Imagina uma tartaruga deitada no fundo macio de um lago, no calor do meio-dia, com tudo que ela precisa ao alcance da boca, comida, sombra, água fresca, e mesmo assim, alguma coisa dentro dela insiste em adiar, em deixar para depois, em não se mexer enquanto ainda dá tempo. Você já sentiu isso? Aquele peso gostoso da preguiça que parece inofensivo, até o dia em que ele cobra a força, e se conta é sobre o instante em que a conta chega, e sobre o quão alto pode ser o preço de um depois eu faço. Deixa eu te contar. Esse é um dos já atacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, mas estava se tornando Buda aos poucos, vida após vida.
Nessas histórias, o futuro Buda, o Bodhisatta, aparece às vezes como rei, às vezes como sábio, às vezes como um simples animal na floresta, e o que ele faz, em cada uma delas, é mostrar com o próprio exemplo uma virtude que a gente pode levar para casa, pois bem. Havia, perto de uma grande floresta, um lago largo e tranquilo, naquele lago vivia uma tartaruga dessas antigas, de casco gasto, que tinha passado a vida inteira na preguiça boa da água parada. Comia quando dava vontade, dormia quando dava sono, e quando o sol esquentava demais ela se enfiava na lama do fundo e alificava, sem pressa nenhuma.
A tartaruga não tem pressa, ela gostava de dizer para si mesma. E enquanto a chuva caía, e o lago se mantinha cheio, ela tinha razão. A preguiça dela não machucava ninguém, mas veio a estação seca. O sol bateu firme, dia após dia, e o lago começou a minguar, primeiro nas bordas, depois no meio, até virar uma poça rasa de lama quente. Os outros bichos perceberam, os peixes se agitaram, os sapos saltaram em busca de outra água, e o Bodhisatta, que naquela vida tinha nascido como o rei dos gansos selvagens, sobrevoava aquela região com seu bando, observando do alto, do jeito sereno de quem enxerga longe.
O rei dos gansos pousou na beira da lama e chamou a tartaruga. "Amiga, repara a tua volta, a água está acabando, mais alguns dias e essa lama vira pó. Há um outro lago, grande e fundo, depois daquela serra. Eu e meus companheiros podemos te levar até lá. Mas tem que ser agora, enquanto ainda há tempo." A tartaruga ergueu a cabeça devagar, olhou o pouco de água que restava e disse. "Ainda dá. Olha, ainda tem um dedo de água aqui. Amanhã eu penso nisso. Hoje está quente demais pra ficar planejando o viagem." O ganso insistiu, com a paciência de quem se importa de verdade. Amanhã pode ser tarde, a seca não espera a tua disposição.
Mas a tartaruga já tinha voltado a se enterrar na lama morna, resmungando que tartaruga não tem pressa, que sempre dera certo, que pra que mudar, e o rei dos gansos, que não podia carregá-la contra a vontade, al solvou com o coração pesado, prometendo voltar. Os dias passaram, a lama secou, rachou, virou um tabuleiro de gretas duras. E a tartaruga, que tinha enfim entendido o tamanho do erro, já estava fraca demais, presa no barro, endurecido, sem força pra se arrastar um palmo que fosse. Quando os gansos voltaram, encontraram a velha amiga quase imóvel, a boca ressecada, os olhos pedindo o que antes ela tinha recusado de mão beijada.
Eles fizeram o que podiam, juntaram um galho, pediram que ela mordesse firme pra ser carregada pelos ares. Mas a história, nas versões mais duras desse conto, não termina com resgate, termina com a lição, que a preguiça não matou a tartaruga num golpe só, matou aos poucos, num amanhã de cada vez, até não sobrar nenhum amanhã, agora, repara no que esse conto está dizendo. Ele não está falando de uma tartaruga boba, está falando de nós. A virtude que falta ali tem nome no budismo, viria, a energia, o esforço diligente, a disposição de fazer o que precisa ser feito quando ainda é hora.
E o vício que destrói a tartaruga também tem nome, é a indolência, esse adiamento confortável que se disfarça de descanso. A preguiça raramente chega gritando "vou te arruinar", ela chega sussurrando amanhã, ainda dá, está quente demais hoje, e a gente acredita porque ela diz exatamente o que a parte preguiçosa da gente quer ouvir. O dico honesto é o nosso tempo inteiro, a gente vive cercado de lagos que estão secando devagar e a gente finge que não vê, a conversa que precisa ter, mas fica pra depois. O médico que a gente não marca, o hábito que sabemos que faz mal e adiamos largar, o sonho que vai sendo empurrado pra um quando der, num mundo que ainda por cima nos oferece mil maneiras de adiar com prazer, mais um vídeo, mais uma rolagem na tela, mais um começo segunda-feira, a gente confunde conforto com segurança, mas a tartaruga estava muito confortável na lama morna, conforto não é o mesmo que estar a salvo, às vezes o conforto é justamente o barro secando em volta de você, devagarzinho, enquanto ajuda ainda sobrevou ao céu te chamando e tem uma sutileza linda nesse conto, o Bodhisatta não força ninguém, a energia, o esforço, a decisão de se mover, isso ninguém faz por você.
Os gansos podem mostrar o caminho, podem oferecer as asas, mas morder o galho e segurar firme é escolha de quem está na lama, a salvação estava disponível, o que faltou foi o gesto de aceitá-la a tempo, aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa única coisa que você vem adiando, dessas que você sabe, lá no fundo, que o lago está secando, só uma, não tenta resolver a vida inteira, hoje, ainda hoje, dá um passo pequeno e concreto nessa direção, manda a mensagem, marca a consulta, abre o documento, dá o primeiro telefonema, não precisa atravessar a serra de uma vez, você só precisa morder o galho enquanto os gansos ainda estão por perto, porque a água, essa, não espera a sua disposição, e o melhor momento pra sair da lama, é sempre enquanto ainda há um dedo de água.