A garça do palácio que se vingou dos meninos

Budismo · Temporada 12 · Episódio 43 de 50 — em ordem cronológica

A crueldade banalizada tem um preço. Quando a vingança parece a única resposta, você seria capaz de parar a roda?

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Transcrição

Imagina um pássaro tão doce ou tão acostumado com gente que vive solto dentro de um palácio andando entre as pessoas como se fosse de casa. E imagina que um dia, sem motivo nenhum, esse pássaro é maltratado e maltratado de um jeito cruel por quem deveria estar protegendo ele. O que esse pássaro faz? Foge? Aceita? Ou faz outra coisa? A resposta a essa pergunta nesse conto vai mexer com a sua ideia do que é justiça, do que é vingança e do que a gente faz com a raiva quando ela aparece. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era Buda, quando ele ainda estava trilhando o caminho, vida após vida, como o Bodhisatta.

Nesses contos ele aparece as vezes como rei, as vezes como sábio, as vezes como um simples animal e nesse aqui ele aparece bem no meio da história, como conselheiro, como a voz da sabedoria num palácio onde as coisas tinham saído do controle. A história se passa em Benares, no tempo de um rei chamado Brarmadata. E nesse palácio vivia uma garça, uma garça mansa criada ali dentro, que tinha um trabalho de verdade. O rei tinha confiado a ela uma tarefa, levar mensagens. A garça voava daqui pra ali, ia e voltava, carregava recados e fazia tudo direitinho. Era de confiança, era parte da casa, e essa garça no palácio vivia perto dos filhos do rei, os meninos, os jovens príncipes, crianças ainda, e aqui começa a parte difícil de ouvir.

Um dia esses meninos estavam brincando e a garça passou perto, e eles por puro divertimento por aquela crueldade que às vezes aparece em quem nunca aprendeu a sentir o que o outro sente, agarraram a pobre garça, seguraram com força, e brincando, rindo, apertaram tanto, torceram tanto, que mataram o pássaro, mataram a garça que confiava neles, que andava no meio deles sem medo nenhum. Repara que não foi um acidente bobo, foi descuido somado a crueldade, foi a confiança de um ser vivo sendo paga com a morte, e como brincadeira ainda por cima, mas a história não paraí, porque nesse mesmo palácio vivia outra garça, outra fêmea da mesma espécie, que era a amiga companheira da garça morta, e quando ela viu o que tinha acontecido, quando entendeu que os meninos tinham matado a sua companheira por diversão, alguma coisa endureceu dentro dela, ela não esqueceu, ela esperou, e um dia achou os dois meninos sozinhos, sem ninguém por perto, voou até eles, e com o bico atacou, foi nos olhos das crianças, cegou os dois, óleo por óleo, no sentido mais literal e mais terrível da expressão, os meninos tinham tirado a vida de um ser em defeso por brincadeira, e agora pagavam com a própria visão, feito isso, a garça levantou o vôo, e foi embora do palácio, pra nunca mais voltar, agora você pode estar esperando que o conto termine com a vingança, com aquela satisfação meio amarga de eles mereceram, mas não é aí que o Buda quer chegar, o Bodhisatta, que era o conselheiro sábio do rei, observou tudo isso, e ele não saiu aplaudindo a vingança da garça nem defendendo a crueldade dos meninos, ele olhou pros dois lados e disse, em palavras de sabedoria, algo que vale pra hoje tanto quanto valia naquele tempo, quem causa dano, recebe dano de volta, quem fere por gosto, planta uma semente que cresce e volta contra ele, a roda gira, a crueldade não some no ar, ela acha um caminho de volta, repara no que esse conto está realmente dizendo, ele não está dizendo vingi-se, ele está mostrando, com uma imagem que dói, como funciona o ciclo da violência, os meninos não nasceram cruéis, eles foram cruéis num momento de descuido, achando que aquilo era pequeno, que aquilo era só uma brincadeira, e foi exatamente esse só uma brincadeira que abriu a porta pra tudo de ruim que veio depois, e olha como isso fala com a gente hoje, a gente vive num tempo em que ferir os outros virou quase um passatempo, as pessoas se reúnem na internet pra atacar um desconhecido, pra rir do tropeço de alguém, pra mandar uma mensagem maldosa e seguir o dia como se nada fosse, é só uma piada, é só um comentário, foi só de brincadeira, a gente diz isso o tempo todo, e esquece que do outro lado tem um ser que sente, tem uma garça que confiava em você andando ali no meio, sem medo, e a crueldade banalizada, a crueldade tratada como diversão, é exatamente o veneno que esse conto antigo já tinha enxergado lá atrás, o budismo tem uma palavra pra essa primeira virtude que faltou aos meninos, a insa, a não violência, o não causar dano, e tem outra pro que faltou a garça que se vingou, canti, a paciência, a capacidade de não devolver o golpe, de não deixar a dor virar mais dor, porque a garça na vingança dela não encontrou paz, ela ganhou os olhos dos meninos, mas perdeu o lar, perdeu a leveza, voou embora carregando aquilo pra sempre, a vingança nunca devolve o que foi tirado, ela só multiplica a perda, e é esse o miolo do conto, a crueldade gera a crueldade, a dor gerador, e o único jeito de parar essa roda é alguém ter a coragem de não dar o próximo empurrão, aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa pequena crueldade que você está prestes a cometer e que está chamando de outra coisa, aquele comentário ácido que você vai soltar só de brincadeira, aquela resposta seca que a pessoa está pedindo, aquela ironia que vai humilhar alguém na frente dos outros, antes de soltar, para um cês e faz a pergunta da garça do palácio, do outro lado disso tem um ser que sente, e, se a resposta for sim, segura, não por medo da volta, mas porque você não quer ser quem aperta o pássaro que confiava em você, hoje, escolhe não dar o próximo empurrão na roda, uma crueldade que não acontece já é o caminho começando a se fechar.