Imagina um homem doente, magro, sem comer a dias, e em volta dele os melhores médicos do reino, os remédios mais caros, comida farta numa bandeja de ouro e nada funciona. Ele continua definhando. Agora imagina que esse mesmo homem, levado para uma cabana simples, ao lado de um único amigo, comendo um mingau-ralo de arroz quebrado, se levanta curado em poucos dias. O que mudou? A resposta a essa pergunta é o coração inteiro desse conto. E ela talvez te diga algo sobre o que falta na sua vida agora mesmo. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, vida após vida, juntando virtude.
Nessa história, o futuro Buda, o Bodhisatta, aparece como um jovem chamado Kappa, o discípulo fiel de um velho aceta, e o que ele cura não é uma doença comum, é a doença de se afastar de quem a gente ama. Era uma vez uma seta de muito renome chamado queçava, antes de partir para a floresta, ele tinha sido um homem de grande peso, com milhares de seguidores, mas com o tempo quase todos foram embora, viver suas vidas. Ficou só um, um jovem discípulo chamado Kappa. Os dois eram inseparáveis, quisava amava aquele rapaz como se ama um filho, e o rapaz cuidava do velho com uma devoção tão calada e tão constante que era quase invisível.
Eles dividiam tudo, o silêncio da manhã, o pouco de comida, as longas caminhadas, onde ia um, ia o outro. Acontece que o rei de Benares, um homem de coração bom, ouviu falar do santo queçava e ficou encantado, convidou a seta para morar no palácio, ser seu mestre, viver cercado de honra, e queçava aceitou, foi para o palácio, mas o jovem Kappa não foi, ficou na floresta, no eremitério, cuidando dos outros que de vez em quando apareciam por lá, e foi aí que a coisa começou a desandar. No palácio queçava tinha tudo, quartos macios, criados, perfumes, banquetes, o rei o tratava como tesouro, mas o velho aceita foi perdendo o apetite, foi ficando pálido, sem forças, não conseguia dormir, a comida farta empurrava na garganta e não descia, os dias passavam e ele só pensava numa coisa, no silêncio da floresta, na cabana simples, em Kappa, o rei preocupado, chamou os cinco melhores médicos do reino, eles examinaram queçava de cima a baixo, prepararam tônicos, unguentos, dietas especiais, remédios que custavam fortunas, nada, o velho só piorava, estava definhando ali, cercado de ouro, e ninguém entendia por que, até que queçava, fraquinho, juntou coragem e falou com o rei, majestade, o senhor tem sido bondoso comigo além de qualquer medida, mas eu estou morrendo de uma doença que nenhum remédio do palácio alcança, eu preciso voltar pra floresta, preciso ver Kappa, o rei, embora triste, era sábio bastante pra não prender quem ele amava, mandou que levassem o acet de volta ao eremitério, com cuidado, numa liteira, e mandou junto o seu próprio conselheiro, um homem chamado Narada, pra acompanhar e ver no que dava, quando quezava chegou na floresta e avistou de longe a cabana, e na porta da cabana o seu Kappa, alguma coisa nele se acendeu, o jovem correu, ajudou o velho a descer, sentou ao lado dele, e fez o que sempre fazia, preparou um mingau, daqueles bem simples, de arroz quebrado, sem tempero nenhum, cozido em folhas da própria mata, serviu numa tigela de barro, rezava comeu, e comeu tudo, aquela comida pobre, que no palácio nem serviriam aos criados, desceu macia, quentinha, e fez bem, no dia seguinte ele estava mais forte, no outro, já caminhava, em poucos dias, o velho que os médicos do rei tinham desenganado estava de pé, curado, com a cor de volta no rosto, o conselheiro Narada, espantado, perguntou, Mestre, no palácio o senhor tinha as melhores comidas do mundo e definhava, aqui o senhor come um mingau ralo e Sarah, como pode, e quezava respondeu, com aquela calma de quem enfim entendeu a própria vida, não é a comida que me cura, é comer ao lado de Kappa, no palácio eu tinha tudo, menos a única coisa de que eu precisava, aqui eu não tenho quase nada, mas tenho afeto e a confiança de um amigo, e isso meu caro, alimenta mais que qualquer banquete, agora, repara no que esse conto está dizendo, porque ele é muito mais fino do que parece, a gente lê e pensa, ah, é uma história bonita sobre amizade, e é, mas tem uma faca escondida nela, e a faca aponta pra nós, porque o palácio não era o vilão, o rei era bom, a comida era de verdade, o cuidado era sincero, e mesmo assim que a sávada oecía, por quê, porque nenhuma fartura substitui um vínculo, nenhum conforto preenche o lugar de uma pessoa, o velho acet estava cercado de coisas e morrendo de solidão, e essa talvez seja a doença mais comum do nosso tempo, só que a gente não dá esse nome a ela, a gente vive numa época de palácio, comida a um toque na tela, entretenimento infinito, conforto encamadas, nunca foi tão fácil ter tudo, e nunca tanta gente se sentiu tão vazia, tão cansada, tão estranhamente doente sem ter doença nenhuma, a gente acumula conveniências e perde os capas, troca a tigela de barro ao lado de um amigo pelo banquete sozinho, difone no ouvido, rolando o dedo na tela, e aí estranha porque o mingau de outras pessoas parece curar uma coisa que o nosso ouro não cura, no budismo tem uma palavra para isso, meta, o afeto bondoso, esse amor calmo que liga uma pessoa a outra, mas tem também a confiança, esse deixar se cuidar, esse permitir que alguém te sirva o mingau e te veja fraco, capa curou quezava não com remédio, mas com presença, e quezava se deixou curar não com orgulho, mas se entregando, as duas coisas juntas, a amizade que se dá e a confiança que se deixa receber, era disso que o velho estava morrendo de falta, no meio de toda a riqueza do mundo, aqui vai uma coisa para hoje, pensa em quem é o seu capa, aquela pessoa ao lado de quem até o mingau ralo desce bem, e faz uma coisa só, ainda hoje, marca de comer com ela, não um jantar caro, não um evento, uma refeição simples, sem pressa, sem tela, só vocês dois e a comida, e se você for o que está fraco e cercado de palácio, faz o mais difícil, liga e diz que está precisando, porque a cura às vezes não está no que falta na sua dispensa, está em quem falta na sua mesa.