dos seus pássaros, os tais que correram comigo, pra que você tenha testemunhas, e partiram os três ao raiar do dia, rumo ao oriente, atrás do sol que subia. Os dois pássaros do rei bateram asas com toda a força que tinham. Por um tempo curto, voaram bonito, mas o sol sobe rápido, o céu não tem fim. E logo o primeiro pássaro caiu exausto, o coração quase estourando e despencou.
Javana, vendo aquilo, não seguiu adiante deixando o companheiro pra trás. Ele mergulhou, segurou o pássaro caído sobre as próprias asas, e o levou de volta a salvo. Depois subiu de novo. O segundo pássaro também fraquejou, e de novo o ganso desceu, resgatou, salvou. E aqui está o coração do conto. Javana podia, sozinho, alcançar o sol. Ele era veloz o bastante pra isso, mas escolheu, no meio do desafio mais grandioso da vida dele, voltar pra carregar quem não dava conta. Ele trocou a glória de chegar primeiro pela bondade de não deixar ninguém pra trás. E mesmo assim, depois de salvar os dois, num lampejo de pura velocidade, ele ainda deu uma volta no mundo e voltou ao palácio antes do sol se pôr.
Só pra mostrar ao rei que sim, era possível. Mas o que ele quis ensinar não foi a velocidade, foi outra coisa. Porque de volta ao palácio, o rei o cobriu de elogios pela rapidez, e o ganso gentil corrigiu o amigo. Diz-se que a velocidade do corpo não é a verdadeira velocidade. A verdadeira corrida é contra a impaciência, contra a cobiça, contra a pressa que faz a gente abandonar os outros pra chegar primeiro. E que a coisa mais rápida e mais perigosa que existe é a vida escorrendo enquanto a gente a desperdiça correndo atrás de provas e de orgulho. Agora repara no que esse conto está dizendo.
A virtude central aqui não é a força nem o talento do ganso. É a compaixão, a meta, somada a acante, a paciência de quem não se deixa arrastar pela própria capacidade. O ganso era o melhor, e justamente por isso podia ter brilhado sozinho. Mas ele entendeu que ser rápido não vale nada se a gente usa essa rapidez pra deixar os outros caindo do céu atrás de nós. E olha como isso bate exatamente no nosso tempo. A gente vive numa cultura que adora velocidade. Mais rápido, mais cedo, mais produtivo. Quem chega primeiro ganha. A gente mede o dia em tarefas concluídas e celebra quem voa na carreira.
E no meio disso, quantas vezes a gente passa por cima de quem está exausto do lado. O colega que não acompanha, o amigo que ficou pra trás, a pessoa em casa que precisava de cinco min de atenção e a gente disse agora não, estou correndo. A gente confunde ser veloz com ser bom. Mas o ganso de ouro mostra que a coragem maior não é alcançar o sol. É abrir mão de alcançá-lo pra descer e segurar quem está caindo. Aqui vai uma coisa pra hoje. Hoje em algum momento você vai estar correndo na pressa de terminar, de chegar, de provar alguma coisa. Quando isso acontecer, repara se tem alguém ao seu lado ficando pra trás cansado sem conseguir acompanhar.
E, em vez de seguir voando, faz como javana, desce um instante, oferece a sua asa, espera, você não vai perder a corrida que importa. Porque a única velocidade que vale no fim é a velocidade com que a gente aprende a não soltar a mão de ninguém.