Imagina um homem de barba longa, túnica de casca de árvore, sentado o dia inteiro perto de um pomar, com os olhos meio fechados, como quem está mergulhado na mais profunda meditação. Todo mundo que passa por ali, baixa a voz, junta as mãos, sente um respeito imenso. E se eu te dissesse que esse homem santo é, na verdade, o maior ladrão de mangas da região, a santidade dele tinha horário de funcionamento. De dia, ceta, de noite, gatuno, deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, ainda estava no longo caminho de se tornar Buda.
A gente chama essa figura de Bodhisatta e ele aparece nessas histórias hora como pessoa, hora como bicho. Nessa qui, ele aparece como um sujeito esperto, daqueles que enxergam o que os outros preferem não enxergar. Tinha um pomar real, perto da cidade de Benares, um pomar de mangueiras, dessas carregadas, com frutos pesados, dourados, daqueles que a gente vê e a boca já enche d'água, era propriedade do rei, e a fruta dali ia direto para a mesa do palácio, para cuidar de tudo. O rei tinha escolhido, achava ele, o homem mais confiável do reino, um aceta, um homem que tinha largado a vida comum, que vivia de pouco, que se dizia entregue a vida espiritual.
Quem melhor para guardar minhas mangas do que um homem que não quer nada deste mundo? Pensou o rei. A lógica boa, no papel, só que esse aceta tinha um problema antigo, escondido bem fundo, ele adorava manga, e não só adorava comer, ele tinha um pequeno comércio por baixo do pano. De dia, fazia a cena toda, sentava embaixo de uma árvore, fechava os olhos, deixava o povo passar achando que ali estavam santos elando pelo pomar do rei. De noite, quando ninguém via, ele subia nas árvores, colia as mangas mais bonitas, enxia os cestos e vendia escondido, embolsando o dinheiro. As mangas do rei viravam moeda no bolso do falso devoto.
Agora repara na cara de pau da coisa. Ele não roubava por fome. Ele roubava porque tinha descoberto que a fama de santo era o disfarce perfeito. Ninguém desconfia de quem reza, ninguém revista o homem de túnica. A virtude dele virou capa para esconder o vício. E foi aí que o Bodhisatta entrou na história. Naquela vida, ele era um homem comum de olhar atento dessas pessoas que não engolem aparência fácil. Passando pelo pomar mais de uma vez, ele começou a reparar numa coisa estranha. As mangueiras estavam ficando mais ralas, sumiam frutas. E o tal guardião, sempre tão imóvel, sempre tão piedoso de dia, parecia, no entanto, um homem bem alimentado, bem disposto, com um certo brilho de quem anda fazendo bons negócios.
As contas não fechavam, então o Bodhisatta resolveu observar de verdade. Não acusou de cara, ficou quieto, esperou, voltou em horas diferentes. E numa noite, lá estava o homem santo, sem a pose, trepado numa mangueira, enchendo um cesto às escondidas, os mesmos olhos que de dia fingiam estar fechados em paz agora bem abertos, brilhando de ganância no escuro. No dia seguinte, o Bodhisatta chegou perto do Aceta, que já tinha voltado para sua pose serena de sempre, sentado, os olhos baixos, a respiração lenta, todo recolhido. E o Bodhisatta falou com ele, sem gritaria, sem escândalo, só apontou, com palavras tranquilas, a contradição.
Disse mais ou menos assim, um homem que de dia se mostra como um modelo de renúncia e de noite estende a mão pro que não é dele, esse homem carrega duas vidas e nenhuma delas é verdadeira. A túnica não faz o santo, o lugar de meditação não faz o sábio, o que faz é a conduta quando ninguém está olhando. O Aceta, desmascarado, não teve o que responder, a pose ruiu, porque uma coisa é enganar a multidão que passa de longe, outra é sustentar a mentira diante de alguém que olhou de perto e viu. Agora repara no que esse conto está dizendo, ele está falando de uma virtude que empalia a gente chama de ire, que é uma espécie de vergonha interior saudável, aquele senso de não querer fazer o errado nem quando ninguém vai descobrir, e está falando do contrário disso, a hipocrisia, o uso da aparência de bondade como ferramenta para fazer o mal com mais conforto.
E olha como isso é atual, a gente vive um tempo em que a imagem virou tudo, tem gente que cuida da fachada com um capricho impressionante, a foto certa, a frase de efeito sobre gentileza, a postagem sobre compaixão, o discurso bonito sobre simplicidade, enquanto por baixo faz exatamente o oposto, a gente até inventou o nome para isso, fala em performar virtude, e o mais perigoso é que a gente faz isso com a gente mesmo também, mostra um lado polido para o mundo e vai escondendo os pequenos furtos do dia, a mentirinha aqui, o atalho desonesto ali, a regra que a gente burla quando acha que ninguém vê, a túnica de casca de árvore, hoje, pode ser um perfil bem cuidado, o conto não é cruel com o aceta, e essa é a parte budista da coisa, ele não termina com castigo, termina com a verdade dita na cara, com gentileza, porque o ponto não é destruir o homem, é dissolver a mentira, a mentira só pesa enquanto está escondida, quando é nomeada com calma, ela perde o poder, e aí, só aí, sobra espaço para a pessoa, talvez mudar, aqui vai uma coisa para hoje, pensa em um lugar da sua vida onde o que você mostra por fora não bate com o que você faz quando está sozinho, não precisa ser nada enorme, pode ser pequeno, e faz hoje, no escondido, uma única ação coerente com a pessoa que você diz ser por fora, cumpre uma promessa que ninguém cobrou, devolve o que pegou, faz a coisa certa exatamente no ponto em que ninguém ia ficar sabendo, porque é ali, no escuro do pomar, quando ninguém está olhando, que se descobre se a gente é o santo ou só a túnica.