O jovem asceta tentado e o conselho do pai

Budismo · Temporada 21 · Episódio 4 de 4 — em ordem cronológica

Um coração puro, nunca testado. O que acontece quando o mundo lá fora chega com perfume, ouro e promessas?

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Transcrição

Imagina um rapaz criado a vida inteira no silêncio de uma floresta sem nunca ter visto uma mulher, sem ter ouvido falar de dinheiro, sem saber o que é uma cidade. E aí, num dia comum, alguém chega de fora trazendo perfume, ouro e promessas. O que acontece com um coração que nunca foi testado quando o teste finalmente bate a porta? A resposta a essa pergunta é, no fundo, a história de todos nós, no momento ou outro da vida. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, quando ele ainda estava caminhando rumo ao despertar, vivendo como Bodhisatta.

E nesse conto ele aparece como um pai, um aceta sábio, que precisa guiar o próprio filho por uma das passagens mais difíceis que existem, vem comigo pra dentro dessa floresta. Havia, muito tempo atrás, um homem que tinha deixado a vida comum pra trás, largou casa, largou negócios, largou tudo o que prende a gente, e foi viver no Himalaia como eremita. Levou consigo um filho ainda pequeno, e ali, no meio das árvores dos riachos e do canto dos pássaros, os dois construíram a vida deles. O pai era o Bodhisatta, o menino que crescia limpo e gentil, foi chamado de Narada, o jovem Narada. Esse menino cresceu sem conhecer o mundo lá de fora.

Ele aprendeu a colher frutas, a meditar, a respeitar cada ser vivo. Ele ficou a se contentar com pouco, a achar beleza numa manhã de neblina, a dormir tranquilo sem nada na mão. O pai o ensinava todo dia. Filho, a paz não está nas coisas que a gente junta, está no que a gente solta, e o menino acreditava nele, porque nunca tinha visto razão pra duvidar. Os dias passavam iguais e bons. Até que, um certo dia, o pai precisou descer da montanha pra buscar sal e vinagre. Essas coisinhas que mesmo um eremita às vezes precisa, e deixou o jovem Narada sozinho na cabana pela primeira vez na vida, por alguns dias, foi justamente nesses dias que uma mulher apareceu na floresta.

Não foi por acaso, repara. Ela tinha sido mandada, ou veio por conta própria, sabendo o que fazia. Era uma mulher das cidades que conhecia os caminhos do desejo como o eremita conhecia os caminhos da floresta. E quando ela viu aquele rapaz puro, criado no isolamento, ela entendeu na hora. Aqui está alguém que nunca foi tentado. Alguém fácil, e ela começou a tecer a teia devagarinho. Chegou com doçura, com voz macia, mostrou ao rapaz coisas que ele nunca tinha visto, falou de prazeres que ele nem sabia que existiam, falou de uma vida cheia, de conforto, de companhia, de tudo aquilo que dito do jeito certo, parece brilhar como ouro de verdade.

E o jovem Narada, que nunca tinha sentido aquilo, ficou abalado. O corpo dele reagiu antes que a mente entendesse, a floresta, que sempre lhe pareceu suficiente, de repente pareceu vazia. A vida simples, que sempre foi paz, de repente pareceu falta. Quando o pai voltou da viagem, encontrou o filho sentado, cabe embaixo, sem força, sem brilho. O menino não meditava mais, não colhia frutas, não cantava, estava consumido por dentro, queimando num fogo que ele nunca tinha conhecido, e o pai, que era sábio, não brigou, não gritou, não envergonhou o filho, não disse que decepção você é, ele sentou perto e perguntou, com calma, filho, o que aconteceu com você? Você está pálido, está sem chão, quem mexeu com o seu coração, e o jovem Narada confessou tudo, falou da mulher, falou do desejo que tomou conta dele, falou que não conseguia mais pensar em outra coisa, que sentia que ia morrer se não tivesse aquilo, e disse, quase implorando, pai, eu acho que vou embora com ela, eu acho que essa vida aqui não é pra mim, foi aí que o pai falou as palavras que dão nome a esse conto, ele não negou o que o filho sentia, ele reconheceu a força do desejo, porque desprezar a dor do outro nunca cura ninguém, mas ele disse, com firmeza e amor, filho, esse fogo que você está sentindo, ele não é a sua casa, ele é uma visita, o desejo chega como dono, mas ele é só passageiro, se você correr atrás dele, ele vai te levar de roda em roda, de falta em falta, a vida inteira, e nunca, nunca vai se dar por satisfeito, porque o desejo não quer ser saciado, ele quer ser obedecido, e o pai contou ao filho o que o desejo realmente faz, como ele promete liberdade e entrega corrente, como ele promete plenitude e entrega vazio, como aquilo que parece água no meio do deserto é, muitas vezes só acede te enganando, ele lembrou ao filho de tudo o que os dois sempre souberam, que a verdadeira paz não vem de conseguir mais, vem de precisar menos, e aos poucos, ouvindo o pai, o jovem narada foi voltando a si, o fogo não morreu de repente, esse tipo de fogo nunca morre de repente, mas ele parou de alimentar a chama, olhou pra dentro, viu que estava prestes a jogar fora, e escolheu ficar, escolheu a paz que tinha em vez da promessa que não tinha, e o coração dele, devagar, voltou pra casa, agora, repara no que esse conto está dizendo, a gente vive num tempo que é exatamente aquela mulher na floresta, o dia inteiro, sem parar, chega alguém te dizendo que falta uma coisa pra sua vida ficar completa, um anúncio, uma tela, uma vitrine, uma notificação, cada uma dizendo, com voz macia, olha o que você não tem, olha como sua vida é pequena, vem comigo que eu te dou o que falta, e a gente, igualzinho ao jovem narada, olha pra própria vida que até então estava boa, e de repente acha que está vazia, mas o conto é honesto, o problema nunca foi a floresta, a floresta sempre foi suficiente, o problema é a voz que veio de fora dizer que não era, o budismo chama isso de tanha, essa sede que nunca se enche, esse desejo que se disfarça de necessidade, e a virtude do pai aqui não é negar o desejo, é enxergar o desejo, é olhar pro fogo e dizer, eu te vejo, mas você não manda em mim, isso é sabedoria, é paciência, é a calma de quem sabe que toda chama, se a gente não soprar, apaga sozinha, aqui vai uma coisa pra hoje, quando bater aquela vontade urgente de ter alguma coisa, aquela sensação de que sua vida vai melhorar de verdade se você só conseguir aquilo, faz o que o pai fez, não brigue com a vontade, mas senta com ela, e pergunta, com calma, isso é uma necessidade minha, ou é uma voz que veio de fora me convencer de que eu estava em falta, espero um dia antes de agir, quase sempre, no dia seguinte você vai descobrir que a sua floresta sempre foi suficiente.